Os melhores filmes de 2016

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Para quem não sabe, até 2013 eu tinha um blog só de listas. As listas passeavam pelos mais diversos assuntos, mas eu acabava falando muito sobre cinema por causa da minha formação e porque cinema sempre foi uma das minhas grandes paixões, desde o meu primeiro contato com uma telona – eu tinha cinco anos e meu pai, que nunca saía sozinho comigo, me levou para ver Pinóquio. Estranhamente, é a primeira vez que publico uma lista nesse blog. Acho que de tanto criá-las, acabou a inspiração e nunca mais quis fazer uma lista que não fosse minimamente criativa. Acontece que fazer listas é um hobby que cultivo há muito anos, e por isso decidi voltar a praticá-lo. Vai virar uma série nova por aqui, então fique ligado! E, enquanto isso, dê uma olhada na lista que fiz com os 15 melhores filmes de 2016 e me diga se concorda ou não!

Como critério, escolhi apenas filmes que tiveram lançamento comercial brasileiro em 2016, com exceção de dois filmes que não foram comprados por nenhuma distribuidora brasileira, mas tiveram seus lançamentos oficiais em 2016, em seus países de origem. Por isso, filmes como A Criada e Era o Hotel Cambridge ficaram de fora da lista, por exemplo. Mas fica aqui a lembrança: ambos são filmaços e merecem ser vistos na telona do cinema (o primeiro está em cartaz e o segundo estreia em março). E vocês, que filmes ficaram de fora de suas listas, e quais vocês acrescentariam?

15. ANOMALISA

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Charlie Kauffman, que dirigiu e roteirizou o excelente Synecdoche, New York, (Sinédoque, Nova York 2008) e escreveu o roteiro dos igualmente notáveis Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, 2004), Adaptation (Adaptação, 2002) e Being John Malkovich (Quero Ser John Malkovich, 1999), é responsável pelo roteiro e direção – que dividiu com Duke Johnson, experiente em animações – de Anomalisa, esse filme que impressiona pela ousadia, técnica e emoções que provoca. Com exceção do protagonista, Michael Stone, e da Anomalisa do título, todos os personagens possuem a mesma base de rosto, o que representa, com eficiência, a falta de personalidade dos mesmos, tal como enxerga Michael. Ao mesmo tempo, ao não vermos rostos conhecidos, como provavelmente aconteceria em um filme live action, conseguimos atribuir a Anomalisa as peculiaridades que a fazem especial e única, aos olhos de Michael. A riqueza de detalhes e o realismo dos cenários e figurinos e a ótima e intimista fotografia revelam uma preocupação estética que influi positivamente na construção de clima e na profundidade da história. Por fim, David Thewlis e Jennifer Jason Leigh fazem um excelente trabalho de dublagem.

14. INVASÃO ZUMBI (BUSANHAENG)

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A Coreia do Sul vem se mostrando nas últimas décadas, uma das melhores fontes de filmes de terror da atualidade, e esse filme não foge à regra. A temática batida é usada de forma magistral, com muita ação, e sem nunca deixar de lado os personagens, bem construídos, e a relação entre eles, que são o cerne do filme, e o tornam emocionante e apelativo. A tensão, mantida do começo ao fim, divide bem o espaço com as situações dramáticas que vão tomando corpo conforme a trama se desenvolve, sem pressa e de maneira coerente. Os questionamentos morais, que vão da maneira como a pai lida com os desejos da filha em face de suas responsabilidades no trabalho às escolhas que as pessoas devem fazer quando se vêem ameaçadas são o terceiro elemento importante do filme, e trazem uma profundidade rara no gênero.

13. O NASCIMENTO DE UMA NAÇÃO (THE BIRTH OF A NATION)

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O longa de estreia do diretor Nate Parker, que também assina como co-roteirista, co-produtor e atua como o protagonista Nat Turner, é um belo debut. A começar pela relevância da história, que retrata a escravidão nos EUA de maneira chocante e devastadora. O cinema tem o poder de traduzir em imagens e sons o que não podemos testemunhar com os próprios olhos, e como ler sobre acontecimentos históricos não é o mesmo que vivenciá-los, e vivenciá-los é impossível, seu papel torna-se crucial para que a nossa experiência seja edificante e possivelmente mude nossa percepção sobre as coisas permanentemente. Esse é o maior trunfo do filme: escancarar o que foi a escravidão e como nossos atos nos dias atuais devem ter essa consciência plena. Estilisticamente, o filme tem bons momentos, quando se distancia do formato cinemão hollywoodiano e se permite experimentar. Há um belo trabalho de som, fotografia e edição e o elenco é primoroso. Algumas cafonices a parte, o filme surpreende pela coragem e porque promete uma carreira promissora a Nate Parker.

12. DEPOIS DA TEMPESTADE (UMI YORI MO MADA FUKAKU)

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Como em boa parte da filmografia de Hirokazu Koreeda, o tema de Depois da Tempestade é a problemática familiar. Mas se há elementos comuns com outros de seus filmes, há também uma diferença crucial. Pela primeira vez, Koreeda trata do assunto de maneira muito leve, com um humor que ora provoca risos discretos, ora induz gargalhadas retumbantes. A morte do pai de Ryota, por exemplo, nunca é tratada com pesar, o que não significa que o tratamento seja desprovido de emoção ou sensibilidade, pelo contrário. Todos os personagens, sem exceção são belamente construídos. A mãe de Ryota, especialmente, me emocionou muito ao me fazer recordar-me de minha avó materna, expansiva, um pouco teimosa e muito honesta. O enfoque em alguns problemas menos sérios, como por exemplo a poeira na banheira e o suco congelado trazem humanidade aos personagens, ao mesmo tempo que divertem. E junto à caracterização dos espaços (a casa da mãe de Ryota, especialmente) e os costumes cotidianos, incluindo a comida, me levam, particularmente, ao êxtase, como se eu fizesse uma viagem no tempo e revisitasse pessoas que já se foram e lugares que não existem mais.

11. A CHEGADA (ARRIVAL)

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Dirigido por Denis Villeneuve, dos ótimos Sicario: Terra de Ninguém  (Sicario, 2015), O Homem Duplicado (Enemy, 2013) e Os Suspeitos (Prisoners, 2012), A Chegada não é um típico filme de ficção científica. Quem for assisti-lo com essa expectativa provavelmente vai se decepcionar – ou ter uma grata surpresa. O roteiro é intrigante, inesperadamente emotivo e surpreendente. Denis faz uma direção precisa. O ritmo respeita os momentos mais introspectivos. Amy Adams está magnífica e se confirma como uma das grandes atrizes de sua geração. Jeremy Renner também faz um bom trabalho, e ambos exibem em cena uma química nada forçada. Falar muito sobre a trama do filme é estragar a experiência. Por isso, meu conselho é: assista ao filme de mente aberta e se depare com uma das boas surpresas de 2016.

10. ESTADOS UNIDOS PELO AMOR (ZJEDNOCZONE STANY MILOSCI)

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Em seu terceiro longa metragem, Tomasz Wasilewski, roteirista e diretor de Estados Unidos pelo Amor, faturou, por esse filme, o prêmio de roteiro em Berlim. Não é para menos. Tomasz toca em questões polêmicas sem julgamentos ou conclusões, de forma concisa, esteticamente impecável e estruturalmente intrigante. O filme divide-se em quatro partes, cada uma delas dedicada a uma das personagens centrais, que se conectam de alguma forma. A maneira como cada uma delas lida com as dificuldades oriundas das relações amorosas que vivem, platônicas ou reais, é retratada com muita sinceridade e, ainda que haja alguns momentos delicados, a maior parte da história é permeada de descontentamento, dor e desilusão. O enquadramento, ora desconfortavelmente próximo, ora distante o suficiente para se observar um cenário mais amplo e mais chocante, e por vezes propositalmente fora do lugar, omitindo parte da ação ou do personagem, serve muito bem à narrativa e à atuação. A cor gélida e pálida e os espaços sem personalidade e vazios – exceto em uma das histórias, a mais singela das quatro – contribuem para a sensação de solidão e frieza. Os personagens, inclusive, adquirem uma cor de pele quase acinzentada que, combinada aos cabelos e olhos claros, os tornam criaturas frígidas.

9. DESAJUSTADOS (FÚSI)

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Desde o panorama nórdico da Mostra do ano passado, abri os olhos para os filmes de lá, já que, até então, meu repertório se resumia a Bergman. E tenho me impressionado com esse cinema, especialmente o islandês, que, por algum motivo, me lembra, em vários aspectos, o cinema japonês. Desajutados não foge à regra. De estrutura narrativa simples, ele impressiona pela abordagem profunda, crítica e sensível de seus personagens, especialmente do protagonista-título, interpretado pelo incrível Gunnar Jónsson. Impossível não ter uma empatia gigantesca por ele que, a partir do segundo ato impressiona pelas atitudes, o que o distancia do clichê que poderia se tornar. As situações genuínas em que ele se encontra, no decorrer do filme, emocionam a ponto de fazer o mais insensível esboçar ao menos uma lágrima.

8. NOSSA IRMÃ MAIS NOVA (UMIMACHI DIARY)

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Novamente abordando as relações familiares, Koreeda (Wandafuru Raifu, 1998; Dare mo Shiranai, 2004; Soshite Chichi ni Naru, 2013) conta, dessa vez, a história de três irmãs que, ao comparecerem ao velório do pai que as abandonou no passado, conhecem a irmã mais nova, filha do casamento que gerou tanta dor na família que foi deixada para trás. De maneira bem humorada, delicada e profunda, Koreeda, através das novas relações e de situações banais, conta as dores do passado, mostra as dificuldades individuais e contempla as transformações, com todas as particularidades que cabem a cada uma delas. E como ninguém está isolado, nem mesmo um grupo, a análise se estende para outros membros da família, como a mãe abandonada que mais tarde veio a, por sua vez, também abandonar as filhas, os amigos das irmãs e o amante de uma delas. Ainda que esse não seja um dos meus filmes favoritos do diretor, identifico-me fortemente, seja porque vejo traços de mim mesma e de tantas mulheres da minha família em cada um dos personagens, seja por conta dos costumes japoneses, sempre demonstrados com tanta naturalidade em seus filmes, seja porque mostra quatro mulheres, cada uma a seu modo, enfrentando dificuldades próprias e inerentes a sua condição de mulher.

7. BOI NEON

boi neon

Boi Neon é o segundo longa de ficção do jovem diretor Gabriel Mascaro, e foi o grande vencedor do Festival do Rio de 2015. E apesar da pouca experiência, o diretor e roteirista consegue imprimir no filme maturidade cinematográfica, abrindo mão de truques baratos ou tentativas de peripécias estilosas e atendo-se a uma boa história e bons personagens. Há muita tranquilidade nos longos, descritivos e climáticos planos que permeiam o filme, bem como na busca pelas atuações perfeitas. É evidente que houve extremo cuidado com preparação de elenco e ensaios, que acabaram resultando em diálogos naturalistas e convincentes. Alguns atores, que fazem participações menores, parecem deslocados, prejudicando a verossimilhança de algumas cenas. Mas em geral, a busca pela autenticidade é muito bem sucedida.

6. PERVERT PARK

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Crimes sexuais são um assunto cheio de estigmas e tabus, e dificilmente se vê discussões a respeito, na ficção, inclusive. Esses criminosos, independentemente dos crimes que tenham cometido, ou das circunstâncias que os levaram a cometê-los, nunca são tratados ou retratados com humanidade, e parece que fazê-lo é um crime ainda maior. Nos EUA, a política de reintegração desses indivíduos à sociedade é, provavelmente mais que no resto do mundo inteiro, extremamente rígida e, em muitos pontos, questionável. E o filme aborda essa questão com seriedade e imparcialidade. Embora alguns poucos dados estatísticos sejam apresentados, dados esses que nos levam a questionar com certa convicção a caça aos ofensores que se estabelecera no estado, provavelmente para lotar presídios privados que lucram com isso, o foco do filme são as entrevistas realizadas com alguns dos cento e vinte moradores do local, conduzidas de maneira pouco invasiva, mas muito eficiente, e editadas de maneira a criar-se um arco para os “personagens” da vida real, e uma curva dramática digna dos melhores filmes de ficção. Se cinematograficamente o filme é eficiente, do ponto de vista antropológico, filosófico e sociológico, a discussão que ele inicia mostra-se importantíssima, e urgente. Um dos melhores documentários dos últimos anos.

5. MERCENÁRIO (MERCENAIRE)

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 O roteiro de Mercenário segue à risca o modelo clássico da jornada do herói, e de maneira impecável. A construção do personagem principal, para começar, é impressionantemente cuidadosa. Ele passa por uma transformação complexa, e em nenhum momento lembramos que se trata de um personagem fictício. A impressão é de que ele é um ser de carne e osso, primeiro porque a identificação e empatia são imediatos, segundo porque a atuação (e obviamente a direção do ator) são brilhantes. As situações impossíveis que se colocam a frente de dele o forçam a tomar decisões difíceis e corajosas, ao mesmo tempo que as descobertas de um novo mundo o levam a desabrochar como homem e como ser independente, pensante, e provido de muita emoção. Mercenário tem uma força sensível, como seu protagonista: um homem delicado de 120 quilos. Aqui, nada é óbvio ou previsível, como se nós, espectadores, estivemos desbravando esse novo mundo ao seu lado.

4. ANIMAIS NOTURNOS (NOCTURNAL ANIMALS)

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Como em seu longa de estreia, Direito de Amar (A Single Man, 2009), Tom Ford imprime em seu filme, uma adaptação do livro Tony & Susan, de Austin Wright, estilo particular. Mas, embora haja semelhanças estéticas, Tom Ford não se repete. A frieza esteta do mundo onde os personagens estão inseridos, facilmente associada ao mundo da moda, que Tom Ford conhece tão bem, contrasta com o turbilhão de emoções que tomam conta desses mesmos personagens. Direção de arte, figurino e fotografia refletem isso, com uma precisão assombrosa. As rimas visuais, ressaltadas por uma bela edição, caem bem na trama, que mistura dois mundos paralelos de forma coesa. Por outro lado, o roteiro impecável, a direção segura e um elenco brilhante dão vida ao que poderia ser apenas um produto com boa embalagem e pouco conteúdo – leia-se, aqui, as últimas investidas de Nicolas Winding Refn. Apesar da pouca experiência, Tom Ford rege a orquestra com maestria: Amy Adams, Jake Gyllenhaal, Michael Shannon e Aaron Taylor-Johnson entregam, provavelmente, as melhores atuações de suas carreiras. Animais Noturnos é o gol feito aos 45 minutos do segundo tempo. Gol de placa.

3. A BRUXA (THE WITCH)

the witch

Controverso, A Bruxa dividiu opiniões porque foi vendido como um filme de terror de sustos, o que ele definitivamente não é. A Bruxa é um filme que se constrói em cima de clima e que conta, de forma magistral, uma história de difícil assimilação, baseada em escritos reais, segundo o roteirista e diretor Robert Eggers. O inglês arcaico, falado no filme, inclusive, pode também ser considerado um recurso de pouco apelo popular. Ainda que fisicamente lembre muito A Vila (The Village, 2004) – local isolado por florestas assustadoras, cores lavadas, recursos escassos – tem estilo próprio, delineado, por exemplo, pela excelente fotografia de Jarin Blaschke, que produziu fotogramas lindos a la Caravaggio, como o acima. O elenco também impressiona, especialmente a protagonista Anya Taylor-Joy e Ralph Ineson, que interpreta o pai. Um excelente começo para o roteirista e diretor estreante.

2. A OVELHA NEGRA (HRÚTAR)

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Tive o privilégio de assistir a A Ovelha Negra em uma sessão da Mostra de São Paulo de 2015, que foi sucedida por um debate com o espirituoso roteirista e diretor Grímur Hákonarson, vencedor do prêmio de diretor no Un Certain Regard, em Cannes. O ritmo mais lento do filme condiz com a vida pacata dos personagens, dois irmãos que não se falam há quarenta anos e que precisam voltar a se relacionar quando uma doença fatal atinge seus preciosos rebanhos. A falta de diálogos enaltece as ações normalmente contidas, especialmente do protagonista, interpretado pelo brilhante Sigurður Sigurjónsson, e a ambientação isolada e fria representa bem a situação e os sentimentos entre os irmãos. A Ovelha Negra é daqueles filmes sensoriais, emocionantes, sobre os quais pouco se pode falar. Por isso, faça isso agora, se ainda não fez. Ele não está no segundo lugar dessa lista à toa, pode apostar.

1. AQUARIUS

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O segundo longa de ficção de Kleber Mendonça Filho é ainda mais poderoso que o de estreia, O Som ao Redor. Também ambientado em Recife, o filme conta histórias que parecem reais, de tão palpáveis e tamanho é o naturalismo com o qual são construídos os diálogos. Como em seu filme anterior, Kleber demonstra total domínio na direção, transcrevendo um roteiro impecável de maneira poética, emocionante e realista. Atente para a edição, genial, para as músicas (diegéticas ou não), pertinentes, e para a atuação brilhante de Sônia Braga. Apesar do viés político que se atribuiu ao filme, é necessário apreciá-lo pelo que ele é: uma obra de ficção irretocável que deve ser motivo de orgulho de qualquer cinéfilo brasileiro.

MENÇÕES HONROSAS

ELLE

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Elle é tenso, sexy, imprevisível e engraçado. Verhoeven consegue ir do cômico ao trágico em minutos, com maestria. Isabelle Huppert está soberba, no controle absoluto, como sua personagem, que toma as rédeas de todas as situações, incluindo as mais trágicas e complexas. Verhoeven conduz o mistério muito bem, apresentando os elementos de forma cabível e no tempo certo, embora seja possível fazer algumas previsões. A violência física e psicológica não são supervalorizadas a ponto de se sobreporem aos outros elementos da trama e, principalmente, à protagonista, o que é uma escolha acertada. Carregado de outros assuntos polêmicos, o filme acerta ao não enfatizar nenhum deles. Elle é o ponto central, e isso de certa forma é a representação perfeita de seu egocentrismo.

STEVE JOBS

steve jobs

O roteiro de Aaron Sorkin, criador lendário das excelentes séries The Newsroom, Studio 60 on the Sunset Strip e West Wing e roteirista dos ótimos filmes Moneyball (O Homem que Mudou o Jogo, 2011) e The Social Network (A Rede Social, 2010) privilegia um período mais restrito da vida de Steve Jobs, ao contrário do que se fez no filme Jobs, de 2013. Dessa maneira, temos um panorama mais completo do personagem, que deixa de ser apenas CEO da Apple para ser ex-marido, pai e amigo, o que enriquece muito a experiência do espectador. Sob a batuta de Danny Boyle (127 Horas, 2010; Slumdog Millionaire, 2008; Trainspotting, 1996), uma escolha a princípio inusitada que acaba sendo bem sucedida, o filme transborda personalidade. Danny emprega uma estética oitentista ao período do filme que corresponde a essa década, com cores saturadas e contrastadas e imagem granulosa, e outra mais limpa e clean para os anos seguintes, envolvendo o espectador e destacando os diferentes períodos da carreira e vida de Steve Jobs. Os diálogos, a movimentação de câmera e a edição do filme dão ritmo frenético, típicos da obra de Aaron Sorkin e de Danny Boyle, e abordam o personagem de maneira atípica e realista, ao contrário do filme de 2013, principalmente porque usam a relação entre ele e sua filha como coluna vertebral para a história. As atuações magistrais de Michael Fassbender e Kate Winslet são outro trunfo dessa produção surpreendente.

O BOTÃO DE PÉROLA (EL BOTÓN DE NÁCAR)

o botão de pérola

Injustamente ignorado pelo público brasileiro, O Botão de Pérola é um documentário inusitado e intrigante. Ao traçar um paralelo entre dois acontecimentos históricos de contextos muito diferentes, mas de naturezas igualmente aterrorizantes, o filme cria um clima propício para que o espectador seja inundado por emoções intensas e por vezes conflitantes. Como elemento de ligação entre os dois acontecimentos, está a água, utilizada poeticamente como pretexto para introduzir o espectador, de forma tranquila e sinestésica, aos horrores cometidos contra os nativos, há muitos séculos, e os prisioneiros da ditadura de Pinochet, há poucas décadas. Embora a narração envolvente, bem como a ilustração feita através de imagens bem pensadas, anunciem um filme quase oposto ao que se apresenta, isso não é feito de maneira contraditória ou enganosa, mas torna a experiência interessante e inesperada. As imagens bem pensadas, as poucas e precisas entrevistas, as reconstituições e o texto magnífico resultam em uma obra emocionante, que choca pelo horror dos fatos e pela beleza com a qual são relatados.

OS OITO ODIADOS (THE HATEFUL EIGHT)

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Confesso que não vinha gostando dessa nova fase de Tarantino. Inglorious Basterds (2009) e Django Unchained (Django Livre, 2012), apesar de bons, fogem demais da temática e estilo que aprendi a apreciar ao longo de 15 anos e 5 filmes. Sei que tem gente que me crucificaria por isso, e que acham esse cinemão que Tarantino está explorando a melhor fase de sua carreira. Mas eu simplesmente sentia falta das porralouquices de outrora, e então veio The Hateful Eight. Em seu oitavo filme, Tarantino junta a fome com a vontade de comer, ou o estilo cinemão hollywoodiano com a temática independente, cheia de intrigas e diálogos memoráveis, e o faz muito bem. Limitado a quase apenas uma locação – tirando as externas de tirar o fôlego – e acontecimentos que se desenrolam em tempo real, Tarantino lança mão do que sabe fazer melhor, e extrai de seus personagens e atores – especialmente Jennifer Jason Leigh, que está sensacional – o necessário para se fazer um bom filme: contar uma boa história. E ainda que o uso da câmera 70mm só faça mesmo muita diferença, para os olhos mais treinados, nas cenas externas, tem que ser mesmo muito boludo (ou megalomaníaco) para usar uma câmera desse porte em plena era digital. Não sei se em termos práticos a escolha valeu a pena, mas o que importa é o que o espectador acha. E essa espectadora aqui aprovou.

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