Bar da Dona Onça: comida de boteco artesanal e primorosa

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Fazia tempo que eu devia uma visita ao Bar da Dona Onça. As filas homéricas aos fins de semana me repeliam, mas eis que, num sábado agradável, de tempo ameno, vimo-nos, eu e o Marcelo, no centro da cidade, início de tarde, cheios de fome e decididos a enfrentar a espera do concorrido bar do Edifício Copan, um dos cartões postais da cidade. O dia já tinha rendido visita à boa exposição de Kandinsky no CCBB e passeio pela Galeria do Rock, que não visitávamos havia mais de dez anos. A caminhada até o Copan só fez a fome aumentar, e quando nos deparamos com a espera de quarenta minutos decidimos que era o tempo ideal para degustar uma capirinha enquanto relaxávamos naquele pedaço da cidade do qual gostamos tanto e por onde pouco passamos.

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O serviço demorou um pouco e sentamos antes do esperado, então começamos a apreciar as bebidas já na mesa. Pedi a caipirinha sucesso de audiência da casa: Onça Pintada (26), com cachaça, tangerina e maracujá. O Marcelo foi de Brasileirinha (26), com cachaça, limão taiti, da pérsia e cravo. Ambas estavam equilibradas, com álcool e açúcar na medida, e saborosíssimas. Gostosas como as caipirinhas do Jiquitaia e do Mocotó.

A visita aconteceu antes da abertura da nova casa do Jefferson Rueda, que saiu do Attimo para abrir A Casa do Porco Bar, também na região central de São Paulo. Janaína Rueda, a Dona Onça, é esposa de Jeffim, e recebeu em sua casa, nesse período, alguns pratos que fizeram a fama do marido, alguns, inclusive, que eram servidos no Attimo por preços estratosféricos. Os valores dos pratos no Bar da Dona Onça não são modestos, que fique bem claro. Mas tudo o que provei no dia valeu o preço que paguei (com exceção das bebidas, que têm preços exorbitantes).

Para começar, pedi as famosas coxinhas de galinha caipira (porção com 4), que fazem jus à fama que carregam. De massa leve, exterior crocante e sequinho, recheio saboroso e úmido e acompanhadas de queijo cremoso, elas valem os 19 reais. Depois, pedimos o carne de onça, canapés de steak tartare servido sobre fatias fininhas de pão (porção com 6). Arrisco dizer que é um dos melhores steak tartare que comi na vida: equilibrado, com tempero que perfuma levemente a carne crua, sem mascarar o seu sabor. O pão, gostoso e levemente crocante, recebia bem a cobertura, que ainda tinha um toque mínimo de molho cremoso por cima, acompanhado de uma fatia pequenina de rabanete, complementos sutis mas importantíssimos para o resultado final do prato. Custa 34 reais e vale cada centavo.

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Na sequência, pedimos duas porções que deveriam representar o espírito da casa e da influência da cozinha e do estilo de Jeffim Rueda: linguiça de porco artesanal, feita na casa (39) e pancetta de porco fresca frita (39). Ambas acompanhavam molho de pimenta suave e saboroso, vinagrete picado pequenininho, farinha de mandioca crua, limão cravo e a linguiça ainda vinha com pão francês fresquinho. As porções são fartas e nos alimentaram além da necessidade.

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A linguiça estava cozida no ponto, úmida, e tinha sabor suave e o teor de gordura ideal. Nós, acostumados com linguiças feitas com carne de má qualidade e muito condimentada para que se disfarce justamente o sabor ruim da matéria-prima principal, podemos estranhar que essa seja mais suave. Mas a intenção é justamente enaltecer a carne de porco escolhida a dedo, e a produção primorosa, que usa gordura com parcimônia, com a intenção, apenas, de tornar a linguiça suculenta e saborosa, e nunca de torná-la mais barata.

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A pancetta (barriga de porco) frita, mais conhecida por aqui como torresmo, estava irretocável. Como toda boa barriga de porco, tinha uma boa proporção entre carne e gordura, o que conferiu sabor e textura corretos. A fritura foi executada à perfeição, o que conferiu crocância na medida aos pedaços de porco. O toque do limão cravo quebrava a gordura e complementava o sabor com uma acidez suave. Delicioso, calórico, indulgente.

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Erramos na quantidade de comida, confesso. Poderíamos ter pedido uma porção a menos e sairíamos satisfeitos de lá. Mas como sobremesa é sagrada, para mim, especialmente em visitas que reporto depois, pedi a espuma de coco com baba de moça (18), também um prato de Jeffim, mais leve para não concorrer com toda aquela linguiça e torresmo. Acompanhada de uma leve telha crocante de coco, a sobremesa é equilibrada em textura, doce na medida, e o encerramento perfeito para uma refeição tão extravagante.

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Em geral, fiquei bastante satisfeita. A comida é feita com muito zelo e capricho, sem frescura. Os valores são condizentes porque a qualidade é excelente. Mas definitivamente, não são preços de boteco. Aliás, o ambiente mais parece de restaurante que de bar, e é isso que o Bar da Dona Onça é: um bom restaurante, com cardápio variado, que abrange clássicos da culinária brasileira com toques internacionais e bebidas bem feitas, mas essas sim, muito caras. No Mocotó bebi caipirinhas tão boas quanto e paguei muito menos. E não vale dizer que é a qualidade da cachaça, porque se tem algo que o Mocotó faz bem é escolher suas cachaças. A água e o refrigerante que pedimos também foram caríssimos, o que impede que eu frequente o lugar como bar – quando os ânimos estão aflorados e pedem muito mais que um drink. O serviço é eficiente, mas pouco atencioso, e a cobrança de serviço é de 12% sobre o valor consumido, contra os costumeiros 10%, e o ambiente é agitado, mas pouco acolhedor. Ou seja, ao contrário do que indica o cardápio de boteco, o Bar da Dona Onça, fisicamente, está mais para um misto de restaurante com bar sofisticado. Defeitos a parte, esse é um lugar que definitivamente merece várias visitas porque, afinal de contas, o que importa aqui é a comida. E isso, ficou claro, eles fazem muito bem.

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BAR DA DONA ONÇA – AV. IPIRANGA, 200, CENTRO, SÃO PAULO

TEL: (11) 3257-2016

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