Diário da Mostra: Dia 3 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 3

Manter a rotina, assistir a três filmes por dia e escrever sobre eles no fim do dia tem se mostrado uma tarefa árdua, o que tem feito minha admiração pelos críticos aumentar significativamente. Além das horas despendidas para as projeções propriamente ditas, há o tempo do deslocamento, que, em São Paulo, não pode ser subestimado. Ainda que eu more perto da Paulista, onde se concentram muitas das salas participantes da Mostra, acho inviável usar o carro para a maratona, tanto porque confio mais nas minhas pernas que nas rodas do meu carro para me deslocar entre uma sala e outra quanto porque os preços dos estacionamentos fariam toda a economia que estou fazendo com a permanente especial ser jogada na lata do lixo. Hoje senti, logo no primeiro filme, os sinais do cansaço, que, para meu desolamento, fizeram-me perder momentos cruciais da trama. Um café caríssimo depois, fui alerta para o segundo filme, acompanhada de um amigo que gostou tanto ou mais que eu do filme. Ambos o primeiro e o segundo são comédias nórdicas, e foram surpresas agradabilíssimas na minha programação e à maioria absoluta da plateia, considerando-se os risos unânimes e quase descontrolados dos que me acompanharam.

O terceiro filme, provavelmente prejudicado depois de dois ótimos e leves filmes, não me agradou, e, ao que me parece, também não foi sucesso de audiência.

Temos ainda uma semana pela frente e quero crer que meus afazeres pessoais não vão me prejudicar nessa jornada deliciosa que tem sido assistir aos filmes e falar sobre eles no final do dia. Enquanto não sou derrotada pelo cansaço, vamos lá.

FILME #7: AQUI ESTÁ HAROLD (HER ER HAROLD, 2014)

3 estrelas

aqui está harold

Sou fã de Bergman desde a faculdade – para quem não sabe, cursei cinema de 2004 a 2007. Além dele, conheço muito pouco do cinema nórdico, com exceção da trilogia Millenium e do filme O Homem sem Passado (Mies vailla menneisyyttä, 2002), e por isso fiquei positivamente surpresa com o Foco Nórdico esse ano. Comédias daquela região fria e civilizada nunca me despertariam o interesse, não fosse o maravilhoso plot de Aqui está Harold.

Se a trama não apresenta nenhuma novidade, é no desenvolvimento da história que o filme se destaca. Acertar o tom da comédia tem se mostrado, nos dias atuais, difícil, beirando o impossível. Quando os enlatados tornam-se referência e a cartilha mostra-se cada vez mais restritiva e previsível, é entusiasmante descobrir que há esperança para o gênero. A distância cultural e geográfica que nos separa da região nórdica (escandinávia, no caso) faz-se diminuta quando nos deparamos com filmes como Aqui está Harold, de comicidade sofisticada e simples, ao mesmo tempo, que pode ser escrachada e sensível de maneira equilibrada.

Aqui está Harold é, sim, um filme mais comercial, o que não diminui em nada seus méritos. O alcance do filme, guardadas as devidas proporções, pode ser grande, o que comprova que singeleza não anda, necessariamente, de mãos dadas com mediocridade.

A atuação de Bjørn Sundquist é, a propósito, formidável.

FILME #8: O HOMEM DE 100 ANOS QUE PULOU A JANELA E DESAPARECEU (HUNDRAÅRINGEN SOM KLEV UT GENOM FÖNSTRET OCH FÖRSVANN, 2013)

3 estrelas

o homem de 100 anos que pulou a janela e desapareceu

Coincidentemente, O Homem de 100 anos que pulos a janela e desapareceu é também uma comédia nórdica surpreendente. Como Aqui está Harold, esse filme é bem sucedido em arrancar da plateia risos sem precedentes na minha experiência como cinéfila. Se restava alguma dúvida sobre a capacidade dos nórdicos de fazer comédia de alta qualidade e acessível ao mesmo tempo, elas eximiram-se ao assistir a essa que já se tornou umas das minhas comédias favoritas da vida.

O filme acompanha, paralelamente, dois momentos na vida do protagonista interpretado com maestria por Robert Gustafsson: o passado de ouro, quando sua paixão por explosões o fizeram figura notável e anônima ao mesmo tempo, e que tiveram papel crucial no desenrolar da história mundial – mais ou menos aos moldes de Forrest Gump (1994) – e o presente constrangedor, quando seu espírito destemido, aventureiro e ingênuo o levam para a maior aventura de todas, ao lado de sujeitos tão inusitados quanto ele.

Para apresentar tantas histórias, faz-se um trabalho digno de superprodução hollywoodiana, mas com menos efeitos especiais e visuais e mais dramaturgia, um roteiro primoroso e atuações memoráveis. E se Aqui está Harold pode ser considerado um filme comercial, O homem de 100 anos… bem poderia se encaixar na definição de blockbuster, se tivesse sido produzido e filmado na terra do tio Sam. Ainda bem que não foi. De 2013, é bem provavél que ele nunca aporte nos cinemas brasileiros (com exceção dessas poucas sessões da Mostra), e quem conseguir um torrent do filme, por favor, me passe o link. Uma pena. Faria os mais céticos rir, fossem eles o grande público, fossem eles os ratos de festival acostumados aos filmes cabeça, coisa e tal.

FILME #9: MADRES DE LOS DIOSES (2015)

1 estrela

madres de los dioses

Depois de dois grandes e divertidos filmes, veio esse documentário argentino.

Há boas ideias e intenções em Madre de los dioses, mas o filme se excede em tempo de tela, inúmeras vezes. Tem pouco menos de uma hora e meia, mas poderia ter uma hora, e ainda assim seria longo.

Não há como negar que se trata de uma obra pretensiosa, o que, por si só, já faria muitos torcerem o nariz. Mas, além disso, por mais que se queira forçar uma elemento comum nas histórias apresentadas, nenhuma delas mostra-se relevante o suficiente. As imagens, montadas de maneira supostamente poética e sinestésica, se esvaziam ao não darem ou banalizarem a voz das entrevistadas. A única história dramaticamente interessante seja, talvez, a de Samiha, que constrói com as próprias mãos (e pouquíssimos recursos) a casa onde vive com seus oito filhos e uma mesquita depois de se converter ao islamismo.

Se a tentativa era de enaltecer essas mulheres, apesar de admirar a intenção e valorizar esse tipo de iniciativa e cinema, ela foi mal sucedida. A pergunta que me faço é: as histórias dessas mulheres são realmente desinteressantes ou há ineficácia na direção?

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