Esquina Mocotó: a comida de autor de Rodrigo Oliveira

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Era domingo e eu ingenuamente acreditei que chegar às 11h30 na Casa do Porco Bar seria suficiente para sentar assim que o restaurante abrisse as portas. Meia hora antes da abertura, a fila já causava uma espera de 2 horas, e se tem uma coisa na vida com a qual eu me recuso a lidar é fila desnecessária.  É difícil morar em São Paulo, desejar conhecer os lugares mais badalados e só ter os fins de semana para a tarefa. Mas é sempre possível chegar mais cedo. Lição aprendida, decidimos nos arriscar em outro lugar também bastante concorrido. A vontade de comer porco bom já havia sido despertada e não havia nenhum outro lugar, na minha concepção, que pudesse satisfazer nossos desejos naquela tarde ensolarada. Rumamos do Centro para a Vila Medeiros, em direção ao Esquina Mocotó, restaurante autoral do chef Rodrigo Oliveira, também responsável pelo legendário Mocotó. 

Apostamos na popularidade do Mocotó e na atendente do Esquina, que relatava, ao meio dia, que a casa estava bem tranquila. Decidimos arriscar a sorte mesmo sabendo que a viagem levaria mais de meia hora, tempo suficiente para estragar nossos ingênuos planos e fazer o público do Mocotó migrar para o vizinho por conta da espera impraticável, como de costume. Resoluta a não desistir pela segunda vez, decidi encarar a fila. Afinal, tínhamos que fazer a viagem valer a pena, e àquela altura do campeonato, o cardápio do Esquina nos parecia muito atrativo para ser desprezado.

Aproveitamos o sol e a espera para provar dois coquetéis: eu fui de Bode Mary, composta de cachaça Harmonie Schnaps, essência de carne, suco de tomate artesanal e torresmo (26,90). O Marcelo escolheu a caipirinha de maracujá, tangerina e mel (24,90). Ambos estavam bem executados e equilibrados. A caipirinha do Mocotó é uma das minhas favoritas, e fiquei um pouco decepcionada com o valor cobrado: aqui ela é mais cara e muito menor, embora tão gostosa quanto. A versão sertaneja do blood mary foi uma grata surpresa. Saboroso o coquetel fez a vezes de tira gosto, especialmente por conta do torresmo perfeito que adornava o copo.

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Muito itens do cardápio me atraíram, e acabei decidindo dividir três entradas com o Marcelo, a começar pelo imperdível Porcaria, em sua versão menor, composto de linguiça da casa, embutidos da família Cinque, presunto Salamanca, porco na lata com manteiga de garrafa, dadinhos de porco e conserva de cebola roxa (38,90).

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Os embutidos eram todos de excelente qualidade, a linguiça era gostosa, os dadinhos de porco, uma versão incrementada dos famosos dadinhos de tapioca da casa, eram saborosos e a fritura estava correta, sequinha. O nada leve porco na lata eu comeria por horas a fio, acompanhado de um bom pão, mas creio que a quantidade servida seja mais que suficiente para causar danos arteriais irreversíveis. A conserva de cebola roxa, ácida e pungente, cortava a gordura da manteiga de garrafa, e era bom acompanhamento para a linguiça e os dadinhos.

Em seguida, vieram o ceviche de pé de porco com tucupi, batata doce e mocopãs, os mandiopãs do Mocotó (28,90).

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A combinação de texturas é interessante: a maciez do pé de porco era bem complementada pela crocância do mocopã e dos chips de batata doce. O tucupi fazia as vezes de leche de tigre, compondo o prato com uma acidez acertadamente tupiniquim. Acho, no entanto, que faltava brilho. Talvez um pouco mais de sal e um toque de gordura o deixassem mais redondo.

Na sequência, dividimos um prato que eu desejava a tempos: Panelinha de moela (24,90).

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Moela é um dos miúdos mais gostosos e subestimados que existem, e Rodrigo sabe prepará-la perfeitamente. O cozido de sabores profundos, carne macia e caldo encorpado são reconfortantes e nos remetem a melhor das comidas de vó, de infância, de casa, sem pretensão ou invencionismo. Simples e delicioso.

O espaço para os pratos se tornou bem diminuto depois das entradas, e não foi por falta de aviso. O garçom e a garçonete que nos atenderam nos alertaram, e insistimos com a desculpa de que poderíamos embalar para a viagem qualquer sobra. O serviço, aliás, é bastante eficiente, atencioso e mais amigável que no vizinho. No entanto, a vontade de provar o máximo que o bucho pudesse suportar  me fizeram escolher mais comida que o necessário.

Para prato principal, sedenta por mais porco, escolhi uma carne semelhante, a costelinha de javali com cuscuz de milho, feijão de corda e folhas refogadas (44,90).

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De maciez insuperável e sabor enaltecido, essa costelinha é das carnes mais perfeitas que já comi na vida. O cuscuz de milho com feijão de corda, folhas e legumes estava correto, saboroso, mas pouco inspirado. A apresentação estava um pouco descuidada, mas nada que tirasse o brilho do javali espetacular, cuja carne suculenta soltava do osso só de olhar para ela.

O Marcelo escolheu o Catanduva Burguer, um sanduíche de burguer de pernil de porco, crocante de jamón, maionese de jamón, salsa de tomate, radicchio e pão de mandioca da casa, acompanhado de chips de mandioquinha (34,90).

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Bem montado, grande e bem executado, o hambúrguer é um dos melhores que comi nos últimos anos. A carne de porco estava cozida perfeitamente, úmida e gostosa. O pão, macio e fresquíssimo, tinha boa estrutura para sustentar o sanduíche enorme. Jamón, maionese, salsa e radicchio complementavam o sanduíche sem nenhuma obviedade, e enriqueciam com textura e sabor. Os chips de mandioquinha são uma boa alternativa às batatas fritas, mas podiam vir em porção maior. O Catanduva é definitivamente um prato para se repetir.

O Marcelo dispensou a sobremesa e eu, evidentemente, não. O cardápio de sobremesas têm opções tentadoras, como o Cajá Manga (purê de manga com baunilha, sorbet de cajá e coco crocante), Pequi (gianduia de pequi, caroço de pequi e creme de pequi), e pudim de doce de leite, café e queijo canastra. Não foi uma decisão fácil, e eu resolvi fazer a escolha menos óbvia. Não sou grande fã de cocada, mas a combinação do prato me persuadiu: cocada preta, farofa de coco, mousse de coco e sorbet de dois limões (16,90).

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A cocada caramelada e pouco doce teve um encontro perfeito com o mousse de coco cremoso, o sorbet pungente e refrescante e a farofa crocante. Os sabores brasileiros foram muito bem representados através de diversas técnicas bem executadas, numa porção de bom tamanho e preço bastante razoável. A sobremesa equilibrada e surpreendente me fez querer provar todas as outras do cardápio, mas não restava espaço para um grão de arroz sequer.

O Esquina Mocotó é um restaurante de autor despretensioso, de bom serviço e comida bem feita. A qualidade de execução dos pratos é superior à do Mocotó, embora haja itens no menu muito mais interessantes que outros. Rodrigo se propõe a fazer comida autêntica, mas com mais inventividade, e é bem sucedido. Os preços são compatíveis ao produto entregue. Faço crítica apenas ao valor cobrado pelos coquetéis, que poderia se aproximar mais do executado no vizinho. Se você já conhece o Mocotó e gosta, vale a visita ao restaurante da esquina. A concorrência do primeiro, no entanto, faz o segundo lotar rapidamente nos horários de pico, então recomendo fazer reserva para ir tranquilo.


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Av. Nossa Sra. do Loreto, 1100, Vila Medeiros

tel: 11 2949 7049

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