Diário da Mostra: Dia 10 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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E o último dia da Mostra não poderia ser melhor. Comecei com o poderoso Estados Unidos pelo Amor, um drama polonês. O segundo filme do dia, The Fits, é um leve drama com ares de thriller interessantíssimo. E para fechar, o sensível drama tunisiano Hedi. E que venha a repescagem!

ESTADOS UNIDOS PELO AMOR (ZJEDNOCZONE STANY MILOSCI, 2016)

4 estrelas novo

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Na Polônia de 1990, quatro mulheres vivem conflitos amorosos: Agata, uma jovem mãe que faz algum dinheiro alugando filmes em VHS, vive um casamento infeliz e alimenta uma paixão proibida; Iza, bem sucedida e implacável diretora de um colégio, vive um relacionamento complicado com um homem casado; Renata, uma professora solitária, fantasia com um relacionamento com a vizinha muito mais jovem, Marzena, é irmã de Iza e professora de ginástica e dança, cujo marido trabalha e vive na Alemanha.

Por conta da transição de um regime comunista para um regime capitalista, observam-se algumas mudanças de estilo de vida, mas esse não é foco do filme, que basicamente se divide em quatro partes, cada uma delas dedicada a uma das personagens centrais, que conectam-se de alguma forma. A maneira como cada uma delas lida com as dificuldades oriundas das relações amorosas que vivem, platônicas ou reais, é retratada com muita sinceridade e, ainda que haja alguns momentos delicados, a maior parte da história é permeada de descontentamento, dor e desilusão. O enquadramento, ora desconfortavelmente próximo, ora distante o suficiente para se observar um cenário mais amplo e mais chocante, e por vezes propositalmente fora do lugar, omitindo parte da ação ou do personagem, serve muito bem à narrativa e à atuação. A cor gélida e pálida e os espaços sem personalidade e vazios – exceto em uma das histórias, a mais singela das quatro – contribuem para a sensação de solidão e frieza. Os personagens, inclusive, adquirem uma cor de pele quase acinzentada que, combinada aos cabelos e olhos claros, os tornam criaturas frígidas.

Em seu terceiro longa metragem, Tomasz Wasilewski, roteirista e diretor de Estados Unidos pelo Amor, faturou, por esse filme, o prêmio de roteiro em Berlim. Não é para menos. Tomasz toca em questões polêmicas sem julgamentos ou conclusões, de forma concisa, esteticamente impecável e estruturalmente intrigante. Um dos grandes filmes da Mostra, que deve estrear em breve no Brasil em circuito. 


THE FITS (2015)

4 estrelas novo

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Toni é uma garota de 11 anos que treina boxe com o irmão mais velho em um centro comunitário, e um dia, ao assistir o treino de dança de um grupo de meninas, fica fascinada. Ela decide começar a praticar dança e vai aos poucos abandonando o boxe, ao mesmo tempo que inicia algumas amizades com colegas dançarinas e começa a descobrir um mundo diferente: o das garotas. Junto às descobertas, mudanças e inseguranças, surge um medo: cada uma das meninas que treinam com ela, uma a uma, vão apresentando sintomas estranhos que ninguém consegue explicar.

Anna Rose Holmer, roteirista, diretora e produtora do filme, estreia em longa de ficção com muito sucesso. Com estilo original, Anna consegue fazer um retrato sensorial, terno e nada afetado da infância. Toni é interpretada por Royalty Hightower, uma atriz estreante linda e talentosíssima. É impressionante a precisão de seus movimentos, a profundidade de seu olhar e as várias nuances de suas expressões. Além do bom trabalho que faz na direção de atores, Anna trabalha o tempo no filme de maneira muito peculiar: às vezes com demorados planos, às vezes com contemplativos e longos travellings ou planos em slow motion, em contraste com o ritmo dinâmico e agressivo tanto do boxe quanto da dança. A trilha sonora e o desenho de som são outros pontos altos do filme. Ao não se encaixarem harmonicamente com o que se passa em cena, contribuem para uma sensação de desconforto e estranheza e trazem o espectador para um plano mais próximo ao da protagonista. O elemento surpresa é trabalhado com muita competência, de modo que não tira o brilho da protagonista ou do curso da trama, mas cria um clima inquietante. Anna é uma diretora a se observar.


HEDI (2016)

4 estrelas novo

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Hedi é um jovem de casamento marcado. De acordo com a tradição, o casamento foi acertado entre sua família e a família da noiva, sem que o envolvimento ou afeto entre eles fosse necessário. Hedi inveja a vida mais livre que tem seu irmão mais velho, ao mesmo tempo que se ressente do tratamento condescendente que recebe da mãe. Às vésperas do casamento, ele é enviado para uma cidade vizinha a trabalho e conhece Rim, uma mulher com quem inicia uma relação apaixonada, e deve se decidir entre uma vida incerta ou a que foi escolhida para ele.

Mohamed Ben Attia é o roteirista e diretor estreante desse filme. Venceu o prêmio de primeiro filme em Berlim, e Majd Mastoura, que interpreta Hedi, venceu o prêmio de ator no mesmo festival. O trabalho de ambos é realmente tocante. É interessante o fato de o tema, dessa vez, ser abordado através da perspectiva masculina. A suposição de que o infortúnio limita-se à mulher, nesse tipo de sociedade patriarcal, cai por terra quando conhecemos esse personagem que não se sente à vontade com as tradições impostas por sua família. Por outro lado, é possível se identificar com Hedi mesmo que não se compartilhe semelhanças aparentes com ele. Há momentos em que os conflitos de gerações fazem questionar se os rumos pré-definidos pela sociedade são modelos a serem seguidos ou se devem ser rechaçados. Ou, ainda, se podem ser ajustados. A crise que antes aparecia na meia idade, quando os planos traçados já haviam sido seguidos, hoje, é cada vez mais comum que as crises apareçam antes mesmo que eles se concretizem, justamente porque o medo de ter que viver para sempre de maneira imposta, e não escolhida, faz o questionamento vir mais cedo, antes que seja tarde demais. Nesse sentido, Hedi é um filme universal. E a relevância de seu argumento e a maneira sensível e honesta como se conta essa história, fazem, desse, um dos nelhores filmes da Mostra desse ano.

 

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