Diário da Mostra: Dia 4 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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Na programação para o meu quarto dia de Mostra estava o aguardado novo trabalho dos irmãos Dardenne, dos ótimos O Filho (le Fils, 2002), A Criança (L’Enfant, 2005) e O Silêncio de Lorna (Le Silence de Lorna, 2008). Consegui encaixar apenas um filme antes, e optei por um argentino sobre o qual nada sabia: O Futuro Perfeito, de Nele Wohlatz, em seu longa de estreia. Em ambos os filmes, as protagonistas são personagens femininos, muito bem construídos, por sinal. E cada um a sua maneira, se preocupa em, mais que contar uma história, analisar o personagem em questão. Vamos a cada um deles.

FUTURO PERFEITO (EL FUTURO PERFECTO, 2016)

2 estrelas novo

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Xiaobin é uma garota chinesa recém-chegada à Argentina, onde vive sua família. Lá, ela recebe um novo nome e deve começar a trabalhar para ajudar a pagar as contas de casa. Sem falar uma palavra em espanhol, Xiaobin apresenta todas as dificuldades esperadas no trabalho e acaba sendo mandada embora. Ela usa, então, o dinheiro que tem escondido de sua mãe para fazer aulas de espanhol, sem o conhecimento dos pais, que desejam que ela se case com um rapaz chinês e viva de maneira tradicional até o retorno de todos para a China. À medida que Xiaobin passa a entender melhor a língua, começa a pensar em seu futuro e nas escolhas que se apresentam, como um possível casamento com um jovem indiano que começou a namorar secretamente.

Xiaobin Zhang, a atriz que interpreta a protagonista homônima, apesar de estreante, é a única atriz profissional do filme. Todos os outros não são atores, o que traz uma característica naturalista ao filme, e nunca amadora. A direção de atores é correta, e o timing para os diálogos e para as cenas naturalmente cômicas é um mérito. Também é bastante interessante observar, através do ponto de vista de uma adolescente, o choque cultural e as dificuldades impostas pela barreira da língua. Por outro lado, falta ao filme um fio condutor, uma história que desperte um maior interesse por parte do espectador. Durante o primeiro e segundo atos, além da apresentação dos personagens, nada realmente relevante acontece, o que torna a experiência mais enfadonha do que se gostaria. A conclusão do filme é a melhor parte: criativa, divertida e significativa. Como exercício, o filme é válido. Mas a falta de propósito faz os seus 65 minutos parecerem uma eternidade.


A GAROTA DESCONHECIDA (LA FILLE INCONNUE, 2016)

3 estrelas novo

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Jenny é uma médica que assumiu a clínica de um médico prestes a se aposentar. Um dia, depois de acontecimentos que levaram a um desentendimento entre ela e seu estagiário, a campainha da clínica toca, mas como o expediente já encerrou há mais de uma hora, Jenny decide não atender, apesar do protesto do estagiário. No dia seguinte, a polícia procura Jenny por conta de uma morte que ocorrera na noite anterior, e através das imagens gravadas pela câmera de segurança do consultório, Jenny descobre que a pessoa encontrada morta é a mesma que tocou a campainha e que ela se recusou a atender.

Como em seus filmes anteriores, A Garota Desconhecida se concentra em sua protagonista. A câmera segue Jenny de perto, do começo ao fim, seja em situações banais como o atendimento de pacientes, o preparo do jantar ou a abertura da clínica, seja em momentos cruciais da trama, quando revelações bombásticas são feitas, ou até mesmo em momentos de agressividade e violência. Apesar de pouco se revelar sobre Jenny – não sabemos quase nada de sua história pregressa ou de sua família ou amigos, por exemplo -, ao final do filme, é latente a sensação de familiaridade com o personagem. Jenny se revela através justamente dos atos cotidianos, e cada movimento, olhar ou escolha de palavras nos revelam um pouco de si.

A busca pela identidade da garota encontrada morta torna-se uma obsessão movida pela culpa, mas percebemos que Jenny é uma pessoa que primordialmente se preocupa com o bem estar do próximo, e por isso entendemos perfeitamente que ela use métodos questionáveis em sua investigação particular. Conforme os mistérios que rondam a morte da garota não identificada vão sendo resolvidos, fica claro que a culpa é um fator comum, embora os atos dos outros personagens também sejam movidos por sentimentos menos nobres, como a vergonha e o ciúme. Esse definitivamente não é o melhor filme da carreira dos irmãos, mas ainda assim, é um bom filme.

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