Diário da Mostra: Dia 7 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Três filmes no dia 7: os dramas brasileiros Antes o Tempo Não Acabava, de Sérgio Andrade e Fábio Baldo, e Beduíno, de Júlio Bressane, e o suspense/terror alemão O Último Vagão, de Andreas Schaap.

ANTES O TEMPO NÃO ACABAVA (2016)

2 estrelas novo

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Anderson é um jovem de raízes indígenas que vive na periferia de Manaus junto à sua comunidade, que ainda mantém os costumes tradicionais. O rapaz não se sente pertencente àquele povo, e deseja buscar sua independência e viver no centro da cidade.

Além do tema relevante e do tratamento ousado e corajoso, o filme tem bons momentos, como as cenas mais naturalistas – os rituais, por exemplo – e os momentos em que Anderson se encontra sozinho na ação. Há problemas nos diálogos, tanto no texto quanto na atuação de alguns não-atores, mas alguns dos momentos silenciosos e contemplativos são realmente belos, como os que se passam na fábrica onde Anderson trabalha no início do filme. O desenho de som é outra grande qualidade. No entanto, a impressão que fica ao término é que a ideia central não foi plenamente desenvolvida. O personagem de Rita Carelli não acrescenta nada à trama e toda a sua passagem poderia ser eliminada para favorecer uma evolução mais coerente e interessante de Anderson.


BEDUÍNO (2016)

3 estrelas novo

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De maneira poética, teatral e pouco usual, o filme não apresenta uma história como fio condutor, mas uma série de situações desconexas, mas com pontos comuns, que tratam de questões existencialistas e mundanas, baseadas na realidade ou não. As situações são representadas por Fernando Eiras e Alessandra Negrini, em performances impressionantes.

O cenário uniformemente enfumaçado, para favorecer o desenho de luz, e as cores vibrantes e contrastadas ajudam a criar a atmosfera pouco realista. Os figurinos e atuações propositalmente exageradas remetem ao palco do teatro, mas ao mesmo tempo, ao sair daquele ambiente interno, a edição e o enquadramento servem para lembrar o espectador que se trata de um filme. O texto impecável se beneficia com a interpretação do casal, com destaque para Alessandra Negrini, que faz um trabalho cheio de nuances e sutilezas. Da escolha das imagens de outras obras ao uso genial da canção que adorna a sequência final do filme, tudo é meticulosamente calculado. Mesmo assim, desde o início, quando um plano-sequência de making of torna-se parte do filme, Bressane convida o espectador a embarcar numa jornada de maneira consciente e participativa, ao mesmo tempo que homenageia a equipe e, de certa forma, todos aqueles que participam da feitura de um filme.

Beduíno não é um filme fácil, mas é delicioso.


O ÚLTIMO VAGÃO (DAS LETZTE ABTEIL, 2016)

3 estrelas novo

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Greta é uma jovem a caminho da clínica onde sua mãe se encontra em coma, depois de uma tentativa de suicídio, há dezenove anos. Depois de uma avalanche, o trem descarrilha e o último vagão, onde estão Greta e mais cinco passageiros, é soterrado completamente pela neve. Pelo rádio, eles descobrem que há uma operação de resgate em curso, e que todos os passageiros dos outros vagões já foram resgatados. Pelos cálculos de um deles, eles têm pouco mais de uma hora de oxigênio, e enquanto aguardam, começam a fazer descobertas desesperadoras.

O filme começa com cenas nauseantes dos alpes onde o acidente aconteceu. Com a câmera invertida, a sensação que se tem é de estar a bordo de uma montanha russa – ajuda se a tela for bem grande e você estiver bem próximo dela. A seguir, as náuseas continuam sendo incentivadas, com uma luz vermelha que não para de piscar no vagão acidentado. O lugar é inóspito, escuro, úmido, assustador. A experiência de quase morte mantém todos no limite, e o clima de tensão só aumenta conforme os passageiros vão descobrindo detalhes daquele vagão. Intercalam-se às cenas no trem, cenas no que parece ser um hospital. Greta é a paciente aparentemente inconsciente, e esse paralelo faz o espectador começar a prever algumas possíveis conexões. A impressão que se tem, na metade do filme, é que as revelações foram feitas prematuramente, mas é certo que qualquer previsão estará incorreta, pelo menos em parte. A história é bem estruturada e fundamentada, o problema é que o filme se prolonga além do que deveria. Com muitos elementos, e muitas vezes exagerado – na trilha sonora, nas cores, nos enquadramentos – ele se torna cansativo e perde a força ao fazer a transição de terror/suspense para drama. O diretor, que estava presente na sessão, falou, antes da exibição, que a ideia do filme surgiu por conta do Alzheimer que acometeu sua mãe e a levou ao óbito. Por uma infeliz coincidência, seu pai faleceu um mês depois de sua mãe. Como processo de luto e homenagem, é compreensível que o filme tenha tomado o caminho que tomou. Do ponto de vista cinematográfico, a meia hora final prejudicou o resultado como um todo, seja por conta da perda de ritmo, seja porque, num exercício de expurgação, perdeu pontos de ousadia que havia ganhado até então. Ainda assim, é um ótimo exemplar do gênero, e sensível ao mesmo tempo.

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