Diário da Mostra: Dia 9 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Meu nono dia de Mostra, três bons filmes: Corações Cicatrizados, um drama romeno do diretor Radu Jude, La Madre, um drama espanhol do diretor Alberto Morais e O Sonhador, um drama peruano do diretor Adrián Saba.

CORAÇÕES CICATRIZADOS (INIMI CICATRIZATE, 2016)

3 estrelas novo

corações cicatrizados

Na Romênia de 1937, o jovem Emanuel é diagnosticado com tuberculose óssea, uma condição que o obriga a se submeter a um tratamento longo e sofrido. Internado em um hospital especializado no tratamento de pacientes com a mesma condição, Emanuel tenta, ao lado de seus companheiros e de funcionários do hospital, viver um dia de cada vez, com a leveza que é possível e a esperança necessária para superar a doença.

Título e sinopse levam a crer: vem chumbo grosso por aí. Corações Cicatrizados parece aquele tipo de filme que arranca emoção do espectador menos emotivo e emancipa, além de lágrimas doloridas, a mais lúgubre das sensações. Radu Jude, o diretor do aclamado Aferim!, faz o oposto. Ao tratar a doença e seu respectivo tratamento de maneira inesperada, acaba abordando o tema com muita profundidade. O protagonista, provido de muito humor e otimismo, desbanca qualquer expectativa e, ao lado de seus companheiros, despe o espectador de qualquer preconceito. O cotidiano no hospital, embora sofrido e doloroso, é também divertido e esperançoso. Os pacientes buscam, a todo custo, tornar a rotina o mais normal possível, mesmo que passem meses ou até anos deitados e imobilizados, com todas as decorrências desagradáveis que isso implica. Os diálogos entre eles, que vão de análises históricas e políticas a declamações de poesia, são inspirados. As relações que surgem, inclusive as sexuais e amorosas, são autênticas.

No entanto, a indiferença em relação às assustadoras expectativas do futuro acaba influenciando a expectativa do próprio espectador, que não se envolve com os personagens por comprar sua maneira leve e despreocupada de lidar com o fardo que os acomete. É difícil se emocionar com personagens que lidam tão bem com problemas tão avassaladores, e esse é o problema irreconciliável de Corações Cicatrizados. Os belos enquadramentos e a escolha correta de janela (4:3) e lentes dão a sensação constante de limitação de espaço e falta de mobilidade, confluente com a situação dos personagens doentes; a edição dá espaço aos momentos constrangedores, inesperados e desconcertantes, que não são poucos; a direção de arte situa o espectador em um ambiente hostil e severo de forma nada óbvia, com uso de cores saturadas e muitos objetos de cena que conversam com o espectador. É difícil apontar os equívocos em um filme tão honesto, embora isso não tire nenhum de seus méritos, que não são poucos.


LA MADRE (LA MADRE, 2016)

3 estrelas novo

la-madre

Miguel é um adolescente que vive com uma mãe incapaz de dar-lhe a atenção mínima necessária e sustentá-lo. Para não passar fome, Miguel apela para pequenos furtos em mercados e para a venda de lenços de papel no semáforo. A indiferença e inconstância emocional de sua mãe, no entanto, são problemas com os quais Miguel não consegue lidar. Com um histórico no órgão de assistência social ao menor, Miguel e sua mãe passam a ser perseguidos por eles, e para que ela não perca a sua guarda, ele é mandado para a casa de Bogdan, que já os abrigou no passado, até que a situação se resolva. Miguel tem de enfrentar todas as dificuldades que se apresentam, enquanto sua mãe, que parece não saber como lidar com a situação, desaparece.

É impossível não empatizar com Miguel. Em nenhum momento o protagonista exibe o menor sinal de fraqueza ou derrota, ainda que inserido em um contexto cruel demais para sua imaturidade. A negligência da mãe o faz criar subterfúgios para problemas que fazem parte de seu cotidiano, como a fome, por exemplo. Miguel sabe, como poucos em sua idade, lidar com a falta de cuidado, amor e amparo. O tema não é novidade. Koreeda, por exemplo, já o explorou em diversos de seus filmes, como Ninguém Pode Saber (Dare mo Shiranai, 2004) e Nossa Irmã Mais Nova (Umimachi Diary, 2015), e muito bem, diga-se de passagem. Mas por mais que não se compare aos exemplos citados, La Madre é um filme sincero, sensível e dotado de uma narrativa bem construída, bons personagens e uma abordagem simples e direta.


O SONHADOR (EL SOÑADOR, 2016)

3 estrelas novo

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Sebastian é integrante de uma gangue que pratica furtos. Apesar da vida no crime, Sebastian parece não se encaixar nesse mundo, e tenta, apesar de tudo, tomar as decisões certas, ao mesmo tempo que busca uma maneira de dar um novo rumo à sua vida. Depois de proteger a irmã do líder da gangue, Emilia, entra em um embate, e passa a ser perseguido pelo resto da gangue. Em meio aos sonhos que tem acordado e à paixão que nutre por Emilia, Sebastian terá que decidir que futuro irá perseguir.

As escolhas pouco éticas de Sebastian parecem se refletir em seus sonhos nem sempre lúdicos. Ao mesmo tempo, é difícil compreender como ele participa de um grupo com o qual tem pouco em comum. Sua personalidade introvertida e solidária não combinam com a vida criminosa que escolheu, e parece rechaçar. Ainda assim, é possível simpatizar com esse jovem esperançoso e tímido que almeja um futuro melhor. A partir da fatídica briga com o líder da gangue, o cotidiano ingrato, mas instável de Sebastian começa a degringolar vertiginosamente, e os sonhos aparecem aí, mais como pesadelos, que se confundem com a realidade, enevoam seus pensamentos e confundem seu senso de julgamento. As cenas dos sonhos são muito bem filmadas e traduzem com certa poesia situações implacáveis e violentas. Há, no entanto, algumas escolhas de roteiro muito equivocadas, que prejudicam o ritmo do filme e empobrecem as relações entre Sebastian e Emilia. Os artifícios usados para explicar a história pregressa de Sebastian são, particularmente, muito primitivos, e não se equiparam ao restante do filme, que não atinge todo o seu potencial, infelizmente.

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