Conceição Discos & Comes: cozinha honesta, comida incrível, chef cativante

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O lugar é pequeno, mas é como coração de mãe: sempre cabe mais um. Há pequenas mesas nos fundos, um vitrola abastecida por vinis que estão à venda, objetos de cozinha vintage e, o mais legal, um balcão de onde é possível observar a mãezona cozinhar com alegria para os comensais. Talitha Barros, proprietária e chef do Conceição Discos & Comes, abriu o estabelecimentos há pouco mais de um ano, e o lugar conquistou freguesia fiel e que chega ao restaurante como quem chega na casa da mãe: trazendo o cachorro, conversando com os funcionários, trocando o disco e se deliciando com os cheiros que o pequeno fogão de Talitha produzem. 

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Não há cardápio de papel, mas há lousa que estampa os especiais do dia, e uma parede coberta de poucas e boas sugestões: pão de queijo com pernil (com ou sem ovo frito, R$ 12,00 + R$ 2,00), queijo quente em algumas variedades (bacon, cebola, alho e banana, R$12,00), torta de frango, palmito ou camarão (R$ 14,00) e o arroz do dia. Talitha varia os arrozes de tempos em tempos, e quando se faz necessário. Na semana passada, por exemplo, não tinha polvo fresquíssimo no seu fornecedor e ela substituiu o arroz de polvo, costumeiro aos sábados, pelo arroz de suã, que fazia parte de seu cardápio a tempos atrás.

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Atualmente, o cardápio dos arrozes é o seguinte: terça tem arroz de moela, quarta, arroz de abóbora com tutano, quinta, arroz de costelinha, sexta, arroz de sururu e sábado, o tal do arroz de polvo. Não abre às segundas e funciona no último domingo do mês, quando geralmente há pratos especiais, como lasanha, miolo de boi, joelho de porco e por aí vai. Os arrozes da semana custam R$ 28,00, e todos podem ser servidos com um ovo frito (mais R$ 2,00). O arroz de polvo é mais caro: custa R$ 35,00, e também pode ser servido com ovo. Há também, todos os dias, o arroz vegetariano (R$ 28,00).

As sobremesas fixas são o pudim, o brownie e a torta de limão (R$ 10,00), mas também há sobremesas do dia, como brigadeiro de colher, banana split e bolos diversos.

Visitamos no sábado. Chegamos quase na hora de fechar, às 16h30, e esperamos por dois lugares no balcão por cerca de meia hora. O polvo já tinha acabado, mas tinha arroz de camarão, por isso, desisti da torta de camarão de entrada e escolhi o pão de queijo com pernil e ovo. O Marcelo, que nunca tem tanta fome quanto eu, não pediu entrada e foi direto no arroz de camarão. Havia certa desorganização no serviço, o que fez com que nossos pedidos demorassem para serem feitos. Vieram os arrozes (o meu com ovo), e nada de pão de queijo. Fiquei incomodada, reclamei e pedi para que ele viesse depois do arroz. Eu estava bastante curiosa para prová-lo. O atendimento é falho, mas percebi que a casa funciona assim, informalmente, sem qualquer rigidez, e já era hora de fechar e as pessoas continuavam chegando. Para complicar, a água tinha acabado, o que fazia com que o serviço ficasse mais lento mesmo. Entendi que para ser bem atendida, teria que voltar durante a semana, ou, quem sabe, ficar mais íntima do pessoal que trabalha lá. Estava me sentindo meio abandonada no final do balcão, quando chegou a comida…

O arroz de camarão era uma coisa de outro mundo. É impressionante como Talitha torna algo trivial e aparentemente simples em um manjar dos deuses, para comer de joelhos. O prato tinha muito, muito sabor. Notei limão siciliano e cebolinha, mas não consegui perceber mais nada. Qual é o segredo desse arroz de camarão, afinal? O camarão estava cozido perfeitamente, bem como o arroz agulhinha. Havia cremosidade, mas, de onde ela vinha? E o ovo por cima, Talitha diz colocar por gostar muito de ovo, assim como eu. Mas como é que eu nunca tinha pensado nisso antes? Colocar ovo frito em cima das comidas me parece uma das melhores ideias do mundo, e eu não sei por que não vinha fazendo isso até hoje. Há, sim, muita técnica envolvida. É necessário cozinhar o camarão separadamente? O arroz é pré-cozido e termina o cozimento com os outros ingredientes ou apenas misturado a eles quando já está cozido? Mas o mais importante, acredito eu, seja a sabedoria da chef, que entende os produtos e os enaltece de maneira simples, mas complicada, ao mesmo tempo. Isso e o amor com que cozinha. Quem um dia duvidou que amor deixa a comida mais gostosa? E eu não estou falando de sazon, ok?

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Depois do arroz, veio o célebre pão de queijo com pernil. O pão é maravilhoso, desses para comer de baciada. Mas confesso que não fiquei muito impressionada com o ragu de pernil, que estava morno e com menos sal do que eu considero ideal. O ovo frito (de novo), deu um toque gostoso, no entanto. É possível que ter trocado a ordem dos pratos tenha acabado com as chances desse pãozinho. Depois daquele arroz, fica difícil para qualquer um mesmo.

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De sobremesa, pedi o pudim, considerado por muitos, o melhor da cidade. O Marcelo pediu o brownie, do qual eu já havia ouvido falar muito bem também. E se tivesse espaço no estômago, é bem provável que eu pedisse a torta de limão também, sem pudor nenhum. Mas não deu.

O pudim, amigos, o pudim, é o melhor que comi na vida, junto com o da minha mãe, que era possivelmente a sobremesa que eu mais gostava quando criança. Eu, diferentemente da maioria das pessoas, não tenho preferência por pudim com ou sem furinhos. Acho que tem espaço para ambos, cada um tem seu brilho. O da minha mãe tinha furinhos e era bem leve. Dava pra comer uma forma inteira. Esse é lisinho, cremosíssimo, mais pesado, do tipo que você come uma fatia e já está satisfeito. Mas que pudim, que pudim. Vale cada centavo. Acho, aliás, dez reais uma vergonha (mas que Talitha não me ouça).

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O brownie era igualmente delicioso e igualmente bem feito. Doce na medida, cremoso e denso por dentro, com uma fina casquinha. Não é páreo para o pudim, mas deve ser o melhor brownie que já comi.

E depois desse banquete despretensioso, sentimo-nos como deve se sentir com comfort food, a comida reconfortante, de mãe (mas com um toque de expert): satisfeitos, felizes e cheios. A essa altura, a equipe já tinha encerrado as atividades ao redor do fogão, mas a casa continuava lotada, de pessoas, conversas, cerveja e alegria. O Conceição põe em prática tudo o que eu acho que a comida deve fazer: agregar pessoas, criar laços, provocar sorrisos, inspirar conversas. Tornou-se um favorito.

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