Diário da Mostra: Dia 6 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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No meu sexto dia de Mostra, assisti a dois filmaços, ambos em cópia nacional o que sinaliza que seu lançamento no Brasil será em breve. Por isso, a não ser que você seja ansioso como eu, não precisa assistir na Mostra. Eu só acho que você deveria, de qualquer jeito, assistir o quanto antes a essas obras lindas. Só acho. O primeiro filme é o novo Hirokazu Koreeda, Depois da Tempestade. O segundo, é o novo Paul Verhoeven, concorrente francês a uma vaga no Oscar de filme estrangeiro, Elle.

DEPOIS DA TEMPESTADE (UMI YORI MO MADA FUKAKU, 2016)

5 estrelas novo

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Ryota é um escritor premiado que deixou a escrita de lado e trabalha como detetive particular. Para incrementar a renda, além das chantagens que faz com os clientes da agência onde trabalha, investe em jogos de azar. No entanto, nunca tem o suficiente para pagar a pensão de seu filho, o que desgasta seu relacionamento com sua ex-mulher, por quem ainda nutre sentimentos. Um dia, com a ajuda de sua mãe, Ryota se encontrará com o filho e a ex-mulher antes de uma tempestade que os manterá presos em casa, para tentar reaver o amor e respeito da família.

Como em boa parte de sua filmografia, o tema de Depois da Tempestade é a problemática familiar. Ryota está no centro de dois núcleos familiares, e embora haja um certo equilíbrio nas relações, principalmente por conta da previsibilidade dos atos, os conflitos vêm à tona a todo momento: quando Ryota pede dinheiro emprestado à irmã, quando a irmã visita a mãe apenas para filar o jantar, quando Ryota se lembra com desalento que o falecido pai não aprovava sua escolha profissional. A dinâmica familiar, no entanto, não necessariamente influencia as más decisões ou os desencontros. Koreeda argumenta que eles podem, sim, ser frutos do acaso e inevitáveis. O que não impede que se busque uma mudança de paradigma. Ryota é quase um anti-herói, cheio de falhas, manias irritantes e uma inclinação para as escolhas imorais ou antiéticas. Por outro lado, Ryota é tão humano quanto qualquer um de nós, daí a identificação. Os problemas com os quais Ryota lida são mundanos, e nem por isso menos preocupantes. A tentativa de tentar não cometer os mesmos erros que o pai é genuína e admirável, principalmente porque ele não está em seu melhor momento, o que faz com que seus esforços sejam ainda mais desgastantes.

Se há elementos comuns com outros de seus filmes, há também uma diferença crucial. Pela primeira vez, Koreeda trata do assunto de maneira muito leve, com um humor que ora provoca risos discretos, ora induz gargalhadas retumbantes. A morte do pai de Ryota, por exemplo, nunca é tratada com pesar, o que não significa que o tratamento seja desprovido de emoção ou sensibilidade, pelo contrário. Todos os personagens, sem exceção são belamente construídos. A mãe de Ryota, especialmente, me emocionou muito ao me fazer recordar-me de minha avó materna, expansiva, um pouco teimosa e muito honesta. O enfoque em alguns problemas menos sérios, como por exemplo a poeira na banheira e o suco congelado trazem humanidade aos personagens, ao mesmo tempo que divertem. E junto à caracterização dos espaços (a casa da mãe de Ryota, especialmente) e os costumes cotidianos, incluindo a comida, me levam, particularmente, ao êxtase, como se eu fizesse uma viagem no tempo e revisitasse pessoas que já se foram e lugares que não existem mais.


ELLE (2016)

4 estrelas novo

elle

Michèle é uma mulher divorciada e independente, que vive sozinha e lidera uma equipe de homens em sua empresa de games. Além dos funcionários, Elle está rodeada de homens: seu ex-marido, que acabou de começar um relacionamento com uma mulher mais jovem, seu filho imaturo que finalmente arruma um emprego ao descobrir que a namorada está grávida, o amante, que trabalha com ela e é casado com sua melhor amiga e o novo vizinho, casado, por quem sente uma impulsiva atração. Depois de sofrer um estupro em sua casa, Elle passa a receber mensagens ameaçadoras, supostamente do estuprador, mas se recusa a procurar a polícia por conta de uma história do passado.

Elle é tenso, sexy, imprevisível e engraçado. Verhoeven consegue ir do cômico ao trágico em minutos, com maestria. Isabelle Huppert está soberba, no controle absoluto, como sua personagem, que toma as rédeas de todas as situações, incluindo as mais trágicas e complexas. Se por um lado Elle é uma mulher admirável, forte, linda, profissionalmente bem sucedida e sexualmente bem resolvida, por outro, trata a maioria das pessoas com desdém ou as usa a seu bel prazer. A história de seu passado que envolve seu pai pode ser a explicação para seu comportamento, mas ao que me parece, Elle sofre de um tipo de psicopatia que se não a faz uma pária da sociedade, a torna mais solitária que independente, e insatisfeita apesar de seus esforços para realizar todos os seus desejos.

O jogo estabelecido por seu agressor é assustador, e Verhoeven conduz o mistério muito bem, apresentando os elementos de forma cabível e no tempo certo, embora seja possível fazer algumas previsões. A violência física e psicológica não são supervalorizadas a ponto de se sobreporem aos outros elementos da trama e, principalmente, à protagonista, o que é uma escolha acertada. Assim como Elle vai fazer de tudo para descobrir quem é o seu agressor e para superar o que lhe aconteceu, o espectador não precisa ser exposto a violência gratuita porque esse não é o propósito do filme – e não deveria ser de nenhum. Carregado de outros assuntos polêmicos, o filme acerta ao não enfatizar nenhum deles. Elle é o ponto central, e isso de certa forma é a representação perfeita de seu egocentrismo.

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