Filmes do mês #19: o melhor e mais polêmico filme do ano, docs, nórdicos e mais

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Esse mês aproveitei a deixa da estreia de Aquarius para reparar um erro inadmissível e assistir, pela primeira vez, O Som ao Redor. E foram os dois melhores filmes do mês. Mas também teve espaço para comédia despretensiosa, filme novo do Todd Solondz, documentário sobre o filme Cidade de Deus e drama dinamarquês do icônico Thomas Vinterberg, entre outros. Essa talvez seja a seleção mais eclética da história do blog, e eu espero que possa ajudá-los a fazer escolhas menos óbvias na próxima sessão. Bons filmes!

OS MELHORES DO MÊS

AQUARIUS (2016)

5 estrelas novo

aquarius

Uma mulher viúva e aposentada que vive sozinha no apartamento onde cresceram seus filhos, hoje adultos, se recusa a vendê-lo, e por isso passa a sofrer assédio por parte da construtora que deseja comprá-lo para construir um novo prédio no lugar. O segundo longa de ficção de Kleber Mendonça Filho é ainda mais poderoso que o de estreia, O Som ao Redor. Também ambientado em Recife, o filme conta histórias que parecem reais, de tão palpáveis e tamanho é o naturalismo com o qual são construídos os diálogos. Como em seu filme anterior, Kleber demonstra total domínio na direção, transcrevendo um roteiro impecável de maneira poética, emocionante e realista. Atente para a edição, genial, para as músicas (diegéticas ou não), pertinentes, e para a atuação brilhante de Sônia Braga. Para mim, o filme do ano.

O SOM AO REDOR (2012)

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4 estrelas novo

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O Som ao Redor retrata o cotidiano dos moradores de um bairro de classe média em Recife. Com a chegada de uma empresa que pretende fazer a segurança local, alguns moradores se sentem mais tranquilos, enquanto outros se sentem ameaçados. Uma espécie de crônica, o filme registra acontecimentos cotidianos e analisa como pequenas coisas – como o latido constante de um cachorro – podem mudar completamente o rumo da história. Em seu primeiro longa de ficção, Kleber Mendonça Filho parece à vontade, em seu elemento. O coeso e eficaz roteiro ambienta-se em sua cidade natal, mas poderia se passar em qualquer lugar do mundo. Ainda que ele conte uma história universal, os elementos locais dão vida própria aos personagens e personalidade forte ao filme como um todo. Assim como em Aquarius, Kleber imprime uma marca, caracterizada especialmente pela naturalidade com que os diálogos são escritos e interpretados e pela experimentação imagética e sonora. Um dos melhores filmes brasileiros dos últimos (e de todos) os tempos.

WIENER-DOG (2016)

3 estrelas novo

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Wiener Dog, a cachorrinha-título, é o elo de ligação das quatro histórias que formam essa comédia dramática. Ela é adotada pelo pai de um garoto que sobreviveu ao câncer, raptada de uma clínica veterinária e doada para um casal com síndrome de Down, resgatada por um professor de roteiro frustrado e finalmente torna-se companheira de uma senhora doente e solitária. Em seu novo filme, um spin off de seu longa de estreia, Bem Vindo à Casa de Bonecas (Welcome to the Dollhouse, 1995), Todd Solondz retoma os personagens desajustados, a melancolia, o niilismo e o absurdo vistos por uma ótica cômica. Todas as quatro histórias, encabeçadas por atores do calibre de Julie Delpy, Greta Gerwig, Danny DeVito e Ellen Burstyn, são igualmente interessantes, bem contadas e dramaticamente significantes. Embora a temática sugira um aura lúdica e a roupagem – a direção de arte e a fotografia exibem cores que lembram os filmes de Wes Anderson – evoque inocência, o que acontece aqui é exatamente o oposto, como é de se esperar, tratando-se do diretor em questão. Mesmo que de maneira mais amena, o humor negro ainda é presente, e ao invés de suscitar asco, sensibiliza. Um dos melhores filmes do diretor.

A CAÇA (JAGTEN, 2012)

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3 estrelas novo

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Em A Caça, um professor do jardim da infância divorciado e morador de uma pequena cidade na Dinamarca é vítima de acusações de abusar sexualmente uma de suas alunas e filha de seu melhor amigo. O roteirista e diretor Thomas Vinterberg, conhecido por um dos mais expressivos filmes do Dogma 95, Festa de Família (Festen, 1998), entrega, aqui um poderoso e comovente drama. O roteiro é preciso e sensível ao mesmo tempo, e a direção, eficiente. O protagonista é um personagem muito bem construído e maestralmente interpretado por Mads Mikkelsen, que ganhou diversos prêmios por essa atuação, inclusive o prêmio de Cannes.

MORAL DA HISTÓRIA (LANG HISTORIE KORT, 2015)

3 estrelas novo

moral-da-historia

Através de oito capítulos, todos centrados em festas (aniversário, Natal, casamento), no decorrer de três anos, somos apresentados a Ellen e suas amigas, todas mulheres na faixa dos trinta e quarenta anos, vivendo ou tentando viver plenamente suas relações amorosas. De maneira despretensiosa, o filme passeia por momentos trágicos e alegres na vida desse interessante e diverso grupo de amigas. Sem rotular ninguém ou preocupar-se em enfatizar essa ou aquela história ou relação, traça-se um panorama amplo, mas sensível e pessoal. De maneira natural, os personagens cheios de defeitos cativam, divertem e fazem chorar, ao mesmo tempo. Uma perolinha do cinema dinamarquês atual que vai, provavelmente, ser esnobado pelas distribuidoras brasileiras. Uma pena.


NEM LÁ, NEM CÁ…

CIDADE DE DEUS: 10 ANOS DEPOIS (2013)

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3 estrelas novo

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Depois de dez anos, o elenco de Cidade de Deus (2002) se reúne para avaliar suas vidas e carreiras depois do fenômeno, nesse documentário dirigido por Cavi Borges e Luciano Vidigal. Como não poderia deixar de ser, o filme é centrado em entrevistas, muito bem conduzidas, por sinal. Os principais atores ganham mais destaque, mas há também depoimentos de atores de apoio, mirins, inclusive de um que acabou sendo retirado da edição final. Embora a abordagem seja bastante pessoal, a ótima edição dá unidade para as entrevistas, que acabam em congruências interessantes – a discriminação racial, por exemplo. Por fim, a conclusão dramática e pertinente do filme é um dos pontos altos do documentário.

AUDRIE & DAISY (2016)

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3 estrelas novo

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Audrie e Daisy são duas jovens norte-americanas que sofreram abusos sexuais e tiveram suas vidas devastadas pelo assédio através das redes sociais. Nesse documentário, conhecemos as meninas, seus familiares e amigos próximos e detalhes da investigação sobre seus casos. A urgência do assunto torna filmes como esse bastante necessários, e Audrie & Daisy, embora não discuta de maneira aprofundada os fenômenos relacionados a cyberbulling, ao menos serve para alertar a sociedade sobre o problema. Mais que discutir o abuso sexual em si, a intenção aqui é entender as razões dos criminosos e os motivos que levam as pessoas a lincharem umas às outras virtualmente. Um bom registro de algo que vem se tornando perigosamente recorrente.


LANTERNINHA

VIZINHOS 2 (NEIGHBORS 2: SORORITY RISING, 2016)

2 estrelas novo

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 O casal do primeiro filme (Vizinhos, 2014) está de mudança, mas pouco antes de concluir a venda da casa, descobrem que uma nova fraternidade está se formando ao lado. Vizinhos 2 segue os moldes de seu antecessor, quase literalmente. Dessa vez, a venda da casa está em jogo, por isso o casal tem tudo a perder. Por outro lado, a motivação do inimigo, as garotas que moram na fraternidade e querem desafiar as regras vigentes, também é mais nobre. O feminismo embutido na trama é discreto, mas significativo, embora as meninas não tenham um pingo de carisma, ao contrário da dupla Zac Efron e Dave Franco, do filme anterior. O personagem de Zac, aliás, retorna em um papel um tanto quanto constrangedor. Fora isso, o filme é um punhado de piadas recicladas e só.

PETS: A VIDA SECRETA DOS BICHOS (THE SECRET LIFE OF PETS, 2016)

2 estrelas novo

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Max é um sortudo cãozinho que vive em Manhattan com sua tutora, Katie. Sua vida muda completamente quando Katie decide adotar outro cão, o espaçoso Duke. Insatisfeito, mas conformado, Max tenta continuar a vida, mas um acidente o leva a ser capturado pela carrocinha, junto com Duke. Seus amigos, outros animais que vivem na vizinhança, partem, então, a sua procura. Há bons elementos no filme: Max é um personagem razoavelmente carismático, a aventura é medianamente divertida e os vilões são bem caracterizados, embora mostrem-se caricatos, como todos os outros personagens, no decorrer da trama. O mote vendido pelo trailer – uma espiada no que os bichos fazem quando os humanos não estão em casa – me parece infinitamente mais interessante do que o filme, de fato, é: uma aventura medíocre que não consegue chegar perto dos piores filmes da Pixar e que não traz absolutamente nada de novo.

SPECIAL CORRESPONDENTS (2016)

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2 estrelas novo

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Um jornalista de rádio e seu técnico de som são enviado para o Equador, mas perdem os passaportes antes de embarcar e acabam escondidos em Nova York, reportando notícias falsas. Há certa química entre os protagonistas, e a maneira como os fatos se desenrolam cria uma série de possibilidades interessantes para uma comédia pouco convencional. Mas a maneira como os fatos são construídos torna toda a história pouco provável, absurda, até. Em diversos momentos, é impossível acreditar no que está acontecendo e na motivação dos personagens, o que torna toda a experiência um martírio.

ÁGUAS RASAS (THE SHALLOWS, 2016)

1 estrela novo

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Uma estudante de medicina decide conhecer uma praia secreta sobre a qual falava sua mãe, recém falecida. Ela aproveita as últimas horas de sol para surfar, quando é surpreendida por um tubarão. Ferida e sozinha, consegue se abrigar em uma pedra que logo será coberta pela maré. Águas Rasas tem um ótimo trailer e uma trama atraente, mas entrega menos do que promete. Algumas escolhas de direção, montagem e trilha sonora são esdrúxulas e inexplicáveis, e acabem prejudicando a tensão do filme de maneira irrecuperável. A atuação de Blake Lively, a protagonista, é semelhante a seus outros trabalhos: insossa. E o roteiro, seguro e didático, deixa pouco para a imaginação do espectador criar. Uma decepção.

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