Diário da Mostra: Dia 5 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 5

Meus pés não precisam mais do meu cérebro para chegar até o cinema do shopping Frei Caneca. Nesse quinto dia de Mostra, tudo correu perfeitamente bem: cheguei com bastante antecedência, levei lanchinhos suficientes para conter a fome, não assisti a nenhum filme ruim e saí de lá com a boa sensação que se tem quando se tem um dia produtivo. Ficar sentado por seis horas em salas escuras ao lado de estranhos que mal se comunicam e na maior parte do tempo interagem com um ser inanimado e iluminado, por vezes, de maneira intensa e profunda, não se encaixa exatamente na categoria produtiva. Mas o cinema tem poderes curativos, enaltecedores, instrutivos e libertadores, ainda mais em ocasiões especiais como essa.

Foram três filmes, nesse quinto dia. Todos muito bons, o que é inédito até o momento. Vamos a eles.

FILME #12: UNDERGROUND FRAGRANCE (DI XIA XIANG, 2015)

4 estrelas

underground fragrance

Há uma precisão estética no cinema chinês que me intriga. De Wong Kar Wai a Jia Zhang Ke, passando pelo diretor estreante desse Undergroun Fragrance, é impossível apontar um plano feio ou ordinário, sequer. Há um cuidado fora de série com composição de quadro, escolha da lente e movimento de câmera, e o resultado é sempre estonteante, principalmente se o cenário for sujo, devastado, desgastado, claustrofóbico. A extração da beleza das fontes menos aprazíveis visualmente é uma qualidade encontrada unanimemente na obra desses diretores, e há de haver um motivo filósofo-sociológico para isso.

Em Underground Fragrance, a sugestão desse odor do título é tão bem retratada visualmente que o filme é quase uma experiência sinestésica. Descritivo, em grande parte, ele se apresenta como uma colagem de acontecimentos cotidianos, com poucos diálogos e quase nenhuma música. Há poucos recursos para dirigir o espectador, e ainda assim há momentos extremamente emocionantes. Silêncio, resiliência e orgulho, características facilmente relacionadas aos orientais, são cortadas por emoções intensas, ainda que contidas, e talvez justamente por esse motivo, elas tenham um impacto tão angustiante no espectador.

Há, talvez, uma subtrama sobrando no filme. Não que ela seja menos interessante, mas a história central é tão mais significativa que a outra não tem motivo de existir. Apesar disso, o filme é conduzido de maneira eficiente e sucinta. Tão sucinta que fica uma vontade de que ele continue.

FILME #13: HECTOR (2015)

3 estrelas

hector

Talvez o principal trunfo de Hector seja apresentar um personagem menos usual, que vive em condições poucas vezes discutidas abertamente. O personagem é bem construído e a interpretação de Peter Mullan é admirável. Apesar disso, sua jornada poderia se encaixar em muitos protagonistas de outras épocas ou outros lugares do mundo. Daí vem a afeição que temos por ele, apesar de pouco sabermos sobre sua história pregressa, a qual passamos a desvendar em doses homeopáticas, conforme a trama vai avançando.

Todos os personagens secundários são bem construídos, e acompanhar Hector no que parecem ser os últimos momentos de sua jornada, é prazeroso, tanto porque sua história é contada de maneira leve, apesar da natureza trágica de sua condição, quanto porque nada é definitivo, e o filme deixa isso bem claro. Ao sobreviver às situações mais improváveis das maneiras mais prováveis, mas nunca imaginadas, Hector nos leva por uma caminhada intensa, mas suave, cheia de nuances e que nos coloca a repensar nossos julgamentos a respeito do que nos rodeia no dia a dia.

FILME #14: A OVELHA NEGRA (HRÚTAR, 2015)

5 estrelas

a ovelha negra

Falar sobre os filmes imediatamente após a exibição, pior, votar neles quando ainda sobem os créditos na tela, é precipitado. Quando se estuda filmes e faz-se críticas com frequência, é certo que a visão analítica sobrepõe-se à de simples espectador, mas ninguém está isento de se deixar levar pelas emoções exacerbadamente, ou deixá-las completamente de lado, a ponto de enxergar o filme de maneira excessivamente técnica.

Minha proposta no Diário da Mostra era escrever sobre os filmes e minha experiência ainda no dia da exibição dos mesmos, o que tem suas vantagens e desvantagens. Por um lado, eles estão fresquíssimos na memória. Por outro, um respiro sempre é bem vindo quando se lida com obras tão singulares (ou não). Os filmes que vi ontem (esses sobre os quais vos falo), estão sendo analisados hoje, por motivos logísticos (e chatos). No entanto, é nítida a diferença que um dia faz na análise dos mesmos, especialmente desse A Ovelha Negra.

O final do filme é brusco, cruel, eu diria. E a conversa pós exibição com o diretor e roteirista talvez tenha dado menos tempo de respiro quanto é necessário nesse caso. Se eu já havia ficado abalada com a conclusão de Pardais (que também teve conversa com o diretor/roteirista depois), nesse caso, acho que o baque foi maior.

A Islândia, como bem lembrou um dos espectadores, é o país da Björk, e isso é tudo o que podemos relacionar a ele. O diretor, bem humorado, diante de tal afirmação, mostrou-se conformado, mas um pouco incomodado – tanto quanto nós nos sentimos ao sermos relacionados a carnaval, futebol e samba. Antes do filme, ele fez questão de dizer que os carneiros – e ovelhas – são animais venerados na Islândia, o que provavelmente fez bastante diferença no nosso entendimento do filme. Outra observação crucial do diretor: o título original traduz-se apenas como “carneiros”. “A ovelha negra” é a tradução brasileira para o título em inglês que o filme recebeu. E há grande importância na diferença entre o título original e a tradução, observe.

Durante todo o filme, eu o adorei. Senti grande afeição pelo protagonista Gummi, belamente interpretado por Sigurður Sigurjónsson. O desentendimento entre ele e seu irmão, que dura pelo menos quarenta anos, nunca explicado, me levou a grandes especulações. No final das contas, o motivo, explicado pelo diretor, era menos catrastófico e mais natural do que se poderia imaginar. E eu gostei disso. Nós, como espectadores, somos levados, na maioria dos casos, a tentar desvendar os mistérios que rondam os personagens, a especular o que os levou ao atual estado, a perceber nuances de comportamento que nos expliquem suas atitudes, quando as explicações podem ser muito mais simples e corriqueiras do que somos tentados a imaginar.

É essa simplicidade que faz do filme um sucesso como obra de ficção verossímil. Nem sempre há explicações estapafúrdias ou surpreendentes para o que faz os personagens agirem como agem. E a beleza do cinema está aí: enxergar os personagens como figuras de carne e osso, sem mistério ou misticismo algum. Conversas com os autores podem ser elucidativas ao ponto de entendermos que estamos pensando mais do que deveríamos. No lugar de pensar, devemos nos deixar levar mais pelas emoções, quando se trata de cinema, e um dia a mais para falar sobre esse filme me fez entender isso. Se o final em aberto me fez questionar se a conclusão do filme foi adequada, ele também me fez pensar que nem tudo na vida tem explicação ou precisa de entendimento. Há que se sentir, como agora, quando escrevo sobre A ovelha negra com lágrimas no olhos, simplesmente pelo fato de que as coisas acontecem do jeito que acontecem, e isso tem sua beleza – e tristeza.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s