Diário da Mostra: Dia 8 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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No meu oitavo dia de Mostra, um filme bom e dois filmes ruins. Comecei com o melhor filme do dia, o suspense Morte em Sarajevo, de Danis Tanovic, passei para o aguardado O Segredo da Câmara Escura, suspense de Kiyoshi Kurosawa, e terminei com o que foi, até agora, o pior filme da Mostra, o terror Symptom, de Angelos Frantzis.

MORTE EM SARAJEVO (SMRT U SARAJEVU, 2016)

3 estrelas novo

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No dia do centenário da morte do arquiduque Francisco Ferdinando, fato que culminou no início da Primeira Guerra Mundial, o Hotel Europe, em Sarajevo, recebe representantes da União Europeia para uma comemoração. Enquanto uma série de entrevistas televisivas que analisam o acontecimento do ponto de vista histórico e cultural acontecem na cobertura do hotel, alguns funcionários se organizam para entrar em greve por conta de um atraso de pagamento de salários, e os acontecimentos caminham para o que poderia arruinar a comemoração, última chance que o hotel tem de gerar renda o suficiente para não ser hipotecado.

Os diversos personagens que habitam o Hotel Europe nessa importante data cumprem seus cotidianos aparentemente sem muitas expectativas ou previsões. Omer, o diretor, lida com as dificuldades financeiras do hotel como pode, administrando as dívidas sem esperanças de que seja possível reverter a situação calamitosa à qual chegou. Lamija é uma funcionária exemplar que cumpre suas funções com afinco e dedicação, mas terá de lidar com o fato de sua mãe, também funcionária do hotel, estar liderando a greve que está por vir. Jacques é um hóspede VIP que receberá tratamento especial e indiretamente terá influência na vida de outros personagens ao seu redor. Vedrana e Gavrilo travarão uma discussão política por estarem em lados diferentes da história. A quantidade de personagens e acontecimentos é muito bem administrada pelo diretor e roteirista Danis Tanovic, do também ótimo Terra de Ninguém (No Man’s Land, 2001) que, ao contrário, é um filme de dois personagens que se passa em um espaço pequeno e limitado. Os movimentos de câmera fluidos e a edição invisível favorecem a transição de um núcleo a outro, e a tensão, de início latente, cresce discretamente até atingir seu ápice de forma chocante. O elenco afiado segura a trama do início ao fim com competência, dirigido por uma mão firme, mas suave. Morte em Sarajevo é um filme politicamente relevante, mas, principalmente, uma história bem contada.


O SEGREDO DA CÂMARA ESCURA (LE SECRET DE LA CHAMBRE NOIRE, 2016)

2 estrelas novo

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Stéphane é um fotógrafo reconhecido que nutre uma paixão pelos daguerreótipos, câmeras do século 19 que supostamente tornam eternas as almas das pessoas fotografadas. Ele vive em uma imensa e decadente propriedade com sua filha única, Marie, que posa, por horas a fio, para as fotografias do pai. Entra em cena Jean, contratado por Stéphane como assistente. Ele vai se apaixonar por Marie e tentar influenciar Stéphane a vender a mansão para ganhar uma comissão, o que vai ameaçar as relações e a aparente paz da casa.

O hobby de Stéphane é hipnotizante e assustador, ao mesmo tempo. Em plena era digital, é praticamente inconcebível que se use equipamentos que demandem o espaço, cuidado e tempo de exposição que os daguerreótipos que ele usa, mas há de se concordar que as obras resultantes são de uma beleza rara. O fato de ele usar a filha como modelo, no entanto, é sádico, embora ele não tenha essa consciência. Já que as exposições chegam a ter mais de duas horas de duração, e para que o resultado seja perfeito, a modelo deve permanecer imóvel, e para tanto Marie precisa usar um maquinário feito para paralisá-la, o que a incomoda de sobremaneira, ainda que ela nunca externalize esse sofrimento ao pai de maneira muito clara. Jean deveria ser o personagem que melhoraria a comunicação entre pai e filha, mas ao invés de representar uma solução, surge como um novo problema. A paixão por Marie parece infundada, o que torna todo o desenvolvimento da trama pouco crível. Além disso, a influência que tenta exercer dobre Stéphane na venda da casa parece forçada. A história, que passeia pelo fantástico, não convence, bem como os personagens rasos e interpretados por um elenco pouco inspirado. Há de se admitir, no entanto, que o filme é esteticamente impecável. Fotografia, direção de arte, figurino e trilha sonora são seus pontos altos.


SYMPTOM (SYPTOMA, 2015)

1 estrela novo

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Em uma isolada ilha da Grécia, uma criatura estranha passa a assombrar as pessoas que, ao fazerem contato com ela, enlouquecem. Os moradores declaram, então, guerra a essa criatura, com a ajuda de uma mulher que parece implacável. Enquanto isso, um drama familiar, que parece desconectado com os eventos da ilha, gera uma série de desequilíbrios e mudanças.

A premissa é interessante e pouco convencional. Com ares de suspense e terror, o filme acerta ao escolher personagens e situações bizarras que assustam menos pela violência e mais pela singularidade. Há um estranheza agradável na composição de alguns planos e na forma como, em muitos deles, os personagens parecem olhar diretamente para o espectador, e não para alguém por trás da câmera. As máscaras são assustadoras e parecem provindas de um mundo real, e não fantasioso, o que é sempre amedrontador. No entanto, a história é desenvolvida de maneira muito confusa. O primeiro ato é basicamente formado por cenas que parecem aleatoriamente reunidas. Não é possível estabelecer uma linha cronológica, tampouco reconhecer os personagens ou entender o que estão fazendo. No segundo ato, quando aparecem os primeiros diálogos do filme, e quando os personagens passam a interagir de forma que se torna possível enxergar uma história, surge a impressão de que se fará uma conexão entre os dois momentos, o que eventualmente acontece, ainda que de maneira caótica e pouco convincente. Symptom é um filme estranho e equivocado, que parece muito mais longo do que é, o que nunca é um bom sinal.

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