Diário da Mostra: Dia 2 na 39a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo

diário da mostra 2

Hoje foram três filmes, três salas lotadas, Pablo Villaça, muita fila, fome, uma surpresa e uma decepção. Os filmes: The Paradise Suite, Mate-me por favor e Desde Allá.

Cheguei cedo e achei que ia poder dar uma passeada no shopping Frei Caneca antes da primeira sessão do dia. Ledo engano. A fila para comprar ingressos estava enorme, e como tinha um filme que estava fora do horário contemplado pela minha credencial, perdi meus minutos de adianto nela.

Para não passar fome como no primeiro dia, levei um lanchinho, mas já vi que serão necessários dois por dia. Depois que me acostumei a comer de três em três horas, é difícil aguentar a roncadeira do estômago. Ainda mais quando os filmes são mais silenciosos do que a minha vergonha gostaria. Também não rola ficar pagando mais de seis reais nos pães de batata e esfihas maomeno do café do cinema. Fica a dica para quem tem fome toda hora e não quer falir.

Todos os meus filmes foram projetados na sala 1, mas na brincadeira de sair, ir ao banheiro e abastecer a garrafa de água, do segundo para o terceiro filme, quase tive que sentar na escada. O badaladíssimo Desde Allá, que venceu o leão de ouro em Veneza, estava lotado, e a fila deve ter começado a se formar muito antes de o filme ao qual eu assistia começar a se encerrar.

No primeiro filme, avistei o Pablo Villaça, que eu acompanho especialmente no Youtube, e que tem feito a cobertura diariamente, desde o Festival do Rio. Alguns de nossos filmes têm coincidido, e estou ansiosa para saber o que ele achou do filme, que foi o melhor ao qual assisti até agora.

No segundo filme, a diretora deu o ar da graça rapidamente. Minha expectativa aumentou: era o primeiro filme tupiniquim da mostra que eu ia ver. Acabou sendo também minha primeira decepção.

FILME #4: THE PARADISE SUITE (2015)

5 estrelas

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Esse filme holandês, escolhido para representar o país na disputa pelo Oscar, tornou-se, justamente por esse motivo, um dos mais concorridos esse ano. Pelo menos é o que dizem as minhas estatísticas, que consideram uma sala quase lotada em plenas 13 horas e 30 minutos de uma segunda-feira, um feito, ainda que num evento desse porte.

Não esperar nada de um filme e deparar-se com uma realização primorosa deve ser das melhores sensações da vida. Pode ser que, passado o frenesi das primeiras 24 horas pós-projeção, minha opinião seja menos emocionada e mais crítica, mas, como o intuito desses diários é justamente falar sobre minhas primeiras e imediatas impressões, me sinto compelida a confessar que dei a nota máxima no meu voto ao filme do qual falo.

The Paradise Suite é daqueles filmes que, por mais manjada que seja sua estrutura, pega o espectador de um jeito que fica difícil não se emocionar. A análise distanciada que nós, cinéfilos, cineastas e entusiastas do cinema, costumamos ter, dá lugar a do espectador comum, tornando a experiência estritamente emocional. De cara, somos pegos pelas entranhas, e agraciados com histórias e personagens profundos, embora ordinários. Do homem de fé, honesto e heróico, à mãe devastada, com sede de justiça, passando pelo menino prodígio inseguro e pela menina sonhadora que se choca com uma sinistra realidade, todos lembram personagens outrora explorados, e nem por isso deixam de surpreender, porque a maneira como são obrigados a enfrentar suas jornadas mostra-se muito mais cruel do que estamos acostumados. Muito dessa crueldade resulta da empatia que sentimos pela maioria dos personagens que, abordados de outra maneira, dificilmente surtiriam emoções tão exacerbadas – e genuínas.

Para isso, o diretor e roteirista não lança mão de violência gráfica ou truques cinematográficos, mas de um bom texto e ótimas atuações. Primordialmente, o que é necessário para se fazer um bom filme? Bons personagens que tenham suas histórias bem contadas. E é isso que acontece aqui. Casting, direção de atores, roteiro, decupagem e montagem são pré-requisitos fundamentais para um bom filme, o resto é firula.

FILME #5: MATE-ME POR FAVOR

2 estrelas

mate-me por favor

Em contraste com o filme anterior, esse filme brasileiro da estreante Anita Rocha da Silveira foi o pior filme até agora. Embora seja possível identificar boas intenções, principalmente no que concerne originalidade e coragem, o filme peca ao fazer-se inacessível. Ao contrário do que acontece em The Paradise Suite, por exemplo, não é possível criar empatia por nenhum dos personagens. Eles são razoavelmente bem criados, e os atores, bem dirigidos, de maneira geral, mas não se vendem bem. Se a verossimilhança não é meta a ser alcançada – e nem deveria ser – alguns diálogos soam forçados e falsos, tanto quanto os momentos mais nonsense do filme – esses sim, propositalmente fantasiosos.

Há um frescor na forma como a diretora trata a adolescência e o ponto de vista de seus personagens pré vida adulta, mas há desequilíbrio na forma como somos levados a apreciar tais pontos de vista, de maneira que certos planos e cenas tornam-se enfadonhos e sem sentido. Se certa experimentação é admirável, tornar a trama viável e instigante faz-se necessário, e isso não acontece nesse filme.

A notar: tanto a personagem Bia quanto a interpretação de Valentina Herszage são admiráveis.

FILME #6: DESDE ALLÁ

4 estrelas

desde allá

O vencedor do leão de ouro do Festival de Veneza, Desde Allá, atraiu para a sessão de hoje a maior fila que enfrentei até o momento e as reações mais diversas. É possível que tamanho prestígio torne as expectativas impossíveis de serem alcançadas, mas também é possível que uma parte do público não esteja preparada para encarar um filme com esse teor com a seriedade e a admiração que lhe são devidas.

Desde Allá é um filme, sobretudo, sobre o amor. O amor, como é sabido, tem diversas formas e é manifestado de maneiras que nem sempre são consideradas aceitáveis. Tanto quanto o amor torto entre os personagens principais não é aceito pelo elenco secundário, acredito que a plateia tenha problemas em entender como ele funciona. E o amor, meus caros, não é para ser entendido. É para ser contemplado e admirado sem nenhum questionamento, simplesmente pelo fato de existir. Posso estar sendo romântica nessas afirmações, mas creio que é assim que devamos enxergar Desde Allá, como um filme romântico inusitado e belo, apenas.

Se as convenções nos compelem a ser e agir de determinadas maneiras, o amor nos leva a superar tais convenções e nos mostrar e demonstrar que tudo é mais complexo que sexo e desejo. Enquanto mágoas e ódio nos movem a fazer o oposto do que sofremos, afeição e gratidão nos elevam a patamares mais elevados, onde amor fraternal e paternal se confundem com amor carnal, e não há prática, fetiche ou crime que se oponha a isso. E é sobre isso que Desde Allá fala tão bem. E é por isso que este é um filme tão importante.

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