Filmes do mês #20: animação para adultos, terror gore, documentário sobre crime e mais

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Em outubro fiz a cobertura da Mostra (vocês podem ler minhas críticas aqui), e por isso não sobrou muito tempo para outros filmes. Foram nove filmes, dentre eles a animação escrachada e impiedosa Festa da Salsicha, o terror gore turco Baskin, o documentário da Netflix sobre a infame Amanda Knox, acusada e condenada por assassinato, o primeiro longa metragem de Tom Ford, Direito de Amar, um drama sobre um homem homossexual que lida com o preconceito nos anos 60, a revisão de uma comédia dramática de Alexander Payne – e um dos meus filmes favoritos -, Sideways e mais.

OS MELHORES DO MÊS

SIDEWAYS – ENTRE UMAS E OUTRAS (SIDEWAYS, 2004)

5 estrelas novo

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Miles (Paul Giamatti) é professor do ensino médio e um escritor frustrado. Não conseguiu superar seu divórcio de anos atrás e amargura a vida modesta e solitária que vive, mas cultiva uma amizade honesta e peculiar com Jack (Thomas Haden Church), um ator de comerciais de TV que está de casamento marcado. Às vésperas do casamento, Miles e Jack partem para uma viagem por Santa Bárbara, na Califórnia, para uma despedida de solteiro regada a boa comida, bons vinhos e partidas de golfe. Enquanto Miles deseja seguir a pacata programação de degustação de vinhos e longas noites de sono, Jack quer aproveitar os últimos dias de solteiro e acaba se envolvendo com Stephanie (Sandra Oh), cuja amiga, Maya (Virginia Madsen), desperta o interesse de Miles.

O roteirista e diretor dessa comédia dramática, Alexander Payne, tem em seu currículo outros ótimos filmes: Eleição (Election, 1999), As Confissões de Schimidt (About Schimidt, 2002) e Nebraska (2013). Sideways é, entre eles, provavelmente o que melhor mescla elementos de comédia e drama, de maneira sensível, sutil e emocionante. Miles é um personagem complexo e apesar de pessimista, depressivo e um pouco arrogante, revela no espectador o que ele tem de menos admirável, causando empatia imediata. Embora seu orgulho faça parecer o contrário, Miles é também um sujeito preocupado com o bem estar alheio, o que faz com que constantemente abra mão de seus planos para dar lugar aos do amigo imaturo e carente, Jack. Os personagens de apoio, com muito menos tempo de tela, apesar de menos complexos que ele, são igualmente bem construídos. O elenco, aliás, faz um trabalho formidável, com destaque para Giamatti, um dos atores mais subestimados de sua geração. O clima leve não mascara sentimentos soturnos, mas dá espaço para momentos hilários, daqueles que não fazem gargalhar, mas perduram na memória. Trilha sonora, direção de arte, fotografia e edição contribuem para um exterior ensolarado e divertido e um interior depressivo e desesperançoso, com direito a momentos de romance arrepiantes de tão realistas. Um filmaço que merece muitas revisões ao longo da vida.

DIREITO DE AMAR (A SINGLE MAN, 2009)

4 estrelas novo

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George (Colin Firth) é um professor britânico que vive em Los Angeles na década de 1960. Depois de oito meses da morte repentina de seu namorado de 16 anos, George ainda não superou a dor do luto e decide cometer suicídio. Em seu último dia, realiza suas tarefas, organiza vários detalhes de sua vida e tem conversas profundas com um de seus alunos, Kenny (Nicholas Hoult), um garoto de programa e sua melhor e única amiga, Charley (Julianne Moore).

Direito de Amar é o longa de estreia de Tom Ford, mais conhecido, até então, por seu trabalho como estilista. A história contada no romance homônimo de Christopher Isherwood é poderosa, e foi habilidosamente adaptada para o cinema pelo próprio Tom Ford, em parceria com David Scearce. Tom Ford herdou da moda o apurado senso estético, e faz um trabalho primoroso na construção do universo do filme. Além do figurino impecável, a direção de arte e fotografia são notáveis. O grão remete a um desconforto, ao mesmo tempo que ajuda na identificação da época. As cores pouco saturadas que se transformam conforme as emoções da cena são um aspecto da linguagem muito interessante, que comunicam informações cruciais ao espectador de maneira atraente sem ser óbvia ou excessiva. Colin Firth, que recebeu diversos prêmios (incluindo o do Festival de Veneza) entrega uma atuação apaixonada e comedida, ao mesmo tempo, como seu personagem. O segundo filme de Tom Ford, Animais Noturnos (Nocturnal Animals, 2016), foi exibido na 40a Mostra e tem estreia prevista para 29 de dezembro.

FESTA DA SALSICHA (SAUSAGE PARTY, 2016)

4 estrelas novo

sausage party

Frank (Seth Rogen), uma salsicha, e Brenda (Kristen Wiig), um pão de hot dog, estão enamorados e aguardam o dia em que serão comprados por humanos que os levarão para casa, onde poderão viver juntos e felizes. Eles vivem em um supermercado ao lado de outros produtos que também sonham com o mundo lá fora. Um dia, Frank e Brenda são escolhidos, junto com outros produtos, dentre eles um pote de Honey Mustard, que já fora comprado e devolvido, e por isso conhece a terrível verdade do mundo lá fora.

A animação, dos criadores de É O Fim (This Is The End, 2013), 50% (50/50, 2011), Segurando As Pontas (Pineapple Express, 2008) e Superbad (2007), recebeu a classificação indicativa mais restrita da história do cinema, posto antes ocupado por South Park: Maior, Melhor e sem Cortes (South Park: Bigger, Longer e Uncut, 1999). A história ousada e polêmica só é mais chocante por conta do formato, que ludibria o espectador desavisado com suas cores saturadas e brilhantes, sua trilha sonora inocente e seus personagens ingênuos e fofos. A despeito da introdução, que poderia tranquilamente confundir o filme com uma produção infantil, ele se desenrola de forma agressiva e ao mesmo tempo cômica, brincando com estereótipos, violência gráfica e sexo. Além de divertido, o filme é corajoso. Ao abordar temas tabu sem nenhuma censura em formato tão normalmente palatável e romantizado, ele se coloca em posição de vanguarda, mas não pelo choque barato e infundado. Festa da Salsicha é provavelmente o melhor filme da turma de Seth Rogen, e eu adoraria que fosse precursor de uma série de animações inteligentes e desafiadoras como essa.


NEM LÁ, NEM CÁ…

OS CAÇA-NOIVAS (MIKE AND DAVE NEED WEDDING DATES, 2016)

3 estrelas novo

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Mike (Adam Devine) e Dave (Zac Efron) são irmãos e sua irmã caçula vai se casar. Solteirões, ambos são famosos por arruinar as festas de família, com acidentes épicos. Seus pais, por acharem que seu comportamento só será aceitável se eles estiverem acompanhados, exige que encontrem duas garotas para convidarem para o casamento da irmã. Quando eles anunciam que procuram duas boas moças para um casamento de três dias no Havaí, Tatiana (Aubrey Plaza) e Alice (Anna Kendrick) vestem pele de cordeiro e se candidatam.

Dos roteiristas de Vizinhos (Neighbors, 2014) e Vizinhos 2 (Neighbos 2: Sorority Rising, 2016), essa comédia acerta ao romper, ainda que comedidamente, estereótipos machistas. Dave e Alice formam o potencial casal exemplar, ainda que Alice esteja longe do modelo romântico e ultrapassado de “mocinha”, mas o protagonismo fica com Mike e Tatiana, cuja química inexistente enquanto casal se transfigura em química inquestionável enquanto dupla cômica. Por outro lado, Tatiana e Alice são duas mulheres relativamente independentes e bem resolvidas, ainda que Alice esteja se recuperando de um recente trauma envolvendo um relacionamento amoroso, e eventualmente essas características acabam contando a favor de todos, embora inicialmente a intenção fosse oposta. Há algumas piadas hilárias, do tipo que exige que o espectador pause o filme para que possa se recuperar – muitas delas são entregues no trailer, por isso eu recomendo não assisti-lo. O bom casting resulta em um elenco que enriquece o filme, apesar de o destaque ficar para Aubrey Plaza e Adam Devine, muito à vontade em seus papéis. Os Caça-Noivas, apesar do horrendo e equivocado título nacional, não vai mudar sua vida, mas vai garantir duas horas de boa e descompromissada diversão.

DESCONHECIDA (COMPLETE UNKNOWN, 2016)

3 estrelas novo

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Tom (Michael Shannon) e Ramina (Azita Ghanizada), sua esposa, oferecem um jantar aos amigos, para comemorar o aniversário de Tom e o fato de Ramina ter recebido uma bolsa de estudos em um curso de graduação, do outro lado do país. A tensão criada pelo fato de Tom não estar certo de que acompanhará a esposa na mudança aumenta quando um dos convidados chega ao jantar acompanhado de Alice (Rachel Weisz). Tom a reconhece como sendo uma namorada da adolescência que desaparecera, mas nem as histórias que Alice conta nem seu nome coincidem com a mulher que Tom acha que ela é.

A misteriosa premissa dá ao primeiro ato do filme ares de suspense, e a tensão e interesse do espectador são mantidas com muita eficácia, através tanto das cenas contemplativas, que entregam poucas pistas, quanto dos diálogos bem escritos, que vão aos poucos delineando uma história. A partir do segundo ato, o filme toma forma de drama, e toca em questões interessantes, mas de maneira menos empolgante. O elenco, que tem ainda Kathy Bates e Danny Glover, está muito bem, de maneira geral, embora nenhuma atuação se destaque. A fotografia é um dos grandes aspectos do filme. Os enquadramentos claustrofóbicos e deslocados unidos à luz soturna e às cores pouco saturadas, ao mesmo tempo que ajudam a criar o clima, disfarçam as limitações de um baixo orçamento com elegância. Desconhecida é um filme irregular que merece ser visto, seja pela sequência inicial de tirar o fôlego, seja pelos diálogos contundentes do primeiro ato.

AMANDA KNOX (2016)

3 estrelas novo

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Em 2007, Amanda Knox, uma estudante americana que residia na Itália, foi acusada de assassinar a estudante que dividia o apartamento com ela. Na época, a mídia retratou Amanda de maneira bastante pejorativa e houve muita controvérsia internacionalmente quanto aos métodos forenses utilizados para provar sua culpa. Depois de passar quase quatro anos presa, Amanda foi finalmente inocentada pela Suprema Corte.

Nesse documentário produzido pela Netflix, analisa-se com riqueza de detalhes os aspectos criminal, midiático e social da trama envolvendo Amanda. As entrevistas são muitíssimo bem conduzidas e a edição esperta extrai o que há de mais controverso e dramático nas falas de Amanda, do investigador responsável pelo caso e do repórter de um tabloide britânico que cobriu os fatos na época. Ao mesmo tempo, o filme segue a ordem cronológica real, de modo que o espectador compreende a sucessão de fatos conforme eles realmente ocorreram. Ao não fazer juízo de valor, o filme não responde as dúvidas quanto à inocência de Amanda, mas coloca todas as cartas na mesa para que cada um faça seu próprio julgamento, o que é um grande acerto.


LANTERNINHA

BASKIN (2015)

2 estrelas novo

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Cinco policiais são chamados para atender uma ocorrência na infame cidade de Inceagac. Durante a viagem, o motorista tem uma visão de uma figura sanguinolenta e perde o controle do carro, que cai em um lago. Os policiais conseguem chegar a pé ao local onde a chamada foi originada, um prédio abandonado, e são capturados por membros de um culto.

Baseado em um curta metragem de mesmo nome e roteirizado e dirigido por Can Evrenol, também diretor e co-roteirista desse longa metragem de terror, Baskin apresenta, como poucos filmes do gênero, situações genuinamente horripilantes. A tensão e o suspense não são o forte do filme, que em muitos momentos perde o ritmo e torna-se cansativo e arrastado. No entanto, o terceiro ato, onde se desenrolam as cenas mais gore e chocantes, o filme volta a ganhar força. A impressão que fica é que o argumento do curta foi estendido para se transformar em longa, sem a preocupação do desenvolvimento da história, o que causa não só o problema do ritmo, como de profundidade também. É empolgante assistir a filmes de terror que se arriscam a sair do lugar comum, mas é uma pena que este não tenha atingido todo o seu potencial.

DIRTY 30 (2016)

2 estrelas novo

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Kate (Mamrie Hart) está prestes a completar 30 anos. Seu emprego pouco gratificante, seus constantes e fracassados encontros com homens que conhece na internet, a solidão e falta de propósito estão a deixando a beira de um ataque de nervos. Sua amiga Evie (Grce Helbig) vive um casamento infeliz e sua amiga Charlie (Hannah Hart) não consegue de dedicar completamente nem à sua empresa, sem à sua noiva. Evie e Charlie decidem organizar um festa de 30 anos para Kate, com o intuito de trazerem um pouco de alegria às suas vidas, mas as coisas saem do controle.

Essa comédia independente, apesar de se encaixar nos moldes dos enlatados hollywoodianos, procura fugir do lugar comum e, em alguns aspectos, é bem sucedido. Kate é um personagem bem mais profundo que suas amigas, e esse abismo fica evidente, especialmente nas cenas em que as três interagem. Os maneirismos na atuação e a falta de química entre elas evidencia problemas de roteiro e direção. Ainda assim, é possível pinçar boas piadas e perceber um retrato sincero, ainda que caricato, das mulheres contemporâneas que chegam na casa dos trinta questionando o status quo. Quando se parte para a piada pronta, o filme falha miseravelmente, no entanto. É interessante notar que as três atrizes que formam o elenco principal são youtubers cujo conteúdo está focado na comédia, e este é o segundo filme em que atuam juntas. O primeiro, do mesmo produtor, Michael Goldfine, chama-se Camp Takota. A falta de química entre elas é claramente um problema do filme em questão, ou da direção de Andrew Bush, cuja experiência com curtas metragens não se traduziu em seu primeiro longa. É interessante perceber como outras mídias podem acrescentar ao cinema, mas infelizmente não é o caso e Dirty 30.

THE NEIGHBOR (2016)

1 estrela novo

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Em uma pequena cidade do Mississipi, John (Josh Stewart) e sua namorada Rosie (Alex Essoe) passam boa parte do tempo dentro de casa, coordenando entrega de drogas. Seu vizinho Troy (Bill Engvall), uma figura misteriosa, desperta a curiosidade de Rosie, que o espia através do telescópio. Um dia, quando John não está em casa, Rosie avista um homem ferido fugindo de Troy, que o agride violentamente na sequência. Quando John retorna, descobre que Rosie desapareceu. Desconfiado que seu vizinho possa ter algo a ver com o sumiço, John invade a casa de Troy e descobre um terrível segredo em seu porão.

O diretor e roteirista Marcus Dunstan e o também roteirista Patrick Melton são parceiros de longa data. Juntos, foram responsáveis pelo roteiro de quatro dos oito filmes da franquia Jogos Mortais. Aqui, ambos trabalham de maneira pouco inspirada. Não há grandes problemas de desenvolvimento da trama, direção e atuações, no entanto o filme não traz absolutamente nada de novo. A premissa é batida e o desenrolar dos fatos, divertido, mas previsível. Se esse tipo de temática intriga você, recomendo que deixe o filme de lado e assista Mártires (Martyrs, 2008), em sua versão original (a francesa), que é um dos melhores filmes de terror de todos os tempos.

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