Diário da Mostra: Dia 5 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Meus dias preferidos na Mostra são aqueles que começam com filme bom e terminam com um filme melhor ainda. Hoje, foi um dia desses. Primeiro, assisti à co-produção Reino Unido e Japão Greater Things. Depois, veio o premiado Oscuro Animal. Para fechar o dia com chave de ouro, o drama espanhol Um Outono sem Berlim.

GREATER THINGS (2015)

3 estrelas novo

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Na cosmopolita cidade de Tóquio, quatro personagens se encontram: um lutador lituano de MMA, um arquiteto de origem ocidental desconhecida e um casal de japoneses de meia idade desconectados. A colagem de situações cotidianas retrata, sem um enredo muito definido, o deslocamento do lutador sensível e, ao mesmo tempo, bruto, a relação desgastada e acomodada do casal e o arquiteto curioso que parece ainda não ter encontrado propósito no mundo.

Os espaços que eles ocupam, da contemporânea casa em formato de aquário às engenhosas e luxuosas lojas, passando por uma singela casa na árvore, um barraco meticulosamente projetado e uma claustrofóbica academia, funcionam no filme como personagens secundários. A relação das pessoas e dos espaços ora sinaliza sua solidão, ora enfatiza seu deslocamento. Com pouquíssimos diálogos, o filme consegue estabelecer emoções e sensações através de belos enquadramentos, movimentos de câmera invisíveis e uma edição precisa.


OSCURO ANIMAL (2016)

4 estrelas novo

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Três mulheres têm suas vidas devastadas por consequência da guerra entre facções criminosas em uma área rural da Colômbia, e são obrigadas a deixar suas vidas para trás em direção a Bogotá, para um futuro diferente.

O filme tem alguns poucos diálogos que não foram sequer legendados, o que leva a crer que o que é dito não tem importância alguma para o entendimento da trama. De fato, quem nos guia pelas três histórias que acontecem paralelamente, são os rostos dessas três mulheres. A atuação impressionante das três, com destaque para a brilhante Marleyda Soto, que interpreta Rocio (a mulher que chega em casa e descobre que ela foi invadida e que sua família desapareceu), é beneficiada por uma câmera que se movimenta como se dançasse uma coreografia milimetricamente calculada. Os planos jamais mostram mais do que o necessário, e revelam expressões e movimentos essenciais para a construção das histórias com um timing invejável. Para a construção da atmosfera, dispensou-se o uso de música e abusou-se de um som muito presente em cena, encorpado, ritmado e que exalta situações de maneira sorrateira, como se fosse apenas som ambiente. Há uma perda de ritmo no terceiro ato, e embora o prolongamento de algumas cenas seja importante para criar no espectador uma sensação de angústia proporcionalmente equivalente à sofrida pelos personagens, a conclusão chega um pouco depois do ideal, causando menos impacto do que deveria. Belo trabalho de direção de Felipe Guerrero, em sua estreia em longa de ficção.


UM OUTONO SEM BERLIM (UM OTOÑO SIN BERLIN, 2015)

4 estrelas novo

um outono sem berlim

Depois de uma tragédia, June vai embora de casa, deixando para trás o pai, o irmão e seu namorado, Diego. Tempos depois, retorna para tentar reestabelecer uma conexão com aqueles que magoou no passado, e terá que lidar com as consequências de sua fuga e entender o que mudou desde que ela se foi.

Em seu primeiro longa metragem, Lara Izagirre conta uma bonita e despretensiosa história de amor e desencontros. No retorno de June à sua cidade natal, somos apresentados a diversas pessoas que ela deixou para trás, mas o foco do filme é a relação entre ela e seu ex-namorado, que tornou-se um recluso por conta de uma depressão profunda causada, ao que tudo indica, pela fuga de June. As dificuldades do início são rapidamente dissipadas e dão lugar a uma tentativa de reconstrução da relação, com direito a momentos românticos tipicamente adolescentes, sem muita profundidade, mas com sensibilidade, ainda assim. June e Diego são personagens muito bem construídos, e a atuação de ambos é muito boa. Alguns personagens sobram no filme, como a amiga Ane e o irmão Aitor, e outros têm mais tempo de tela do que o necessário, como Nico, o menino para quem June dá aulas de francês. Quando se concentra em June e Diego, o filme acerta. A conclusão torna-se previsível apenas poucos momentos antes do fim do filme, o que a torna poderosíssima. Apesar dos problemas de roteiro, Um Outono sem Berlim é um retrato bonito de uma relação amorosa entre dois jovens e as consequências da depressão na vida de todos ao redor.

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