Filmes do mês #14: animações do Oscar, filmes islandeses, novo do Koreeda

FDM 14

Em abril não teve filme ruim, o que é bastante raro por aqui, e por isso escrevo esse post com tanta satisfação! Tem para todos os gostos: filme do Oscar, nórdico, japonês, animação. Todos eles têm em comum o fato de serem densos e dramáticos, baseados em figuras reais ou não, e por isso, deixe-os de lado se o momento só permitir coisas mais leves e passageiras. Como sempre, os filmes disponíveis no Netflix estão devidamente indicados, a avaliação vai de péssimo (bola preta) e excelente (5 estrelas) e para ver o trailer, basta clicar no título. Boa leitura e bons filmes!

ANOMALISA (2015)

4 estrelas novo

anomalisa

Charlie Kauffman, que dirigiu e roteirizou o excelente Synecdoche, New York, (Sinédoque, Nova York 2008) e escreveu o roteiro dos igualmente notáveis Eternal Sunshine of the Spotless Mind (Brilho Eterno de uma Mente sem Lembranças, 2004), Adaptation (Adaptação, 2002) e Being John Malkovich (Quero Ser John Malkovich, 1999), é responsável pelo roteiro e direção – que dividiu com Duke Johnson, experiente em animações – de Anomalisa, esse filme que impressiona pela ousadia, técnica e emoções que provoca. Com exceção do protagonista, Michael Stone, e da Anomalisa do título, todos os personagens possuem a mesma base de rosto, o que representa, com eficiência, a falta de personalidade dos mesmos, tal como enxerga Michael. Ao mesmo tempo, ao não vermos rostos conhecidos, como provavelmente aconteceria em um filme live action, conseguimos atribuir a Anomalisa as peculiaridades que a fazem especial e única, aos olhos de Michael. A riqueza de detalhes e o realismo dos cenários e figurinos e a ótima e intimista fotografia revelam uma preocupação estética que influi positivamente na construção de clima e na profundidade da história. Por fim, David Thewlis e Jennifer Jason Leigh fazem um excelente trabalho de dublagem.

ABRAZO DE LA SERPIENTE (O ABRAÇO DA SERPENTE, 2015)

4 estrelas novo

el abrazo de la serpiente

El Abrazo de la Serpiente é um premiado filme colombiano, e o primeiro do país a concorrer ao Oscar. A história, importante e pouco usual no cinema, aborda a relação entre indígenas de tribos diferentes e dois cientistas brancos que buscam uma planta sagrada, na Floresta Amazônica. As diferenças culturais, as consequências da ocupação genocida e a compaixão e o rancor ficam evidentes em todos os momentos das duas jornadas, separadas por 40 anos. O preto e o branco contrastados do filme evidenciam os dois pólos analisados – o índio e o branco, o tribal e o civilizado, o inocente e o algoz -, ainda que o filme deixe claro as sutilezas e particularidades dos personagens, independentemente do pólo ao redor do qual orbitem. Visualmente, o filme é deslumbrante: fotografia, direção de arte e edição primorosos que o fazem um deleite aos olhos, ao mesmo tempo que enfatizam a força da história.

FÚSI (DESAJUSTADOS, 2015)

4 estrelas novo

fúsi

Desde o panorama nórdico da Mostra do ano passado, abri os olhos para os filmes de lá, já que, até então, meu repertório se resumia a Bergman. E tenho me impressionado com esse cinema, especialmente o islandês, que, por algum motivo, me lembra, em vários aspectos, o cinema japonês. Fúsi não foge à regra. De estrutura narrativa simples, ele impressiona pela abordagem profunda, crítica e sensível de seus personagens, especialmente do protagonista-título, interpretado pelo incrível Gunnar Jónsson. Impossível não ter uma empatia gigantesca por ele que, a partir do segundo ato impressiona pelas atitudes, o que o distancia do clichê que poderia se tornar. As situações genuínas em que ele se encontra, no decorrer do filme, emocionam a ponto de fazer o mais insensível esboçar ao menos uma lágrima.

GABO: LA CREACIÓN DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ (GABO: A CRIAÇÃO DE GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ, 2015)

3 estrelas novo

gabo

Para não dizer que não vi nada do festival “É Tudo Verdade”, corri no CCSP e assisti a esse documentário sobre Gabriel García Márquez, mesmo sem nunca ter lido nada dele. Sim, nunca li Gabo, mas não precisa me dar sermão; o filme já fez isso por mim. De estrutura convencional, cinematograficamente o filme não surpreende, mas como documento, é valioso. Eu, além de nunca ter lido nada do escritor, sabia pouco sobre sua história, cuja importância inegável para a literatura, cinema e jornalismo é bem conhecida por todos, mas que envolve tantos outros aspectos, como o político, por exemplo. Não sei como será a distribuição desse filme no Brasil, mas caso ela não aconteça, vale buscar através de meios escusos, se você é fã de Gabo ou se, como eu, quer um incentivo para finalmente ler a sua obra.

HRÚTAR (A OVELHA NEGRA, 2015)

5 estrelas novo

hrútar

Outro islandês que me fez chorar como um bebê, Hrútar foi revisão para mim e inédito para o Marcelo, que gostou tanto do filme quanto eu. Tive o privilégio de assistir ao filme, vencedor do prêmio de diretor no Un Certain Regard, em Cannes, na Mostra do ano passado, na sessão que recebeu o talentoso e espirituoso diretor e roteirista Grímur Hákonarson para debate. O ritmo mais lento do filme condiz com a vida pacata dos personagens, dois irmãos que não se falam há quarenta anos e que precisam voltar a se relacionar quando uma doença fatal atinge seus preciosos rebanhos. A falta de diálogos enaltece as ações normalmente contidas, especialmente do protagonista, interpretado pelo brilhante Sigurður Sigurjónsson, e a ambientação isolada e fria representa bem a situação e os sentimentos entre os irmãos. Um filme impressionante. Leia mais sobre ele (e minhas impressões) aqui.

O MENINO E O MUNDO (2013)

4 estrelas novo

o menino e o mundo

A animação brasileira que concorreu ao Oscar esse ano é de 2013, foi lançada em circuito comercial no Brasil em 2014, mas a notoriedade só veio esse ano, depois de receber a indicação ao prêmio de Animação, o que é uma injustiça e tanto – a notoriedade tardia, não a indicação. O filme, roteirizado e dirigido por Alê Abreu, conta a história de um menino pobre abandonado pelo pai, que vai para a cidade grande atrás de trabalho, num movimento migratório tão costumeiro em nosso país. Sem diálogos e baseado em animação 2D, que mistura técnicas belíssimas, mas principalmente se utiliza do traço simples como se fosse de lápis de cor, o filme surpreende, ainda mais no contexto tecnológico e digital do cinema contemporâneo. Aliado a isso, a crítica social, tão contundente e atual, torna-o um filme complexo e raro.

STEVE JOBS (2015)

4 estrelas novo

steve jobs

O roteiro de Aaron Sorkin, criador lendário das excelentes séries The Newsroom, Studio 60 on the Sunset Strip e West Wing e roteirista dos ótimos filmes Moneyball (O Homem que Mudou o Jogo, 2011) e The Social Network (A Rede Social, 2010) privilegia um período mais restrito da vida de Steve Jobs, ao contrário do que se fez no filme Jobs, de 2013. Dessa maneira, temos um panorama mais completo do personagem, que deixa de ser apenas CEO da Apple para ser ex-marido, pai e amigo, o que enriquece muito a experiência do espectador. Sob a batuta de Danny Boyle (127 Horas, 2010; Slumdog Millionaire, 2008; Trainspotting, 1996), uma escolha a princípio inusitada que acaba sendo bem sucedida, o filme transborda personalidade. Danny emprega uma estética oitentista ao período do filme que corresponde a essa década, com cores saturadas e contrastadas e imagem granulosa, e outra mais limpa e clean para os anos seguintes, envolvendo o espectador e destacando os diferentes períodos da carreira e vida de Steve Jobs. Os diálogos, a movimentação de câmera e a edição do filme dão ritmo frenético, típicos da obra de Aaron Sorkin e de Danny Boyle, e abordam o personagem de maneira atípica e realista, ao contrário do filme de 2013, principalmente porque usam a relação entre ele e sua filha como coluna vertebral para a história. As atuações magistrais de Michael Fassbender e Kate Winslet são outro trunfo dessa produção surpreendente.

THE DOUBLE (O DUPLO, 2013)

4 estrelas novo

the double

Baseado no romance homônimo de Dostoyevsky, The Double segue a vida medíocre e monótona de Simon, que enfrenta problemas de auto-estima e solidão, até que surge um colega de trabalho idêntico a ele fisicamente, mas de personalidade praticamente contrária. Buscando uma abordagem mais fantástica que psicanalítica, o filme é bem sucedido ao criar uma aura desconfortável, num universo limitado e limitador, onde nunca se vê a luz do sol e praticamente tudo se passa em ambientes fechados, escuros, hostis e intimidadores. O amarelado da fotografia imprime sensação de insalubridade, asco, febre. Por outro lado, a direção de arte produz um mundo fantástico, onde os objetos são reimaginados de maneira criativa, pouco realista e inusitada. Os únicos respiros do filme acontecem quando Mia Wasikowska, que interpreta o personagem por quem Simon é apaixonado, está em cena. Ao menos até o segundo ato. Simon e seu duplo, James, são interpretados pelo sempre eficaz Jesse Eisenberg.

THE SPECTACULAR NOW (O MARAVILHOSO AGORA, 2013)

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4 estrelas novo

the spectacular now

The Spectacular Now é dessas boas descobertas feitas da maneira mais casual possível. Não nego que o chamariz, para mim, foi Miles Teller, que se torna a cada filme, mais queridinho pessoal. Mas o filme é bom mesmo, pode apostar. Ao contar a história de um casal de adolescentes um pouco desajustados, cada um por seus motivos, poderia abordá-la de maneira açucarada ou condescendente, e ao invés disso, torna-os complexos, rodeados de relações que justificam suas ações de maneira pouco óbvia. A garota do filme é interpretada com muita maturidade por Shailene Woodley, cuja carreira ascende merecidamente, e há as participações especialíssimas de Jennifer Jason Leigh, Kayle Chandler, Brie Larson e Mary Elisabeth Winstead. The Spectacular Now é um filme despretensioso que surpreende por abordar temas como juventude, alcoolismo e virgindade com delicadeza, ao mesmo tempo que conta uma história de amor inusitada e sincera.

UMIMACHI DIARY (NOSSA IRMÃ MAIS NOVA, 2015)

4 estrelas novo

umimachi diary

Novamente abordando as relações familiares, Koreeda (Wandafuru Raifu, 1998; Dare mo Shiranai, 2004; Soshite Chichi ni Naru, 2013) conta, dessa vez, a história de três irmãs que, ao comparecerem ao velório do pai que as abandonou no passado, conhecem a irmã mais nova, filha do casamento que gerou tanta dor na família que foi deixada para trás. De maneira bem humorada, delicada e profunda, Koreeda, através das novas relações e de situações banais, conta as dores do passado, mostra as dificuldades individuais e contempla as transformações, com todas as particularidades que cabem a cada uma delas. E como ninguém está isolado, nem mesmo um grupo, a análise se estende para outros membros da família, como a mãe abandonada que mais tarde veio a, por sua vez, também abandonar as filhas, os amigos das irmãs e o amante de uma delas. Ainda que esse não seja um dos meus filmes favoritos do diretor, identifico-me fortemente, seja porque vejo traços de mim mesma e de tantas mulheres da minha família em cada um dos personagens, seja por conta dos costumes japoneses, sempre demonstrados com tanta naturalidade em seus filmes, seja porque mostra quatro mulheres, cada uma a seu modo, enfrentando dificuldades próprias e inerentes a sua condição de mulher.

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