Diário da Mostra: Dia 1 na 40a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

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E lá vamos nós para a maratona mais querida dos cinéfilos paulistanos: a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, em sua 40a edição. Depois da árdua tarefa de fazer a minha programação, calculando tempo de deslocamento entre um cinema e outro, escolhendo entre filmes que quero muito ver e filmes que vou morrer se não vir, e me dando conta (de novo) que é sobre-humano assistir a tudo o que se quer e ainda escrever sobre os filmes no mesmo dia, cheguei a uma lista modesta de 27 filmes (sem contar a repescagem, que eu pretendo aproveitar ao máximo). Sem mais delongas, vamos ao que interessa: os filmes do primeiro dia.

MERCENÁRIO (MERCENAIRE, 2016) 

5 estrelas novo

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Mercenário é um drama francês que se divide entre a França e a Nova Caledônia, arquipélago da Oceania anexado à França. O protagonista Soane, um jovem de origem polinésia que vive humildemente com o pai autoritário e o irmão mais novo recebe a proposta de um olheiro para jogar rúgbi profissionalmente na França. O que, a princípio, parece o começo da realização de um sonho – e a única maneira de fugir de uma vida medíocre -, mostra-se cada vez mais inatingível. A começar pelas ameaças de seu pai, que é contra a ida do filho para outro país. Ao chegar lá, Soane é confrontado com decepção atrás de decepção, e começa a se questionar se terá forças, condições físicas e financeiras de sustentar a nova vida que escolheu.

O roteiro segue à risca o modelo clássico da jornada do herói, e de maneira impecável. A construção do personagem principal, para começar, é impressionantemente cuidadosa. Soane passa por uma transformação complexa, e em nenhum momento lembramos que se trata de um personagem fictício. A impressão é de que ele é um ser de carne e osso, primeiro porque a identificação e empatia são imediatos, segundo porque a atuação (e obviamente a direção do ator) são brilhantes. As situações impossíveis que se colocam a frente de Soane o forçam a tomar decisões difíceis e corajosas, ao mesmo tempo que as descobertas de um novo mundo o levam a desabrochar como homem e como ser independente, pensante, e provido de muita emoção.

A câmera está predominantemente bem próxima de Soane, mas nunca a serviço de exacerbar emoções. O contexto é sempre relevante, e ela se movimenta de maneira sutil, com o intuito de mostrar exatamente o que é necessário, ou deliberadamente não mostrar. Há bastante violência no filme. O próprio rúgbi tem, de certa forma, uma natureza violenta. Mas ela nunca é escancarada ou exagerada o suficiente para causar desconfortos desnecessários. Nesses momentos, a câmera se mantém suficientemente distante, ou posicionada em ângulos menos invasivos, o que considero um acerto nesse filme. Ele não precisa de violência gráfica. A fotografia é em geral bastante sutil, a não ser em duas cenas específicas, onde Soane sofre metamorfoses cruciais: a primeira é no vestiário, durante o intervalo de um jogo, e a segunda é na boate onde ele trabalha, no terceiro ato do filme. Embora no vestiário isso seja mais sutil, predominam em ambas a cor vermelha, quente, endiabrada, inspiradora.

Mercenário tem uma força sensível, como seu protagonista: um homem delicado de 120 quilos. A cada nova situação, Soane nos surpreende, apesar de entendermos onde ele deve chegar. Nada é óbvio ou previsível, como se nós, espectadores, estivemos desbravando esse novo mundo ao seu lado. E eu dei a sorte de abrir a Mostra desse ano com esse filmaço.


ZOOLOGY (ZOOLOGIYA, 2016)

1 estrela novo

zoology

Natasha é um mulher de meia idade que vive com a mãe em uma pequena cidade e trabalha em um zoológico onde é psicologicamente torturada pelas colegas. Ela não tem amigos – a não ser os animais do zoológico -, tampouco vida amorosa, e para incrementar o pacote, um dia ela acorda com um rabo. Entre visitas ao médico e exames, ela conhece Peter, um homem mais jovem que a trata bem como ninguém antes havia. Nasce, então, um relacionamento que fará Natasha se transformar física e emocionalmente.

Embora a premissa seja interessante, o filme não convence porque não se decide entre a fábula, o fantástico ou o realista. Não há motivo aparente ou metáfora clara para o surgimento da tal cauda, e ainda que em um primeiro momento Natasha tenha uma preocupação médica, a partir do surgimento de Peter em sua vida, ela abandona por completo a hipótese de que isso pode representar um problema de saúde. O relacionamento entre eles, aliás, não se desenvolve de maneira convincente – ao menos até o final do filme, quando uma revelação é feita. As provocações das colegas de trabalho e a maneira como ela reage a elas também não parecem bem fundamentadas. A mãe de Natasha é outro personagem mal desenvolvido, que não tem, de fato, papel nenhum na trama. Natasha é a única personagem que desperta alguma curiosidade, e o trabalho da atriz é excelente, diga-se de passagem. Não é o suficiente, no entanto, para salvar o filme, cujo roteiro mal estruturado se prejudica ainda mais com a direção confusa.


A CHINA ESTÁ PRÓXIMA (LA CINA È VICINA, 1967)

4 estrelas novo

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Vittorio, Elena e Camillo são irmãos e fazem parte da pequena nobreza de Romagna. Vittorio é um professor tentando ingressar na política, Elena é uma condessa que se relaciona com homens comuns mas não investe em nenhum deles com receio de que eles tenham interesses financeiros e Camillo é um adolescente que segue a linha política comunista de Mao Tse Tung.

De início atribulado, com a apresentação simultânea de muitos personagens, uma edição ágil e muito diálogos, o filme demora a estabelecer seu plot principal, mas faz uma contextualização rica e muito bem filmada. Carlo, o contador de Vittorio, deseja se casar com Elena para ingressar na rica família, enquanto Vittorio tem desejos por sua secretária, Giovanna. Essas relações, e a maneira como se desenrolam, com pouco romantismo e muito pragmatismo, revelam importantes aspectos dos personagens, e se relacionam diretamente com o teor político do filme. As relações sociais e de poder estabelecidas e demonstradas a todo instante, através de diálogos ou situações aparentemente banais, são mais relevantes politicamente que a candidatura de Vittorio ou o ativismo de Camillo. De maneira satírica, o roteirista e diretor Marco Bellocchio trata de assuntos sérios em voga em qualquer momento da história – e em qualquer lugar do mundo. Por isso, esse filme da década de 60 que venceu o prêmio do Festival de Veneza é relevante e atual ainda hoje.

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