Diário da Mostra: Dia 2 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

40 mostra 2No segundo dia de Mostra, foram 4 filmes: A Atração, da Polônia; Nunca Vas a Estar Solo, do Chile; O Apartamento, do Irã e The Handmaiden, da Coreia do Sul. O saldo foi positivo, com direito a plateia bastante entusiasmada nos quatro filmes. Entre suspiros, palmas, gargalhadas e lágrimas, a audiência foi bastante participativa, o que sempre é um bom termômetro. Do meu ponto de vista, The Handmaiden e O Apartamento, dois dos grandes favoritos, vão acabar entre os mais bem votados. A Atração é uma boa surpresa e Nunca Vas a Estar Solo é um filme bem intencionado.

A ATRAÇÃO (CÓRKI DANCINGU, 2015)

3 estrelas novo

a atração

A Atração conta a história de duas sereias irmãs capturadas voluntariamente por um trio musical que se apresenta em uma boate de entretenimento adulto. A dupla consegue adquirir forma humana fora d’água, e assim passa a ser a atração principal da boate, encantando com sua beleza, voz angelical e performances inusitadas. Os imbróglios resultantes da relação entre elas e o trio que as encontrou tornam-se cada vez mais intrincados e complicados, o que leva a uma série de eventos permeados de violência e sofrimento.

Em seu primeiro longa metragem, a diretora Agnieszka Smoczynska faz um trabalho ao mesmo tempo experimental e comercial. A fábula se mistura ao surreal, e as cenas dramáticas dão lugar, em diversas oportunidades, a performances que lembram menos os musicais clássicos do cinema e mais videoclipes musicais. Em nenhum momento, no entanto, ela enfia os pés pelas mãos. Causa-se certa estranheza nas transições de um momento para outro, que passam a ser completamente naturais conforme o filme ganha corpo.

A figura da sereia é retratada com maestria: os olhares inocentes e ao mesmo tempo sedutores são a perfeita metáfora do misto de delicadeza e brutalidade que elas são. O impacto que elas causam depois de sua chegada é bem retratado visualmente. Antes das sereias, o clube estava sempre relativamente pacato, iluminado, colorido, com coreografias quase ensaiadas, rostos satisfeitos. Pairava no ar uma tranquilizante previsibilidade. E mesmo aí é notável e admirável a caracterização dos personagens e ambientes: maquiagem, figurino e cenários remetem à uma estética inspirada nas décadas de 50 a 80, com bastante personalidade. O uso de cor e luz aqui contribuem para uma aura alegre e divertida. À medida que as sereias passam a ter mais influência, há mais sequências escuras, monocromáticas, contrastadas, e o clube em questão passa a ter um clima oposto ao do início: não há mais controle tampouco calmaria.

Do ponto de vista dramatúrgico, é impecável a direção das atrizes principais. Tanto as sereias quando a líder do trio musical esbanjam carisma e seduzem mais com os olhares, vozes e dança que com seus corpos. O protagonismo da figura feminina, aliás, é um ponto importante a ser observado. Principalmente porque ainda que todas as três sejam personagens fortes e imponentes, estão, em boa parte do filme, submetidas a personagens do sexo oposto, por esse ou aquele motivo. A conclusão, aliás, é bastante emblemática e embora aqui seja apresentada como fábula ou folclore, é justamente uma representação realística do mundo de verdade.


NUNCA VAS A ESTAR SOLO (2016)

2 estrelas novo

nunca-vas-a-estar-solo

Juan e Pablo são pai e filho que vivem uma relação distante, mas pacífica. Pablo é um adolescente gay que sonha em dançar profissionalmente, tem uma única amiga e está vivendo um romance com o garoto que não o assume. Juan trabalha em uma fábrica de manequins e tem um cotidiano enfadonho ao lado do patrão que não valoriza seu trabalho e de uma vizinha que insiste em investir em um relacionamento amoroso que ele não quer. Um dia, Pablo é brutalmente espancado por conhecidos homofóbicos, o que vai levar Juan a ter que sair de sua zona de conforto para ajudar o filho.

Nunca Vas a Estar Solo é o filme de estreia de Alex Anwandter, que além de diretor, assina como roteirista e produtor. As intenções aqui são genuinamente boas. O tema, de extrema relevância, recebe tratamento despido de preconceitos e clichês. Há uma certa crueza estética que torna o filme menos palatável, o que é bom. A direção de arte minimalista e as cores pouco saturadas não sobressaem e ao mesmo tempo dão um tom soturno ao filme. Pablo é um bom personagem, e como protagonista do primeiro ato, suscita o interesse do espectador e o sensibiliza. A partir do segundo ato, quando Juan torna-se o protagonista, o filme rola ladeira abaixo. Problemas no roteiro, na direção, na edição e na atuação de Sergio Hernández, que interpreta Juan, tornam o filme incompreensível. Há um excesso de absolutamente desnecessárias cenas de transição, algumas decisões e ações do personagem parecem totalmente despropositadas ou, no mínimo, questionáveis e apesar de muito esforço, é difícil manter a empatia pelos personagens e o interesse por seu futuro. Custo a crer que a atuação ruim de Sergio seja sua culpa inteiramente. Seu vasto currículo me leva a acreditar que o problema esteja na direção, já que há defeitos em tantos e tão cruciais departamentos. É um pena. O filme tinha tudo para ser uma grande obra.


O APARTAMENTO (FORUSHANDE)

4 estrelas novo

o apartamento

Emad é professor e ator amador. Rana é sua esposa, com quem divide o palco numa encenação de A Morte do Caixeiro-Viajante, de Arthur Miller. Por causa de obras vizinhas, o prédio onde vivem começa a desabar, e eles precisam se mudar repentinamente. Um dia, Rana é surpreendida por um estranho enquanto toma banho e sofre um acidente, o que desencadeia um série de eventos que vão transformar o relacionamento do casal.

Asghar Farhadi é o roteirista e diretor desse filme iraniano que venceu o prêmio de roteiro e ator em Cannes. A banalidade e casualidade dos eventos é retratada com naturalidade, sem alardes ou pirotecnia, como é de costume em seus filmes. Mas apesar da aparente simplicidade, o roteiro impecável retrata pequenos acontecimentos que tomam proporções inimagináveis e irremediáveis. A evolução imprevisível dos personagens, especialmente de Emad, e da relação do casal nunca parece descompassada. Ritmo, aliás, é um dos grandes trunfos do filme, que cresce em curva exponencial a partir do final do segundo ato, quando passa a ter moldes de suspense. A mistura de cenas da vida real do casal com cenas da peça que encenam é um recurso inteligente. Se pode haver poesia em um filme tão naturalista, ela aparece em forma de edição.

A atuação premiada de Shahab Hosseini, que interpreta Emad, serve ao filme tanto quanto este serve ao ator. Ambos caminham juntos, e a crescente tensão é retratada brilhantemente pelo ator, na maneira como ele se movimenta, fala ou em seu olhar. A deterioração de seu estado emocional é palpável, bem como são inevitáveis as consequências disso no seu relacionamento com Rana, que vai culminar em uma conclusão imprevisível e chocante. É válido, aliás, notar que embora todo o contexto machista seja relevante para o desenrolar da história, ela poderia acontecer em qualquer sociedade ocidental. Esse é um grande mérito da obra de Farhadi: tornar universal o que não se imaginaria ser.


THE HANDMAIDEN (AH-GA-SSI, 2016)

4 estrelas novo

the-handmaiden

Sooke é uma jovem coreana contratada para servir Hideko, uma jovem herdeira japonesa que vive com o tio dominador em uma grande propriedade rural, na Coreia, durante a ocupação japonesa. O papel de Sooke é convencer Hideko a se casar com um vigarista que pretende prendê-la num manicômio e herdar sua fortuna. O sentimento que surge entre as duas, no entanto, pode estragar os planos.

Park Chan-Wook, de Oldboy (Oldeuboi, 2003) assina roteiro e direção desse que talvez seja o filme mais “cinemão” de sua filmografia. A trilha sonora e os planos grandiosos situam os personagens numa trama igualmente grandiosa. Dividido em três partes que contam a história de perspectivas diferentes, o filme é cuidadosamente estruturado, desde a escolha de planos em cada uma das perspectivas, até o uso milimetricamente calculado dos dois idiomas falados: coreano e japonês. Despido de preconceitos, ele consegue retratar o momento histórico de maneira pouco usual, mostrando a relação de poder entre japoneses e coreanos e entre homens e mulheres com crítica, mas sem julgamentos.

A paleta de cores fria e o contraste são um indicativo da vida dura e da tensão fúnebre que assombra o lugar. Apesar do luxo e conforto dos quais dispõe, Hideko vive como prisioneira, fadada a casar-se com o próprio tio numa manobra que o fará controlar toda a sua fortuna. O passado incerto de seus pais e tia são revelados gradativamente, assim como cresce a admiração e a paixão por parte de Sooke, uma golpista que também se mostra bastante ingênua. Diferentemente do que acontece em outros de seus filmes, aqui a violência é psicológica, e o sexo tem um papel importante na trama, em diferentes aspectos. Se a partir do segundo ato já é possível prever o final do filme, deliciar-se com todos os passos que são dados em direção a ele mostram-se mais agradáveis do que o que se poderia imaginar. Sensual, divertido e socialmente relevante, The Handmaiden caminha para ser o filme mais importante de sua obra até agora.

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