Diário da Mostra: Dia 7 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 7

Depois de um fim de semana conturbado, acordei na segunda-feira, feriado, como se fosse dia útil, com horário, sem tempo para enrolar na cama, mas com muita vontade de pular os filmes do dia. O cansaço, decorrente de outras coisas, e não só da Mostra, não foi neutralizado no fim de semana, mas não venceu essa que vos escreve. Era dia de Kitano, e eu não queria perder isso por nada. Faz anos que não assisto a um filme dele na telona, e não queria perder a chance de me redimir.

A bilheteria do cinema Itaú Frei Caneca ainda estava vazia, quando eu cheguei, por volta de 12h30, e o stand da Mostra, também. Sorte a minha, que consegui retirar os ingressos para terça e quarta quase sem pegar fila e ainda dar uma passada no supermercado para me reabastecer de lanchinhos pros intervalos dos filmes. Ao voltar, às 13h10, a fila da bilheteria já era imensa. Era feriado, afinal.

FILME #17: NÔMADE CELESTIAL (SUTAK, 2015)

4 estrelas

nômade celestial

Em Nômade Celestial, há poucos diálogos e muitas sugestões visuais e dramatúrgicas, que levam o espectador a um mundo desconhecido, mas ao mesmo tempo familiar. Embora os costumes desses personagens sejam bastante distintos dos nossos, há similaridades em culturas mais próximas. As histórias que os avós contam a neta, por exemplo, lembram as lendas indígenas, bem como a hierarquia e os valores da família. A religiosidade e a forma de expressar os bons votos assemelham-se, de certa forma, a costumes budistas.

Eu, que sou completamente ignorante no que diz respeito aos países da Ásia Central, entendo que essa região que pertenceu à antiga União Soviética, é herdeira de diversas culturas diferentes, e apesar de todos os problemas sócio-econômicos, étnicos e políticos, conseguiu, por conta de suas paisagens montanhosas, manter-se minimamente isolada, de forma a preservar sua cultura milenar. O retrato das transformações que a região onde vive essa família está enfrentando, no entanto, é totalmente condizente com a realidade: o país encontra-se numa rota comercialmente importante, e por isso as invasões, que deterioram a paisagem tanto quanto a saúde do patriarca.

Paralelamente, a inclusão de um membro da família no mundo moderno, e seu exílio para a cidade grande, afeta a cada um de uma maneira. Enquanto há apoio do avô, há resistência da avó, que também resiste à ideia de sua nora, viúva, casar-se novamente. Acima de tudo, o receio da extinção é o que rege as decisões de cada um dos personagens. As lendas que os avós contam à neta, nada mais são que maneiras de amenizar o sofrimento como consequência da morte. A doença do avô também é um reflexo desse medo, bem como a desaprovação da avó em relação à possibilidade de um segundo casamento para a nora. Muito é dito no filme, sem que sejam necessários longos diálogos ou cenas extensas. E há um equilíbrio perfeito entre as subtramas e o desenvolvimento de todos os personagens. Tocante, Nômade Celestial é um filme extremamente bem escrito e dirigido, e uma das melhores surpresas da Mostra, até agora.

FILME #18: O VERÃO DE SANGAILE (SANGAILÉ, 2014)

2 estrelas

o verão de sangaile

Em O Verão de Sangaile, conta-se um episódio na vida de uma jovem tímida e introvertida, cujas novas amizades a levarão a novos lugares e novas experiências. Enquanto o filme mantém-se nessa linha despretensiosa, há graça, e acompanhar as mudanças na vida de Sangaile, bem como o relacionamento singelo entre ela e sua nova amiga é uma experiência agradável.

No segundo ato, há um excesso de situações que não acrescentam nada à trama, apesar de serem todas bem filmadas. À isso, soma-se um novo conflito, representado pelo desejo oculto, até então, que Sangaile tem de pilotar aviões acrobáticos, a despeito de seu medo de altura, e a necessidade de superar esse medo. A princípio, a relação entre o medo de altura e o desejo de pilotar parece uma metáfora para a forma como Sangaile não enfrenta as adversidades e, consequentemente, não realiza seus desejos. Por isso, quando esse novo conflito mostra-se literal, e não encaixa no filme, ele perde a força, a graça, e torna-se enfadonho e superficial.

Ao contrário do que acontece em Nômade Celestial, O Verão de Sangaile não consegue ser conciso, e ao perder o foco, perde a precisão.

FILME #19: RYUZO E SEUS SETE CAPANGAS (RYÛZÔ TO 7 SHICHININ NO KOBUN TACHI)

3 estrelas

ryuzo e seus sete capangas

Na extensa e irregular filmografia de um dos grandes diretores japoneses de todos os tempos, Takeshi Kitano, faltava uma comédia mais convencional, que não extrapolasse os limites do nonsense, como em Glória ao Cineasta! (Kantoku Banzai!, 2007). Em Ryuzo e seus sete capangas, satiriza-se um dos gêneros mais abordados por Kitano: os filmes de máfia.

Leve e comedido, o filme não arrisca muito, mas é uma bela homenagem ao gênero e à própria obra do roteirista e diretor. O elenco é formidável, e há genuidade nas atuações, mas há um problema de ritmo, que torna o filme, apesar de dinâmico, arrastado e repetitivo da metade para o final. Apesar disso, Kitano acerta no timing cômico, usando recursos inteligentes de decupagem para elevar suas piadas.

O filme não é indispensável, e está longe de ser um dos melhores da carreira do roteirista e diretor. Mas para os fãs – como eu – torna-se aposta certa. Ainda que seja apenas para rir. Muito.

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