Diário da Mostra: Dia 14 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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E 37 filmes depois, a Mostra chega ao fim, para mim. A Repescagem desse ano foi bem pior que a do ano passado, e meu último dia infelizmente me apresentou ao pior filme da Mostra. Mostra é assim, né, gente? E num misto de alívio e saudade antecipada, eu os deixo com as críticas de Gurumbé – Canções de Sua Memória Negra e Trem da Alegria – Arte, Futebol e Ofício.

GURUMBÉ. CANÇÕES DE SUA MEMÓRIA NEGRA (GURUMBÉ. CANCIONES DE TU MEMORIA NEGRA, 2016)

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Gurumbé explora uma questão pouco conhecida ou discutida: os escravos africanos que ficaram na Espanha ao invés de serem enviados para as colônias na América, até o século 19. Estudos indicam que muitos escravos serviram senhores, especialmente na região de Sevilha e Cádis, e o filme aborda a influência africana na música e dança da região.

O filme possui uma estrutura bastante medíocre, no sentido de que não se utiliza de criatividade para a construção da linguagem, e se mantém dentro das linhas padrão um pouco além da conta. O formato, inclusive, se assemelha muito mais à de um documentário televisivo do que de um filme propriamente dito. Nada de errado nisso, aliás há muita correção na maneira que são conduzidas as entrevistas, no desenvolvimento do tema e na edição, por exemplo. Mas não há nada realmente entusiasmante, do ponto de vista cinematográfico.

O tema, por outro lado, é interessante e intrigante. Pouco se fala sobre o assunto, e o filme inclusive dá a entender que o fato de escravos africanos terem servido a metrópole, e não só as colônias, foi velado com muito empenho. A diversidade de entrevistados também é um ponto alto do filme, já que possibilita que se analise o tema de óticas variadas: antropólogos, historiadores, músicos, etc. O fato de nenhum negro ser entrevistado até o último minuto do filme me causa, no entanto, um descontentamento profundo. É inevitável pensar que o ponto de vista dos negros que vivem lá e daqueles que estão envolvidos com música e dança na região é imprescindível para uma visão mais rica do tema. Realmente incompreensível tamanha falha.


TREM DA ALEGRIA – ARTE, FUTEBOL E OFÍCIO (2016)

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Trem da Alegria é um time de futebol amador fundado na década de 1970 pelo ex-jogador profissional Afonso Celso Garcia Reis, mais conhecido como Afonsinho. Em plena ditadura militar, Afonsinho  reuniu amigos, artistas e jogadores nesse coletivo com o intuito de desfrutar do futebol, da música e da amizade de maneira livre, e acabou revolucionando o esporte ao ser o primeiro atleta brasileiro a ganhar o direito do passe livre na justiça, depois de um embate no seu clube na época, o Botafogo.

A Repescagem da Mostra é uma excelente oportunidade para ver filmes que não conseguimos encaixar na programação regular, rever filmes dos quais gostamos muito e arriscar outros pelo simples fato de que eles estão inclusos no pacote da credencial. Infelizmente, no meu último dia, terminei com o pior filme da Mostra, disparado. Trem da Alegria substituiu Junction 48, que saiu da programação um dia antes, e embora o tema não me tivesse me cativado, decidi arriscar. No ano passado tive excelentes surpresas na Repescagem, e há sempre a esperança de isso se repita.

Pois eu não poderia ter encerrado a Mostra de maneira pior. É intrigante, para mim, como filmes como esse passam pelo crivo dos organizadores. Esse, não só foi injustamente selecionado – digo isso porque tomou a vaga de tantos outros filmes que certamente são melhores que ele – como foi reprisado na Repescagem, que em tese deveria privilegiar os favoritos do público e da crítica.

Aos primeiros dois minutos, o filme já tinha se entregado, com problemas técnicos básicos como péssima captação de som, música inconvenientemente alta durante as entrevistas e ausência absoluta de direção e edição das mesmas. As cenas de transição, feitas às pressas, de qualquer maneira, por um operador de câmera amador ou completamente sem vontade, não fazem porque existir. Todos, absolutamente todos os entrevistados falam as mesmas coisas, numa repetição prolixa que depois de uma hora e meia parece tortura. Fica evidente que o diretor ligou a câmera, fez a mesma pergunta genérica para cada um dos muitos entrevistados, não os direcionou e não fez questão alguma de editá-las de nenhuma maneira, para que a falta de importância do conteúdo ao menos tomasse um forma mais palatável. As duas ou três canções utilizadas erroneamente durante as entrevistas completam o show de horrores. Ruins e sem intuito dramático nenhum, elas começam no meio da entrevista, terminam e depois de alguns minutos de silêncio, retornam, num padrão horripilante e inexplicável.

Do ponto de vista do conteúdo, entende-se, com muita boa vontade e esforço, que as intenções de Afonsinho são admiradas por um bocado de gente importante, mas em nenhum momento a relevância político-social é evidenciada como deveria, a não ser durante uma entrevista com um professor de ciências sociais cujo microfone ruim e mal posicionado impossibilita que se entenda sua fala com clareza – por sorte, tínhamos legendas. O filme é, na maior parte do tempo, uma rasgação de seda insuportável à figura de Afonsinho, que, se era o centro do filme, deveria ter sido analisado com mais empenho – não conhecemos ninguém da sua família, do seu convívio fora do Trem da Alegria, do seu passado no futebol profissional. É impossível ter certeza se o filme foi muito mal realizado por falta de recursos, incompetência ou má vontade. Se alguém aí souber e quiser compartilhar, agradeço.

E agora, só no ano que vem.

 

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