Diário da Mostra: Dia 6 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 6

Nem todo dia de Mostra é um bom dia.

Cheguei com antecedência considerável no Conjunto Nacional, assim como muitos com os quais conversei brevemente na fila para retirada de ingressos. O sistema estava lento e a fila, longa. Fui persistente e consegui, nos 45 do segundo tempo, retirar os ingressos de segunda-feira. De lá, me dirigi para o MIS, perto o suficiente para não me atrasar, longe o suficiente para inibir a maioria do público, que preferiu permanecer nos arredores da Paulista. Antes de entrar na sala, consegui dar uma breve espiada nas duas exposições de fotografia próximas ao auditório. A sala estava bem vazia para a projeção do primeiro filme do dia: Luz Incidente.

Na segunda sessão, A Jornada de Chasuke, a sala encheu mais, o suficiente para eu não ficar tão confortável, seja pelas limitações de espaço, seja pelas demonstrações exacerbadamente positivas – e equivocadas, na minha opinião – em relação ao filme pelo qual eu havia construído altas expectativas.

No fim das exibições, a surpresa da manifestação contra a PL 5069 que acontecia na Paulista. Mesmo tendo sido convidada para o evento, minha cabeça está tão focada na Mostra, essa semana, que mal me recordava que o protesto era hoje. Saltei do ônibus assim que os primeiros sinais de interdição apareceram, andei até a segunda estação de metrô da avenida e me surpreendi, no caminho, com a gritaria nada histérica e totalmente condizente da mulherada. Orgulho. Mas meus deveres em casa me mantiveram apenas como espectadora, nos poucos minutos que me distanciaram da rua Augusta à estação Trianon-Masp. Desci na estação Ana Rosa e, para meu agradável espanto, consegui subir num dos últimos ônibus que escaparam da interdição. Cheguei em casa às 20h, e estou até agora na frente do computador, porque ontem me atrapalhei e não consegui escrever sobre meu quinto dia da Mostra.

Hoje não foi um dia tão bom quanto ontem. Foi ruim, aliás. E nem por conta dos percalços, mas porque os filmes não me agradaram. A Jornada de Chasuke me parecia uma aposta certeira: trama interessante e inventiva, origem japonesa. Para encaixar outro filme na minha programação, tive que escolher o Luz Incidente, que tinha plot razoável, e a experiente Erica Rivas, do aclamado Relatos Selvagens (Relatos Salvajes, 2014).

FILME #15: LUZ INCIDENTE (LA LUZ INCIDENTE, 2015)

2 estrelas

luz incidente

Há muito cuidado com a estética, em Luz Incidente. Fazendo alusão ao título, de maneira não proposital, a fotografia é bem pensada, e a escolha do preto e branco, enquanto torna os planos belos, traz a eles certa assepsia indesejada, que influencia o desenvolvimento dos personagens e da história negativamente, ao menos que a intenção fosse tornar a protagonista, bem como seu par romântico, personagens frios, que não inspiram nenhuma empatia no espectador.

Ainda que sintamos pena pelos personagens, na maior parte do tempo, duvidamos de suas boas intenções e acreditamos que suas escolhas são equivocadas e levarão a um desfecho trágico e, acima de tudo, indesejável. Prefiro crer que essa seja a intenção do roteirista e diretor Ariel Rotter. A estética escolhida, inclusive, corrobora para tal conclusão. No entanto, ao tornar seus personagens e suas escolhas indesejáveis, Ariel elimina qualquer torcida que se possa fazer ao assistir ao filme. Se as trágicas condições em que eles se encontram os levam a ações dúbias e pouco genuínas, a forma como elas evoluem torna-as pouco humanas e nada admiráveis, ou compreensíveis, o que torna a experiência do espectador amarga e pouco emotiva.

FILME #16: A JORNADA DE CHASUKE (TEN NO CHASUKE, 2015)

1 estrela

a jornada de chasuke

Inspirado na estética anime, A Jornada de Chasuke é um filme equivocado e sem identidade, apesar dos grandes esforços do roteirista e diretor Sabu e do plot aparentemente interessante. A despeito de sua experiência, Sabu não acerta na escolha do tom, que beira o nonsense ou, nas palavras da plateia, bizarro. Ao não se firmar como filme de fantasia ou romance, A Jornada de Chasuke torna-se uma piada sem graça, sem estilo próprio e, por vezes, incompreensível.

As escolhas em fotografia e direção de arte são, também, bastante equivocadas. As escolhas em relação à movimentação de câmera e enquadramentos, em geral, parecem aleatórias e de mau gosto. O excesso de personagens e subtramas não colabora para o desenvolvimento da história principal, que se torna confusa e se perde no decorrer do filme.

Apesar da estranheza que o filme causa, ainda que não intencionalmente, a plateia pareceu se divertir com alguns exageros e caricaturas que, ao meu ver, não tornam o filme engraçado. Mas talvez isso seja apenas a visão de uma quase japonesa que, acostumada com a linguagem exagerada, não vê graça no uso mal feito desse recurso.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s