Diário da Mostra: Dia 13 na 40a Mostra internacional de Cinema de São Paulo

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Décimo terceiro dia de Mostra. Um filme ousado. Um filme chato. O melhor filme da Mostra. Seis horas sentada na poltrona nada anatômica do Cinesesc, algumas boas pescadas. A essa altura da maratona, não roncar no meio do filme é sair no lucro, especialmente com um filme tedioso. Mas sair de lá atônita, depois de uma salva de palmas entusiasmadas, e com um orgulho tremendo do cinema brasileiro, é um privilégio que eu não subestimo.

SÁMI BLOOD (SAMEBLOD, 2016)

3 estrelas novo

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Elle-Marja é uma adolescente de origem sámi, um povo indígena que habita o norte da Escandinávia, durante a década de 1930. Ela vive junto à sua família, no campo, criando renas, e tem uma relação muito próxima com a irmã mais nova. Um dia, Elle-Marja e sua irmã são enviadas para um colégio interno, apenas para sámis, que tem o intuito de estudar sua etnia e educá-los de modo inferiorizante. Acredita-se que eles são um povo inferior, e quando Elle-Marja descobre como eles são discriminados, passa a imaginar formas de fugir de lá.

Amanda Kernell, a roteirista e diretora de Sámi Blood, é filha de mãe sueca e pai sámi, e seu ponto de vista particular é de grande valia para o filme. O retrato dessa adolescente em conflito é rico porque atenta para uma questão comum em todas as partes do mundo, mas a especificidade de muitos desses lugares é, pela maioria, desconhecida. A história de Elle-Marja, mais que demonstrar o racismo e o preconceito que leva ao ódio, evidencia as suas diversas consequências. No caso, o personagem passa da ignorância para a revolta e finalmente chega à negação. O desejo de ser aceita se mistura à vontade de viver sem as amarras que sua condição impõe, e levam Elle-Marja a uma série de decisões que vão afetar sua vida inteira, como sabemos desde o início, quando o personagem aparece 80 anos depois dos fatos que são narrados no filme em forma de um enorme flashback.

O primeiro ato do filme, sereno e compassado, demonstra, através de seu ritmo, o tempo dilatado da vida no campo dos sámis. A partir do segundo ato, quando as crianças passam a sofrer com a humilhação na escola, o ritmo torna-se mais acelerado. A atriz que interpreta Elle-Marja, Lene Cecilia Sparrok, acompanha bem a mudança de tom, e entrega um trabalho impecável. As descobertas que Elle-Marja faz ao se aventurar no mundo desconhecido e almejado têm um tom mais leve, ainda que a apreensão em relação ao novo e ao preconceito outrora vivido estejam sempre estampados em seu rosto ou nas próprias cenas. Alguns personagens são um pouco caricatos, como a dura professora e a irmã de Elle-Marya, mas o personagem do garoto com quem ela se relaciona é inesperado e representa uma ponte interessante entre a protagonista e o mundo novo, mesmo que em alguns momentos os acontecimentos entre eles pareçam um pouco forçados. Sámi Blood não está longe de ser um filme perfeito. Há problemas de roteiro e direção, mas essencialmente o filme acerta ao fazer o retrato de um povo através da ótica de uma garota, de maneira pouco pretensiosa e honesta


DIABO NO CORPO (IL DIAVOLO IN CORPO, 1986)

2 estrelas novo

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Andrea é um estudante que se apaixona por uma mulher mais velha, Giulia, cujo noivo, de extrema esquerda, está preso por motivos políticos. Contrariando os conselhos de seu pai, um psicólogo que tratou Giulia no passado, Andrea inicia uma relação, cheia de desconfiança e sem nenhum pudor.

Marco Bellocchio faz um bom trabalho no que diz respeito aos personagens. Tanto Andrea quanto Giulia são personagens multifacetados e imprevisíveis. Algumas sequências são belíssimas, como a que abre o filme, por exemplo. Fazem-se, em momentos como esse, composições de quadro e uso de luz de maneira brilhante. A trilha sonora é outro ponto alto do filme. No entanto, de maneira geral, o filme é bastante enfadonho. Bellocchio tem um timing para comédia excelente, e faz a transição do dramático para o cômico sempre com muita maestria, mas momentos interessantes como esse são escassos. Algumas sequências são exageradamente prolongadas, e a potência, tanto do relacionamento entre os dois quanto dos próprios personagens, se perde.


ERA O HOTEL CAMBRIDGE (2016)

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Em um prédio abandonado e irregular, na cidade de São Paulo, vive um grupo bastante heterogêneo: brasileiros se misturam a refugiados do Congo, da Palestina, da Colômbia, num caldeirão que transborda superação, saudade e solidariedade. Mas como em qualquer comunidade, há intolerâncias que devem ser superadas, e problemas não faltam a esses sem-teto, como a ordem de reintegração de posse que parece insolúvel e a forma violenta como são tratados pela Polícia Militar.

Era O Hotel Cambridge foi eleito pelo público o melhor filme de ficção brasileiro da Mostra. Dentre os filmes que vi, ele é certamente o melhor. E se não é, até o momento, o melhor filme do ano, certamente ocupa o segundo lugar. Eliane Caffé faz um trabalho primoroso, em coletividade com o MSTC (Movimento Sem Teto do Centro), o GRIST (Grupo de Refugiados e Imigrantes Sem Teto) e a Escola da Cidade.

O total domínio da linguagem é percebido já na primeira sequência do filme, formada por fotos que exibem a estrutura do prédio. Os canos e instalações elétricas iluminados por flashs de uma câmera fotográfica ganham vida através da movimentação de câmera sobre as imagens still e da trilha sonora. A mescla de atores e não-atores e de ficção e documentário funciona, na medida que cada um desses elementos contribui de maneira ímpar para o retrato de uma realidade próxima, atual e de extrema relevância. Em alguns momentos, Eliane se aproxima do público mais jovem ao usar elementos da internet para retratar, por exemplo, o ódio cego daqueles que repudiam tanto refugiados quanto sem-tetos. Ao mesmo tempo, cria interesse de maneira inusitada ao trazer para a tela o que se faria no palco, na sequência onde um grupo ensaia um espetáculo dirigido por um dos personagens centrais, Apolo. Eliane também brinca com a metalinguagem, ao colocar em cena uma dupla de cinegrafistas que se instalou temporariamente na ocupação para documentar os acontecimentos dentro do edifício.

O filme é repleto de momentos memoráveis, como a sequência mais engraçada que vi no cinema nos últimos tempos, em que moradores discutem a ida ao fórum e discorrem sobre a importância da mexerica. As conversas entre os refugiados e seus familiares por skype são emocionantes, e a mais bela certamente é a que mostra uma moça colombiana de voz tão exuberante que leva às lagrimas qualquer um que a ouça. A cena do panelaço na escadaria do prédio é graficamente interessante e politicamente expressiva. A conclusão tem poder dramático considerável e é coroada com inspirados créditos finais e a trilha sonora estonteante do Vapor324.

Ao final, a sala aplaudiu com ânimo, mas também com certa revolta. O entusiamo vem do frescor da linguagem de Era O Hotel Cambridge, primorosamente construído. A raiva, da constatação de que as injustiças retratadas no filme acontecem a todo momento, em todo lugar, e que política, social e culturalmente estamos vivendo tempos duros e escusos. Era O Hotel Cambridge é um filme urgente, necessário e brilhante.

 

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