Diário da Mostra: Dia 13 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 13

Penúltimo dia de repescagem. Penúltimo dia técnico da 39a Mostra. Sou dessas que não gosta de ir ao cinema em grupo, no máximo vou com o Marcelo, porque gosto de me sentir à vontade, o mais próximo que estaria se estivesse na sala de casa, e não na sala de cinema. Prefiro guardar minhas impressões para mim, por pelos menos umas horas, meia hora, que seja. Depois que os créditos começam a subir e as luzes se acendem, ainda estou dentro do filme, e não quero ter que falar com ninguém a respeito. Raras exceções, encontros na Mostra mais me dão aflição que alegria. Encontrei alguns amigos que, acho, compartilham das minhas manias, e por isso nossos encontros foram agradáveis, importantes, até. Mas em geral, gosto de ficar na minha, com meus próprios pensamentos, com meus rituais de ir ao banheiro, encher a garrafa d’água, comer um lanchinho, sentar no mesmo lugar. Não é nada contra ninguém. É só que eu não consigo destratar ninguém, e acabo gastando muita energia tentando ser simpática e sociável em um momento que eu queria só para mim. Tinha corrido tudo bem, até então, e antes da minha última sessão, a penúltima do dia, puxaram conversa comigo. Estava tudo bem, até eu notar um tom de segundas intenções, antes de o filme começar, e ficar extremamente incomodada até o momento em que o filme conseguiu me fisgar (o que demorou para acontecer). Eu, que não sei dizer “não”, ingenuamente dei meu telefone para a pessoa, esperançosa de que sua intenção fosse apenas ser minha amiga. Hoje, me deparo com mensagens incômodas e um stalk virtual que eu nunca imaginei que poderia acontecer comigo. Desculpem o desabafo, àqueles que não estão acostumados com o tom pessoal que esse blog tem. Espero não afugentá-los, porque as críticas cinematográficas vão continuar como sempre foram. Mas acho importante que as pessoas entendam o espaço do outro. A Mostra é um acontecimento especial, e fazer amizades é algo sempre bem vindo em minha vida. Não gosto de julgar ninguém, e o Cinema me fez ser assim: enxergo todos como possíveis protagonistas de seus próprios filmes, cheios de nuances e histórias pregressas, complexos e merecedores de respeito e compreensão. Porque o Cinema contribuiu para eu ser quem sou, como profissional e ser humano, achei que o desabafo era cabível.

FILME #33: O BOTÃO DE PÉROLA (EL BOTÓN DE NÁCAR, 2015) 

5 estrelas

o botão de pérola

O Botão de Pérola é um documentário inusitado e intrigante. Ao traçar um paralelo entre dois acontecimentos históricos de contextos muito diferentes, mas de naturezas igualmente aterrorizantes, o filme cria um clima propício para que o espectador seja inundado por emoções intensas e por vezes conflitantes.

Como elemento de ligação entre os dois acontecimentos, está a água, utilizada poeticamente como pretexto para introduzir o espectador, de forma tranquila e sinestésica, aos horrores cometidos contra os nativos, há muitos séculos, e os prisioneiros da ditadura de Pinochet, há poucas décadas. Embora a narração envolvente, bem como a ilustração feita através de imagens bem pensadas, anunciem um filme quase oposto ao que se apresenta, isso não é feito de maneira contraditória ou enganosa, mas torna a experiência interessante e inesperada.

As imagens bem pensadas, as poucas e precisas entrevistas, as reconstituições e o texto magnífico resultam em uma obra emocionante, que choca pelo horror dos fatos e pela beleza com a qual são relatados.

FILME #34: EM SEUS BRAÇOS (I DINE HÆNDER, 2015)

3 estrelas

em seus braços

Em Seus Braços nos apresenta a um homem, cuja doença fatal o limita mais a cada dia, e à sua enfermeira, que se voluntaria para acompanhá-lo em uma viagem à Suíça, onde ele deseja cometer suicídio assistido. Embora o filme não inove em nenhum aspecto, retratando  a relação dos dois personagens com a sensibilidade necessária quando se trata de assuntos delicados como esse, o resultado é correto e satisfatório. Niels, especialmente, é um personagem que se desenvolve bem, porque apesar do contexto trágico e do espaço aparentemente pequeno para transformações significativas, Niels mostra-se menos radical do que aparenta ser a princípio, e uma pequena – e na medida – dose de bom humor o faz mais humano.

FILME #35: UM DIA PERFEITO (A PERFECT DAY, 2015)

3 estrelas

a perfect day

Para minha surpresa, Um Dia Perfeito, apesar de ser uma produção espanhola, se passa “em algum lugar do Bálcãs”, e os personagens centrais são norte-americanos, ou comunicam-se em inglês. Os protagonistas, aliás, são interpretados por Benicio del Toro e Tim Robbins, nomes bem conhecidos do cinemão, e ainda que eu admire seu trabalho, confesso que depois de tantos filmes em tantas línguas pouco comuns com tantas caras desconhecidas, fiquei um pouco chocada e apreensiva. E não é que o filme não seja bom.

Há boas intenções e uma história bem definida. No entanto, poucos personagens além dos citados oferecem algo à trama, seja por falta de complexidade, seja por atuações mornas ou participações simplesmente esquecíveis. E, apesar da tentativa de equilibrar comédia e drama, os momentos cômicos são claramente superiores. Algumas subtramas sobram, enquanto outras poderiam ser melhor desenvolvidas, mas há mérito ao tratar do assunto de forma leve e divertida.

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