Diário da Mostra: Dia 8 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 8

No meu oitavo dia na Mostra, consegui me programar para ver apenas dois filmes. Documentários. O primeiro é um filme póstumo, autobiográfico, de um dos diretores mais importantes da história do cinema, falecido recentemente. O segundo, um filme que escolhi no escuro, co-produção dinamarquesa e sueca, filmado nos EUA.

Antes desses dois, havia assistido a apenas um filme no Cinesesc esse ano. E fazia tempo que não frequentava a sala, tentada pelas facilidades do Itaú do Frei Caneca, como a possibilidade de pagar meia-entrada. Mas há algo de mágico nesse lugar, que me atrai tanto quanto atrai seu público fiel. O conforto aliado à localização, a programação e aquela tela imensa que nos submerge em experiências cinematográficas inesquecíveis – lembro-me de lá ter conhecido obras importantíssimas, especialmente na época da faculdade – fazem do Cinesesc possivelmente a melhor sala de cinema de São Paulo. E amanhã começa a semana de repescagem lá. Que o deus das filas esteja ao meu lado.

FILME #20: VISITA OU MÉMORIAS E CONFISSÕES (1982)

3 estrelas

visita ou memórias e confissões

Que Manoel de Oliveira é dos diretores mais respeitados das últimas décadas, não há dúvidas. A forma como expressa suas opiniões em entrevistas é deliciosamente humilde, e não condiz com a magnitude de sua obra. Já tive a oportunidade de participar de um debate, há cerca de dez anos, e apesar da formalidade e idolatria com que o público o tratava, Manoel respondia com tamanha humildade, que nos fazia duvidar, por segundos, que fosse, se ele tinha consciência da importância de seu trabalho no cinema. É claro que tinha, o que não o impedia de se comportar com tanta modéstia, em meio a tantos admiradores.

Não sou conhecedora profunda de sua filmografia, mas orgulho-me de ter assistido a todos os filmes que pude na tela grande. Nesse ano, ano de sua morte, não poderia ser diferente. Visita ou Memórias e Confissões é um filme autobiográfico de 1982, que foi lançado postumamente. O filme intercala registros da casa onde Manoel viveu boa parte da vida – com dois narradores analisando-a livremente, como se a estivessem visitando – com Manoel nos apresentando, através de fotos, sua família, e contando momentos cruciais de sua vida até então, da infância ao presente, quando trabalha em um novo roteiro de filme.

Não há grandes pretensões cinematográficas, o que ele deixa claro ainda no início, quando diz que não tem certeza se deveria ter feito o filme: “mas agora já fiz”, diz ele em voz off. Trata-se de uma colagem de, conforme o título, memórias e confissões, mas Manoel comporta-se mais como objeto que como diretor, e por isso o filme torna-se desinteressante antes da metade. O som não é dos melhores, e justamente nessa sessão houve problemas com a legenda eletrônica, o que resultou em assistir ao filme inteiro apenas com um áudio pouco preciso em português de Portugal. O não entendimento de muitos trechos, tenho consciência, tornou o filme mais difícil de ser acompanhado e apreciado, infelizmente.

FILME#21: PERVERT PARK (2014)

4 estrelas

pervert park

O Pervert Park do título refere-se a uma comunidade criada para cidadãos que cumpriram pena por crimes sexuais, na cidade de St. Petersburg, na Flórida. Nele, esses cidadãos, que normalmente têm dificuldade de encontrar moradia por conta das restrições impostas por lei, recebem tratamento psicológico e assistência social, tudo provido pela Florida Justice Transitions, uma organização não-governamental.

Crimes sexuais são um assunto cheio de estigmas e tabus, e dificilmente se vê discussões a respeito, na ficção, inclusive. Esses criminosos, independentemente dos crimes que tenham cometido, ou das circunstâncias que os levaram a cometê-los, nunca são tratados ou retratados com humanidade, e parece que fazê-lo é um crime ainda maior. Nos EUA, a política de reintegração desses indivíduos à sociedade é, provavelmente mais que no resto do mundo inteiro, extremamente rígida e, em muitos pontos, questionável. E o filme aborda essa questão com seriedade e imparcialidade.

Embora alguns poucos dados estatísticos sejam apresentados, dados esses que nos levam a questionar com certa convicção a caça aos ofensores que se estabelecera no estado, provavelmente para lotar presídios privados que lucram com isso, o foco do filme são as entrevistas realizadas com alguns dos cento e vinte moradores do local, conduzidas de maneira pouco invasiva, mas muito eficiente, e editadas de maneira a criar-se um arco para os “personagens” da vida real, e uma curva dramática digna dos melhores filmes de ficção. Se cinematograficamente o filme é eficiente, do ponto de vista antropológico, filosófico e sociológico, a discussão que ele inicia mostra-se importantíssima, e urgente. Um dos melhores documentários dos últimos anos.

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