Diário da Mostra: Dia 9 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 9

Último dia de Mostra. Nenhum almoço. Um barriga roncando em um filme silencioso. Três filmes. Um brasileiro, um polaco, um japonês. Um bom encerramento. Muitas lágrimas. Espanto. Decepção. Saudade. E que venha a repescagem.

FILME #22: BOI NEON (2015)

4 estrelas

boi neon

Dos dois filmes brasileiros que escolhi assistir na Mostra – não porque não prestigio produto nacional, mas porque havia muita coisa para assistir, e os filmes que têm estreia certa acabam ficando em segundo plano – Boi Neon foi o único que eu coloquei na lista porque fazia questão de assistir na Mostra. Ou seja, logo. O outro, Mate-me por favor, foi uma decepção, mas tinha entrado na programação apenas porque encaixava com os outros filmes do dia. Vocês sabem como é.

Felizmente, acertei na escolha, e o último dia de Mostra começou muito bem. Boi Neon é o segundo longa de ficção do jovem diretor Gabriel Mascaro, e foi o grande vencedor do Festival do Rio desse ano. E apesar da pouca experiência, o diretor e roteirista consegue imprimir no filme maturidade cinematográfica, abrindo mão de truques baratos ou tentativas de peripécias estilosas, atendo-se a uma boa história e bons personagens. Há muita tranquilidade nos longos, descritivos e climáticos planos que permeiam o filme, bem como na busca pelas atuações perfeitas. É evidente que houve extremo cuidado com preparação de elenco e ensaios, que acabaram resultando em diálogos naturalistas e convincentes. Alguns atores, que fazem participações menores, parecem deslocados, prejudicando a verossimilhança de algumas cenas. Mas em geral, a busca pela autenticidade é muito bem sucedida.

Ao escolher contar uma história inusitada, porém permeada de possibilidades reais e verdades universais, Gabriel nos apresenta a uma realidade distante, mas próxima ao mesmo tempo. Enquanto se faz um contraste entre o trabalho braçal, duro e literalmente sujo que o protagonista realiza no cotidiano e aquele que ele almeja realizar, teoricamente glamouroso e, apesar de técnico, autoral e independente, totalmente alheio à sua realidade, estabelece-se uma comparação assustadora entre a vida do protagonista em questão e os bois que ele maneja todos os dias.

FILME #23: BODY (CIALO, 2015)

2 estrelas

body

Embora a premissa de Body seja interessante, e as intenções sejam claramente nobres, o filme não consegue desenvolver bem nenhum de seus três personagens principais. Ao lidarem com o luto, cada um a sua maneira, eles tornam-se caricatos e por vezes até odiáveis, ao invés de sensibilizarem o espectador. O protagonista, com muito mais tempo de tela que os outros dois personagens, não inspira nenhuma empatia, na maior parte do tempo, e o filme torna-se repetitivo e mostra-se pouco inspirado. Quando o elemento de virada é apresentado, nada é feito para que ele seja crível, ou aceitável, ao menos. Na cena final, no entanto, o filme recupera boa parte do tempo perdido, com sensibilidade e beleza, que emocionam e mostram que muito do que foi contado até ali poderia ser descartado sem nenhum prejuízo.

FILME #24: SABOR DA VIDA (AN, 2015)

5 estrelas

sabor da vida

O filme havia me sido bem recomendado bem antes de a Mostra começar. E quando ela começou, as críticas positivas me inundaram, elevando minhas expectativas para altos patamares. Na minha programação, ele se encaixou no último dia, a última sessão, e eu não poderia ter encerrado a Mostra de melhor maneira.

Sabor da Vida é, aos olhos do público em geral, um filme sensível, emocionante, com boas doses de bom humor e de uma beleza que só os filmes japoneses conseguem imprimir. A direção de atores é impecável e a atuação de Masatoshi Nagase, que interpreta o protagonista, é uma das mais memoráveis dos últimos tempos. A graça nipônica, ao mesmo tempo que emociona, ainda causa estranheza mesmo em tempos em que a cultura está em alta, o que é totalmente aceitável tamanha a distância que separa o mundo ocidental do Oriente, e mesmo assim o público ri, com entusiasmo e curiosidade. Para mim, o filme tem os mesmo efeitos, mas vai além.

Eu, que me sinto um peixe fora d’água mesmo tendo nascido aqui, e sido criada por pais brasileiros, fui abalada por esse filme de forma muito mais profunda. A orfandade, retratada por personagens de três gerações diferentes, que se encontram de maneira inusitada e causam, uns nos outros, transformações tão profundas, reflete a minha própria orfandade – de mãe, avós maternos, avô paterno e pátria – com a força de uma katana e a delicadeza de uma flor de sakura. Enquanto entendo perfeitamente o cuidado que se tem com a comida e todas as coisas que me rodeiam, invejo a forma como Tokue enfrenta as adversidades, relaciono-me com a amargura de Sentaro e entendo o desamparo de Wakana. Os trejeitos característicos da obatian otimista e perseverante me tocaram fundo, remetendo aos mais diversos e esparsos momentos com minha própria obatian, e minha mãe, que não viveu o suficiente para ser avó. E se todos, ou quase todos podem entender o que é se sentir órfão, tenho para mim que esse filme foi feito sob encomenda para meu deleite – e as infinitas lágrimas que me tomaram durante o filme e me acometem nesse exato momento.

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