Diário da Mostra: Dia 14 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 14

E o último dia chegou. No total, foram 14 dias, 37 filmes e 38 sessões (uma revisão). Passei por 5 das 6 salas do Itaú Frei Caneca que estavam disponibilizadas para a Mostra, pelo Belas Artes, MIS e Cinesesc. Dos 37 filmes, 30 são de ficção e 7, documentários; 3 do Brasil, 7 de outros países latino-americanos, 9 da região nórdica, 12 de outros países europeus (considerando-se a Turquia nessa categoria) e 6 da Ásia.  A média de qualidade foi alta: nenhum filme péssimo, 3 filmes ruins, 9 filmes regulares, 10 filmes bons, 9 filmes muito bons e 6 filmes excelentes. Não tive nenhum grande problemas com as projeções, nenhuma troca de filme, nenhuma decepção tão grande que me fizesse sair da sala antes de o filme terminar. A única projeção que ficou sem legendas, foi a do esperado filme do Manoel de Oliveira, o Visita ou Memória e Confissões, e por isso me dei o direito de reassistir na primeira sessão do último dia da repescagem.

Com legendas no próprio filme, dessa vez consegui entender e admirar todo o texto, o que fez minha admiração por Manoel de Oliveira aumentar. A humildade a que me referi quando escrevi sobre o filme, é comprovada nesse documentário póstumo, bem como são feitas revelações importantes quanto ao seu relacionamento com a esposa Maria Isabel e observações interessantes sobre a história de sua família e a sua visão particular do cinema. Um filme pouco cinematográfico mas importantíssimo como documento.

FILME #36: NÓS, ELES E EU (NEY: NOSOTROS, ELLOS Y YO, 2015)

2 estrelas

 

nós, eles e eu

O segundo documentário do dia, Nós, Eles e Eu, se passa em Israel e na Palestina, em 2000. O diretor, argentino e judeu, visitou a região por cerca de três meses, e durante a viagem, captou imagens e realizou entrevistas tanto em território judaico quanto muçulmano. Apesar dos 15 anos que nos separaram da época em que as imagens foram feitas e hoje, quando as imagens foram organizadas em forma de filme, o impasse entre os dois povos quanto a ocupação do território, e consequências como violência, medo e injustiças sociais que configuram essa guerra inconstante e irresoluta ainda é, tristemente, atual. E apesar da precariedade com que o filme foi realizado, visto que o diretor não se utilizou de muitos recursos e nem tinha uma equipe durante a viagem, a maneira como ele utilizou o material é louvável, de modo que o resultado final é um bom filme, principalmente porque é feito de forma totalmente imparcial apesar da origem étnica e religiosa do diretor.

FILME #37: PIXADORES (TUULENSIEPPAAJAT, 2014)

4 estrelas

pixadores

Pixadores, o terceiro documentário do dia, é uma coprodução Finlândia, Dinamarca e Suécia, sobre um grupo de pixadores paulistano. O filme foca em quatro membros do grupo, dentre eles o líder, que se diz pixador a mais de quinze anos. Enquanto o líder justifica os atos de forma política, os outros parecem usar a pixação apenas como válvula de escape. Mais que uma forma de protesto, subir em prédios altos na calada da noite, sob o risco de serem pegos pela polícia, é uma forma de adquirir altas doses de adrenalina, o que, de certa maneira, alivia as agruras do duro cotidiano, com poucos recursos e histórias de vida normalmente tristes, permeadas pelo abandono e o descaso.

Embora seja recomendado despir-se de preconceitos antes de o filme começar, a fim de evitar se revoltar e profanar, antes de sair da sala, como um senhor da plateia fez na minha sessão, o filme é construído de maneira tão naturalmente convincente, porque as histórias são genuinamente bem contadas, que somos convencidos a torcer por Djan, William, Ricardo e Biscoito. E ainda que haja muita dor em suas histórias, não é só isso que inspira compreensão. Quando eles são convidados a participar de uma bienal em Berlin, outros preconceitos são quebrados, porque outros paradigmas entram em jogo, e, ainda que muito do que acontece no filme seja conduzido, há verdades inquestionáveis que provocam questionamentos importantes. Porque, assim como qualquer filme em preto e branco, que, na realidade, não são preto nem branco, tudo na vida tem infinitos tons de cinza.

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