Diário da Mostra: Dia 12 na 40a Mostra internacional de Cinema de São Paulo

40-mostra-12

Mais um dia de Repescagem, o décimo segunda da Mostra. Para começar, um doc americano, o instigante Cameraperson. Na sequência, um dos meus filmes favoritos da vida, na telona incrível do CineSesc, em plena tarde de segunda-feira: Persona. É isso.

CAMERAPERSON (2016)

2 estrelas novo

Darfur 3.png

Kirsten Johnson é diretora de fotografia de documentários, e em 25 anos de carreira, foi responsável pela captura de imagens das mais diversas e de importância cultural e histórica indiscutíveis. Nesse filme, ela faz uma colagem de diversas dessas cenas, mostrando os fragmentos das histórias que mais a tocaram no decorrer dos anos, do cotidiano de uma parteira na Nigéria a uma luta de boxe no Brooklin, passando por regiões atingidas pelas mais diversas guerras e por registros íntimos de sua própria família.

Em um exercício metalinguístico, o documentário se inicia com planos que mostram alguns aspectos do processo de filmagem: ajustes de quadro, procura pela melhor iluminação, preparação do entrevistado, e por aí vai. Como uma forma de destrinchar a metodologia fílmica, as cenas escolhidas contam alguma história, ou parte dela, mas o que importa é o que foi retirado das edições finais dos respectivos filmes: quando a câmera ainda não foi posicionada adequadamente, quando a pessoa filmada olha constrangida para a câmera ou ainda no momento em que o diretor ou diretora conversam com Kirsten sobre o que filmarão a seguir. Enquanto o filme transita nesse âmbito, é bem sucedido.

A partir da metade do filme, que tem no total longos 102 minutos, a escolha de cenas parece aleatória, como se fossem necessárias apenas para preencher uma lacuna. No lugar da elaboração do objeto exposto, há digressão em cima dos temas previamente discutidos nos documentários originais. Busca-se, sem sucesso, agrupar cenas de temas semelhantes como maneira de formar uma progressão. A força do filme concentra-se, enfim, nas questões dos filmes primordiais, e a coleção de imagens destes, aqui, não emociona ou mostra-se relevante por si só. São certas a sensibilidade e competência de Kirsten como diretora de fotografia – e os momentos registrados entre seus familiares são tocantes. Mas esse filme definitivamente não tem voz própria, ao menos não da forma como foi construído.


PERSONA (1966)

5 estrelas novo

persona

dez anos, eu escrevia a primeira resenha crítica de um filme da qual podia me orgulhar. A análise foi feita para a aula de História do Cinema, na faculdade, depois de assistir duas vezes a Persona, considerada por muitos a obra-prima de Ingmar Bergman, um dos diretores mais relevantes de todos os tempos. Muitos uptades de hardware e sistemas operacionais depois, desisti da minha ideia inicial de procurar a tal resenha, que deve estar perdida em alguma cápsula do tempo obsoleta, como um CD ou algo tão retrógrado quanto. Sem contar a mudança de endereço, que acabou deixando muita coisa fora do meu alcance (imediato, ao menos). Por incrível que pareça, no entanto, lembro-me bem da estrutura que escolhi para abordar Persona. E por mais incrível ainda que seja, minha visão do filme continua bastante parecida. Persona é um filme tão poderoso que deve resistir a qualquer prova do tempo, e hoje eu tive o privilégio de assisti-lo na tela enorme do CineSesc, uma das minhas salas favoritas – mesmo com as poltronas mais barulhentas da cidade.

Para quem não conhece Persona, aí vai a sinopse. E aproveite e corrija esse erro imediatamente! De certa maneira, é uma sorte e tanto nunca ter visto esse filme. Queria eu poder passar por essa experiência novamente.

Elisabet é uma famosa atriz que, depois de um surto, torna-se apática e muda. Alma é uma enfermeira designada a cuidar de Elisabet, que, do ponto de vista médico, não parece sofrer de nenhum mal. Para acelerar a melhoria da paciente, a diretora do hospital oferece sua casa de veraneio para hospedar Elisabet. Com o tempo e a companhia de Alma, ela passa a melhorar. Alma passa os dias falando sobre banalidades, mas o silêncio de Elisabet a incentiva a falar, cada vez mais, de assuntos íntimos, o que acaba culminando em uma catarse que provocará uma série de eventos conturbados.

Persona é um drama psicológico com nuances de suspense e terror de estética minimalista e toques metalinguísticos. Há um jogo de opostos e complementares fenomenal aqui: branco e preto, luz e sombra, dia e noite, quente e frio, vazio e cheio, representando Elisabet e Alma, ou o id e o superego de ambas, ou ainda os momentos pacíficos versus os momentos intranquilos. O trabalho de fotografia, nesse sentido, é fenomenal e, aliado à direção de arte, fabrica situações etéreas, como os sonhos, ou assépticos e gélidos.

A narrativa, essencialmente conduzida de forma tradicional, desenvolve-se em ritmo cadenciado e preciso o suficiente para criar uma atmosfera de suspensão e tensão que duram o filme todo, até seu último fotograma. Algumas brechas dão à narrativa ares de filme experimental, e funcionam bem principalmente porque abrem várias possibilidades de interpretação, ou o aprofundamento delas, sempre de maneira coerente.

Bibi Andersson e Liv Ullmann, que interpretam Alma e Elisabet respectivamente estão absolutamente magníficas. Seu trabalho hipnotizante dá dimensão aos já complexos personagens, como poucas vezes se viu no cinema. A força que a dupla feminina tem em um filme com pouca presença masculina, aliás, seja por tempo de tela ou relevância para a trama, é visionária para a época, e um exemplo a ser seguido ainda hoje.

Há tanto o que se dizer de Persona, mas encerro por aqui a fim de tornar a experiência de que não o conhece mais prazerosa e completa. Comentem as suas impressões, se puderem. Vou adorar continuar a discussão.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s