Diário da Mostra: Dia 10 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 10

Depois de me decepcionar com a programação da repescagem, decidi que ia engolir o cansaço a seco e assistir ao maior número de filmes possível, ainda que eles não me empolguem tanto. Hoje o Cinesesc estava cheio, vibrante, empolgante. Cheguei cedo para assegurar ingressos para as três primeiras sessões, que foi mais do que meu corpo aguentou, visto que, além das pescadas, minha coluna começou a reclamar já no segundo filme. A poltrona pouco confortável não ajuda, mas nada como um filmaço no final do dia para levantar os ânimos e aliviar as dores, ainda que as lágrimas nos olhos sugiram o contrário.

FILME #25: PARAÍSO (MA DAR BEHESHT, 2015)

2 estrelas

paraíso

A proposta do filme é interessante, mas ele dá inúmeras voltas, passa diversas vezes pelos mesmos lugares e torna a jornada do espectador quase tão angustiante quando a de sua protagonista. Ao meu lado, meia hora depois de iniciada a sessão, sentou-se um senhor, com alguma condição de saúde que o fazia emitir altos e constantes sons pelas vias aéreas, o que desviava a minha atenção, e a de algumas pessoas ao meu redor, em muitos momentos do filme. Isso, associado à minha concentração defasada pelo cansaço, fez com que eu não conseguisse recepcionar o filme da melhor forma possível. Talvez a avaliação seja injusta, visto que os mínimos distúrbios podem influenciá-la de maneira definitiva, mas não foi, e nem será a única vez que isso acontece, e ainda não aprendi, como a maioria dos seres humanos, a ser totalmente imparcial.

FILME #26: VERÃO SECO (SUSUZ YAZ, 1964)

2 estrelas

verão seco

Precedido pelo excelente curta egípcio de 1970, o Camponês Eloquente (El- Fallâh el-fasîh), Verão Seco conta uma história de amor e traição, bem aos moldes da tragédia clássica, envolvendo dois irmãos e uma mulher. Apesar de restaurado, o filme apresenta algumas precariedades, como a dublagem e o som. Ainda que o filme tenha mais de cinquenta anos, entendo que as referências europeias e norte-americanas que temos dessa época não possam servir de parâmetro para a qualidade técnica das obras de países cuja indústria cinematográfica era menos desenvolvida, no caso, a Turquia. Ainda assim, a história não, em nenhum momento, é prejudicada por isso. Há alguns problemas na direção de atores, mas de maneira geral o roteiro funciona bem e prende o espectador do início ao fim.

FILME #27: A TERRA E A SOMBRA (LA TIERRA Y LA SOMBRA, 2015)

5 estrelas

a terra e a sombra

A expectativa em relação a A Terra e a Sombra era altíssima. O filme recebeu quatro prêmios em Cannes e muitas críticas entusiasmadas desde que foi exibido na Mostra pela primeira vez. A chance de assisti-lo na repescagem me fez ignorar o cansaço de um dia que não foi lá essas coisas, e que ainda tinha chão pela frente, depois que eu saísse da sala de cinema – porque a vida não pode parar nessas semanas, infelizmente.

Apesar da dura realidade dos personagens, do trabalho massacrante e das condições insalubres em que vivem, há muita beleza em cada um dos planos do filme. A forma como se filma, ainda que resulte em uma obra esteticamente deslumbrante, mostra o cenário tal como ele é: cinza, empoeirado e opressivo. A doença resultante de tais condições é apenas um dos prismas explorados. A partir desse mote, desenvolvem-se discussões quanto ao tipo de trabalho a que eles estão sujeitos e como decisões familiares são complexas e podem levar, à ruína, toda uma família. No entanto, ainda que haja muita dor, física e emocional, é nesse habitat inóspito que brotam os sentimentos mais puros e as belezas mais simples, como em certo momento, em que a calmaria após o caos, representada através das cinzas pós fogo, chega em forma de fênix, renascendo, forte e esperançosa.

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