Diário da Mostra: Dia 4 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 4

E o cansaço se acumula. Mas não deixemos que ele vença. Ainda tem uma semana pela frente, e para ser franca, eu gostaria que ela nunca acabasse.

Hoje saí da minha segunda casa, o shopping Frei Caneca, e fui visitar o Belas Artes, que eu não via fazia muito tempo. Está tudo bem, bonito e confortável por lá, né? Que bom. Depois fui para o Cinesesc, que também já foi um lugar favorito e fazia anos que eu não frequentava.

Entre um filme e outro, passei pela Livraria Cultura, roubei seu wifi, resisti à tentação de procurar livros para adicionar à minha biblioteca saturada, me entreguei a uma torta de chocolate da Brunella do Conjunto Nacional, mesmo tendo saudáveis cookies integrais e orgânicos na bolsa e carreguei meu Bilhete Único nos modernos terminais de auto-serviço da estação Consolação. Eu, que não usei muito transporte público nos últimos anos, fiquei impressionada com essa facilidade e amei mais minha cidade por isso. A Paulista inteira, por sinal, é puro amor, com suas facilidades, comércios e arquiteturas. Isso vindo de alguém que cogitava deixar a cidade a alguns poucos meses atrás. Essa Mostra tem tido um papel significativo no processo de fazer as pazes com minha cidade natal. Além de outras coisas que tem me proporcionado, né? 

Vamos aos filmes de hoje, então?

FILME #10: MEN & CHICKEN (MÆND & HØNS, 2015)

3 estrelas

men & chicken

Até pensei em deixar de lado o fato de eu ter pescado por muitos minutos do filme. Compartilhar o fato pode deixar a impressão errada sobre o filme, mas como não ser sincera? Que fique claro: minhas cochiladas não foram consequência de supostos deméritos do filme, apenas reflexo de noites mal dormidas e excesso de tarefas. Sei que perdi momentos cruciais, e que minha crítica fica prejudicada por isso, mas ainda me reservo o direito de falar sobre mais uma (boa) comédia nórdica.

A surpresa de ver Mads Mikkelsen, o Hannibal da série de TV só não foi maior que a bela atuação que ele entrega. Como ele, o elenco todo está bem. A direção, de uma forma geral, é boa, ainda mais se considerarmos que esta não é uma história fácil. Enquanto prevalecia a comédia, “bizarra”, nas palavras da espectadora sentada ao meu lado que, embora aparentemente espantada, mostrou-se receptiva e satisfeita durante toda a projeção, eu sentia falta das risadas que não conseguia controlar no dia anterior, com as ótimas comédias nórdicas a que assisti.

A estranheza propositalmente causada, no entanto, intrigou até o início da conclusão, quando o filme toma outro tom, e surpreende. Sou talvez a pessoa mais ansiosa que conheço e, talvez por esse motivo, desvende os finais dos filmes com tanta frequência. Não foi diferente nesse Men & Chicken. Mas posso dizer que a grande maioria da plateia, que gargalhou durante toda a projeção, não esperava essa conclusão. 

Embora estapafúrdia e fantasiosa, a resolução não deixa de ser sensível e pertinente à trama. Se a busca por nossas origens e o entendimento sobre quem somos pode ter respostas racionais, pode também, ao menos no plano ficcional, ter justificativas inusitadas e poeticamente relevantes.

FILME #11: PARDAIS (ÞRESTIR, 2015)

5 estrelas

sparrows

E por que não nos deixar levar pelas paisagens hipnotizantes da região nórdica? Dessa vez na Islândia, Pardais fala sobre um garoto de 16 anos que precisa se adaptar a uma nova vida. Embora esteja retornando à cidade onde já viveu quando criança, sua sensação de não pertencer é tão intensa quanto a nossa, que nos surpreendemos com as enormes e, nas palavras do diretor, opressivas montanhas que rodeiam seu universo.

As enormes montanhas, facilmente comparadas a seu pai, um estranho com pouco tato e nenhum senso paterno, tornam-se, a despeito de sua imutabilidade, maiores e mais sinistras, à medida que o filme evolui. Se no início a presença de figuras familiares e ternas como a de sua avó e a amiga de infância tornam a transição menos traumática, à medida que o tempo passa, as dificuldades e animosidades aumentam, tornando o ambiente claustrofóbico e insuportável. O suposto abandono da mãe, que só faz lembrar a ausência do pai, anterior aos fatos que testemunhamos, associada às novas demandas e às dificuldades intrínsecas à idade, tornam a nova vida do protagonista insustentável.

Se a adolescência é assunto superutilizado no cinema, em Pardais, o tema é abordado com um senso de ritmo e sensibilidade excepcionais. Há, claramente, uma evolução do incômodo, mas trivial, típico na vida de um adolescente, ao sombrio e polêmico, quando a necessidade de amadurecer dá lugar ao adulto imaturo.

O maior mérito do filme, além do ótimo e bem desenvolvido roteiro, é a inacreditável atuação do protagonista, um não-ator que capta e transmite emoções com tanta verdade, de maneira tão genuína e profunda, que é impossível não se emocionar, nos mais elevados patamares. Conforme o diretor/roteirista, que conversou com o público depois da exibição, o tempo de preparo é imprescindível, e a relação com o elenco deve ser íntima e minuciosa. Segundo ele, e segundo o próprio filme, há preocupações estéticas profundas, mas nada que se sobreponha ao conjunto resultante da boa direção de atores, da sensibilidade sobre o tema e da desenvoltura com que se conta a história.

Pardais é um filme maduro como poucos, corajoso de dar inveja e imaginavelmente sutil. E a julgar pela conversa pós-projeção, tudo flui de forma natural e intuitiva. Como deve ser no cinema e na vida.

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