Corra! e mais 6 filmes para discutir o racismo

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Corra!” nem estreou no Brasil e já gerou o maior hype. O filme do qual pouco se pode falar sem que detalhes da trama atrapalhem a experiência do espectador trata o racismo de forma pouco usual, além de ser um ótimo suspense.

O polêmico e intrigante filme é a estreia de Jordan Peele como diretor em longa metragem, que também é responsável pelo roteiro. A experiência prévia de Jordan inclui principalmente comédia para TV, o que é bastante surpreendente visto que “Corra!” passa longe do gênero. Tenso, enigmático e assustadoramente perturbador, o filme narra a visita de um casal inter-racial aos pais da garota branca que, apesar dos esforços, não conseguem disfarçar a discriminação em relação ao genro negro.

Apesar do terceiro ato um pouco precipitado, o filme é bem conduzido, e narra a história de um ponto de vista bastante inesperado e relevante. O ritmo cadenciado é acertado e as atuações são, em geral, competentes, especialmente a do protagonista Daniel Kaluuya, que consegue implementar nuances sutis e marcantes, ao mesmo tempo.

A maneira como se aborda o racismo no filme toca na ferida com gosto. Embora algumas ofensas possam passar despercebidas por aqueles que repelem a correção política, por exemplo, para a maioria do público, causa desconforto e repulsa, e colocam em pauta uma questão que precisa ser abordada de maneira mais abrangente, pungente e frequente.

Para fomentar uma discussão necessária, listo aqui mais seis filmes que tratam do assunto a partir de diferentes pontos de vista.

1. 12 Anos de Escravidão (12 Years A Slave, 2013)

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O vencedor do Oscar de melhor filme de 2014, “12 Anos de Escravidão“, é uma adaptação da autobiografia homônima de Solomon Northup, um homem negro que nasceu livre no estado de Nova York, em 1807, e foi raptado e vendido como escravo, até conseguir a liberdade, 12 anos depois.

De roteiro conciso, direção precisa, trilha minimalista e eficiente e atuações brilhantes, o filme expõe a realidade de forma nua e crua, mas nunca sádica. O retrato dos personagens brancos, embora não os vilanize de maneira generalizada, não os poupa. Em paralelo, os escravos nunca são vitimizados.

Ainda que algumas sequências sejam graficamente cruéis, Steve McQueen, o diretor, prioriza emocionar o espectador com situações menos óbvias, o que acaba sendo um soco no estômago ainda mais eficiente. Uma frase, proferida logo no início do filme por um dos escravos, poderia facilmente se encaixar em um contexto atual, e por isso é tão assustadora:

“Survival is not about certain death. It is about keeping your head down”, que em uma tradução contextualizada seria algo como “Para sobreviver, não podemos bater de frente. Precisamos abaixar a cabeça”

O Nascimento de Uma Nação” (The Birth of A Nation, 2016), de Nate Parker, que também aborda a escravidão nos EUA, é outro filme obrigatório, embora tenha obtido pouco reconhecimento da crítica e do público por conta de uma polêmica envolvendo o diretor e o o co-roteirista, Jean McGianni.

2. O Sol É para Todos (To Kill A Mockingbird, 1962)

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Baseado no romance homônimo de Harper Lee, “O Sol É para Todos” conta a história de um advogado branco que defende um homem negro acusado de estuprar uma garota branca, em uma pequena cidade do estado do Alabama, nos anos 1930.

Como o livro, o filme foi premiado e aclamado pelo público, que junto com a crítica especializada o considera um clássico americano. A temática, embora abordada pela ótica do advogado e seus filhos, é bastante relevante, especialmente se considerarmos que o filme foi lançado há mais de cinquenta anos.

Na mesma linha, “À Espera de Um Milagre” (The Green Mile, 1999), adaptação para o cinema do livro de mesmo nome de Stephen King, também conta a história de um homem negro vítima de racismo, acusado de estuprar e matar duas meninas brancas, em uma pequena cidade do estado de Louisiana, e é igualmente devastador.

3. Faça A Coisa Certa (Do The Right Thing, 1989)

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Spike Lee dedicou boa parte de sua carreira para tratar sobre questões negras, e “Faça A Coisa Certa” é provavelmente o filme mais relevante de sua filmografia, bem como um dos mais bem executados.

Os acontecimentos se passam em uma bairro negro do Brooklin, em Nova York, em um dia de verão. Conforme as temperaturas aumentam, aumenta também a tensão entre moradores negros e brancos, incentivada por uma discussão sobre a ausência de atores negros na “parede da fama” de uma pizzaria, que vai de insignificante a trágica em poucas horas.

Sem tomar partido, Spike Lee recria, em um microcosmo, uma realidade universal de intolerância e segregação, através do uso de uma linguagem muito própria, que trouxe projeção tanto para o filme quanto para Spike Lee.

Outros filmes do diretor que tratam do assunto de outros pontos de vista e se mantêm atuais até hoje são: “Febre da Selva” (Jungle Fever, 1991), “Malcolm X” (1992) e “A Hora do Show” (Bamboozled, 2000).

4. A Outra História Americana (American History X, 1998)

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O primeiro longa metragem da carreira do diretor Tony Kaye narra eventos em diversos momentos da vida de um jovem americano neonazista que é preso depois de cruelmente assassinar um homem negro.

Através de um estudo de personagem meticuloso, o filme analisa as escolhas de Derek, o protagonista brilhantemente interpretado por Edward Norton, que se envolve com um grupo de supremacia branca depois que seu pai é assassinado por homens negros, durante o serviço como bombeiro. A estrutura não-linear permite ao espectador um passeio por diversos momentos da vida de Derek, bem como o presente, quando ele é libertado da prisão após cumprir pena ao lado de um homem negro, que transforma sua visão de mundo.

O retrato da intolerância perpetuado pelos ideais do nazismo de Hitler é implacável e o diretor é bem sucedido tanto na maneira como conduz a história desses complexos personagens quanto ao discursar sobre o assunto sem impor seu ponto de vista. Dos filmes realizados em torno dessa temática, é certamente um dos mais marcantes e um dos mais competentes.

5. Cara Gente Branca (Dear White People, 2014)

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A ótima série da Netflix que estreou esse ano é adaptada do filme de mesmo nome, de 2014. No longa, assim como na série, são retratados conflitos entre alunos negros e brancos de uma universidade prestigiosa e de corpo discente predominantemente branco.

Em seu longa de estreia, Justin Simien parece estar bastante confortável. A linguagem jovial proporciona ao espectador uma experiência inusitada, tanto no filme quanto na série, que Justin assina como criador. O texto rápido, incisivo e certeiro educa e diverte, sem ser óbvio.

Tanto filme quanto série são essenciais porque demonstram o preconceito escondido nas entrelinhas, o absurdo dos discursos que se apoiam em conceitos errôneos como “racismo reverso” e a violência mascarada presente no cotidiano. Atual, “Cara Gente Branca” dialoga com a juventude, mas mostra aos mais velhos que o racismo ainda está muito presente na sociedade, mesmo quando não é escancarado.

6. Distrito 9 (District 9, 2009)

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Distrito 9“, embora seja um filme de ficção científica que não trata exclusiva e explicitamente de racismo, é uma crítica direta à segregação e discriminação. Dirigido e roteirizado por Neill Blomkamp e inspirado nos eventos ocorridos no Distrito 6 de Cape Town, na África do Sul, durante o período do Apartheid, o filme relata acontecimentos que se passam em um distrito em Joanesburgo, onde vivem seres extraterrestres que chegaram à Terra em 1982 e não obtiveram condições de retornar ao planeta de origem.

Discriminados pelos humanos, eles vivem à margem da sociedade, em condições precárias, e à mercê do crime e de experimentos inescrupulosos praticados pelo governo. Ainda que o filme demonstre a realidade de forma exagerada e fantasiosa, é impossível não comparar o distrito em questão com os campos de concentração nazistas da Segunda Guerra Mundial, por exemplo. Ao exagerar a triste realidade dos extraterrestres, maliciosamente chamados de “camarões”, o filme evidencia um problema cultural e histórico de forma arrebatadora.


Que filmes você acha que ficaram de fora da lista e são essenciais para pensar e discutir o racismo? Deixe suas sugestões para uma próxima lista nos comentários!

 

 

 

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