Precisamos falar sobre La La Land

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Spoilers em frente. Siga por sua conta e risco.

É improvável que você não saiba do que trata La La Land, a essa altura do campeonato. O filme emplacou nos últimos meses, figurando entre os recordistas de indicações ao Oscar e Globo de Ouro e tendo uma ótima aceitação do público, de maneira geral. A temporada de êxitos termina no dia 26 desse mês, quando a premiação mais badalada do cinema entrega suas estatuetas. Considerando-se Globo de Ouro, SAG Awards e BAFTA, algumas vitórias são quase certas.

Minha história com La La Land, em poucas palavras: ouvi falar bem, vi fotos, soube do elenco e me empolguei, vi o trailer uma semana antes da estreia e me empolguei mais ainda, perdi a estreia, demorei três semanas para assistir ao filme e dei uma desanimada com comentários negativos, assisti esperando uma coisa e era outra, chorei, me emocionei forte, chorei mais ainda, saí do cinema abalada, sem saber que caminhão tinha me atingido, cheguei em casa e assisti de novo. E pelo menos quatro vezes mais depois disso, em menos de uma semana. Amei. Não achei perfeito, depois achei, agora não sei. Só sei que, no meu coração, ele recebe a nota máxima. Vou torcer no Oscar, vou cantar no Oscar e vou chorar no Oscar.

Tá, fui meio prolixa, mas é assim que saem as coisas quando tento escrever sobre La La Land. Essa já é a terceira tentativa, e a primeira vez que decido fazer uma crítica com spoilers aqui no blog, porque a única maneira que encontrei de falar sobre tudo o que preciso falar é pontuando momentos importantes da trama. Então, se você pretende assistir ao filme e ainda não o fez, copie o link desse texto e volte depois!

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La La Land é…

  1. Uma bela homenagem à Los Angeles, Hollywood e aos musicais das décadas de 40 e 50
  2. Um musical primorosamente filmado
  3. Uma das mais lindas histórias de amor contadas pelo cinema
  4. O grande projeto de vida de Damien Chazelle
  5. O mais novo filme a ocupar minha prateleira de filmes do coração

Muito se falou sobre as referências e homenagens. Há milhares de críticas pela internet de gente com repertório desse tipo de cinema muito mais extenso que o meu, então não pretendo me alongar no tópico. Mas fato é que Damien consegue imprimir o estilo marcante de musicais consagrados da época, com longos e abertos planos que privilegiam a performance dos atores e da coreografia, em detrimento de uma edição muito frenética, como é o caso em Chicago (2002), de Rob Marshall, que junto com Moulin Rouge! (2001), se consagrou como o filme que trouxe o grande público de volta às salas para assistir a musicais, além de ter faturado seis dos treze Oscars aos quais foi indicado. E por mais que a estética, em geral, não seja exatamente vanguardista, ou original, Damien a usa de maneira consciente, madura e correta.

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A música de Justin Hurwitz, colaborador de Damien em seus outros dois longas, encaixa-se na trama belamente, nunca de maneira excessivamente artificial, como pode acontecer em musicais, e embora algumas canções tenham uma influência muito clara da Hollywood antiga, há outras com ar mais contemporâneo, como City of Stars, uma das melhores canções do filme e indicada ao Oscar de melhor canção – Audition (The Fools Who Dream) também concorre na categoria.

A escolha por filmar em 35mm é acertada e corajosa. A textura e cores impressas no filme dão um ar nostálgico, apropriado para essa homenagem, mas as dificuldades da produção, especialmente nos planos sequência, certamente aumentaram de maneira considerável. A sequência de abertura, principalmente, pode ser considerada um dos mais interessantes e difíceis planos sequência dos últimos tempos, mesmo que não seja literalmente um plano sequência, se considerados os cortes escondidos. As peculiaridades das cenas, que vão da coreografia em 360 graus, à quantidade de carros de cena e figurantes, passando pela dificuldade imposta pela locação, fazem dela um feito cinematográfico digno de aplausos. Há ainda o plano sequência da festa, em que a câmera mergulha na piscina com os atores, em um ritmo que vai do compassado ao frenético em segundos e que mistura referências antigas de uma maneira lúdica, satírica e melancólica ao mesmo tempo.

O subtítulo brasileiro “Cantando as Estações” refere-se à divisão do filme em cinco momentos. Ele se inicia no inverno, passa pela primavera, verão, outono e conclui-se novamente no inverno. A passagem de tempo não necessariamente acompanha as estações do ano, mas elas representam o desenrolar dos acontecimentos e, mais precisamente, a evolução do relacionamento do casal protagonista: no inverno eles se conhecem, mas não estabelecem nenhum vínculo; durante a primavera, o relacionamento se inicia; no verão eles vivem a plenitude do amor; e no outono (ou “fall”, em inglês, que também pode significar “queda”), o relacionamento se depara com obstáculos que vão ocasionar o seu fim.

As cores acompanham as mudanças de estação, ou mudanças de tom. O início é vibrante e óbvio com os blocos de cores primárias presentes especialmente nos figurinos e a luz das muitas cenas externas em uma Los Angeles sempre ensolarada. Há um frescor das dores ainda não descobertas e uma jovialidade representada especialmente pelo personagem de Emma Stone, Mia, desprendida do eventual fracasso e desperta para as oportunidades que se apresentam.

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O personagem de Ryan Gosling, Sebastian, embora um pouco rabugento, também ainda vive para alcançar o objetivo de ter seu próprio clube de jazz, e isso o motiva. Durante o “outono”, tanto Mia quanto Sebastian estão desgastados pelas intempéries e deseperançosos, e o relacionamento sofre com as incertezas e decepções individuais. O clima lúgubre se traduz novamente nos figurinos, sóbrios e esmaecidos e na luz diminuta, em cenas noturnas e internas a meia luz. Ao fim do filme, quando se está novamente no Inverno e cada um dos dois tomou rumos separados, a austeridade aparece de novo nos figurinos, dessa vez para demonstrar o amadurecimento.

Essa é a terceira vez que Emma Stone e Ryan Gosling interpretam um casal no cinema, e a intimidade da vida real se traduz em química impressionante na tela. Ambos realizam um trabalho digno de nota e o reconhecimento que receberam não é injustificável. Os dois cantam e dançam bem, e Ryan ainda toca piano como um músico experiente. Emma imprime em Mia um humor desajeitado e escrachado que contrastam com a imagem da mocinha perfeita, acertadamente, enquanto Ryan faz de Sebastian um ser de alma velha, rabugento e de expressões corporais exageradas que dão a certas cenas o alívio cômico necessário.

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Em comum, os personagens têm o desejo enraizado de realizarem-se como artistas: Mia segue fazendo testes de elenco para se tornar atriz, enquanto serve café nos estúdios da Warner e convive diariamente com as estrelas que a inspiram e os sets que a encantam e Sebastian estuda obsessivamente canções de jazz que toca no piano, e de maneira igualmente obsessiva, aspira tornar-se o proprietário de um antigo clube de jazz para se livrar de empregos que o obrigam a tocar música que ele considera inferior.

É interessante notar que Emma e Ryan também passaram pelo doloroso processo que eventualmente os levou ao estrelato. Emma abandonou a escola aos quinze anos para tentar a carreira de atriz em Los Angeles, cidade para a qual se mudou com a mãe. Ryan, por sua vez, embora tenha começado a carreira ainda na adolescência, com aparições em programas de TV, só passou a ser reconhecido pela público e pela crítica dez anos mais tarde. Damien, ainda que tenha alcançado reconhecimento cedo (aos trinta anos de idade, com o segundo longa de sua carreira, Whiplash), trabalhou no projeto de La La Land por seis anos. O roteiro do filme foi rejeitado diversas vezes e acabou sendo engavetado para que Damien pudesse filmar Whiplash. E é no mínimo curioso que o projeto da vida de Damien seja justamente um musical, gênero pouco popular nos tempos atuais, que, para muitos, está fadado ao esquecimento, como o jazz, que Sebastian insiste em tentar preservar.

Fato é que Damien e seus personagens são grandes românticos, e a realização dos seus sonhos, muito embora seja uma realidade tanto para Damien quanto para os atores que interpretam Mia e Sebastian, é muito mais rara que talento. Desse ponto de vista, o filme é bastante otimista. Mia é a maior incentivadora de Sebastian, e vice versa. Enquanto ambos convivem com céticos que não acreditam em seu sucesso (a mãe de Mia e a irmã de Sebastian), são eles que apoiam, aplaudem e incentivam um ao outro. Ironicamente, para que seus sonhos se tornem realidade, eles precisam se separar, e a escolha pela carreira em detrimento do relacionamento é pragmática tanto quanto um sonho não parece ser. Nesse sentido, o filme é bastante intransigente. E por isso a conclusão é tão agridoce. Mia e Sebastian estão nos lugares que sempre quiseram estar e que por muitas vezes acreditaram ser inalcançáveis, e para que isso se tornasse possível tiveram que abrir mão do amor verdadeiro (e eterno).

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Tanto porque o amor entre eles é tocante quanto porque o filme é tecnicamente perfeito (tirando a sequência do observatório, um pouco longa demais, e um problema de ritmo no segundo ato), La La Land tornou-se o quarto filme a ocupar a prateleira dos meus filmes do coração. O roteiro primoroso equilibra os momentos leves com os dramáticos de maneira a não torná-lo pedante ou raso, e com poucos gestos ou palavras, os personagens revelam sentimentos profundos.  A direção precisa e apaixonada de Damien tem um bom timing tanto para comédia quanto para drama, e arranca de Emma e Ryan atuações brilhantes, que aparecem mesmo em planos abertos, mas contidas o suficiente em momentos mais intimistas. Um exemplo da maestria do trabalho dos três é a sequência em que Mia e Sebastian discutem durante o jantar, momento crucial da trama. O diálogo realista aliado à fotografia dramática e a elementos que incrementam a cena como o alarme de fumaça, a própria fumaça e o fato de a comida ter passado do ponto, como o relacionamento dos dois (ou as escolhas de carreira que tinham feito até então), tornam a cena genial e muito mais impactante.

Ainda que o trailer passe a impressão de que o filme é subversivo e inusitado, a verdade é que a estrutura da trama é bastante convencional, cheia de clichês, até. Mas é certo que La La Land vai perdurar por um bom tempo na minha retina. Acredito que os filmes que mais nos emocionam o fazem porque nos identificamos de maneira profunda com seus personagens. Persistir na realização de um sonho e lutar contra a dúvida dos incrédulos, que você mesmo personifica de vez em quando, é das lutas mais nobres e duras da vida. Foi assim com Miles de Sideways (2004), Gretta e Steve de Mesmo se Nada Der Certo (Begin Again, 2013), Carl de Chef (2014) e Mia e Sebastian. E agora vocês sabem quais são os meus quatro filmes do coração.

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2 comentários sobre “Precisamos falar sobre La La Land

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