Mocotó: caipirinhas e comida nordestina de respeito na Vila Medeiros

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São Paulo, domingo, onze horas, dia dos pais.

Meu pai tinha um compromisso em outra cidade e, coincidentemente, o pai do Marcelo também. Como não ligamos para datas como essa, decidimos tentar almoçar, só os dois, num dos restaurantes mais concorridos de São Paulo, o Mocotó.

O Mocotó fica fora do eixo gastronômico da cidade, mais precisamente, na Vila Medeiros, no extremo norte da cidade. O restaurante nasceu exatamente no mesmo lugar onde está até hoje, há 40 anos, comandado pelo pai do atual chef, Rodrigo Oliveira, uma dos mais inteligentes e simpáticos do Brasil, atualmente.

A comida nordestina servida é elogiadíssima e tida como obrigatória para visitantes de outros países. Os preços são acessíveis (é possível ver todo o cardápio com preços no site), o que atrai desde a população local até os amantes de boa comida acostumados a frequentarem apenas os restaurantes do Jardins e da Vila Nova Conceição.

Não é possível fazer reservas e, para piorar, o chef fez, recentemente, uma aparição no popular MasterChef, o que só aumentou a procura.

Domingo, portanto, não parece o melhor dia para comer no Mocotó. Mas para quem trabalha de segunda a sexta e faz feira nas manhãs de sábado, é o único dia que resta. O segredo, segundo os mais experientes, é chegar cedo. O restaurante abre ao meio dia, por isso é bom chegar até onze e meia para pegar um lugar bom na fila e, assim que ele abrir, ter uma mesa garantida.

Na nossa primeira tentativa, escolhemos o caminho que passa pela Dutra, mais direto e rápido. Erramos uma entrada, nos atrasamos, e quando chegamos, meio dia e quinze, já havia espera de duas horas. Com grande pesar, desistimos e fomos almoçar no Tuju (o que acabou sendo uma ótima ideia).

Nesse domingo de dia dos pais, faríamos nossa segunda tentativa. Escolhemos, acertadamente, o caminho alternativo, o menos direto e mais longo. Como não havia trânsito, ele se mostrou muito melhor. Por ele, foi possível admirar uma parte da cidade que eu desconhecia. Chegamos em ponto: onze e meia. E já havia uma fila enorme, que tomava conta de todos os bancos disponíveis. Enquanto o Marcelo foi estacionar, desolada, fui pegar uma senha e, para minha surpresa, havia uma mesa disponível. Descobrimos que a casa havia sido aberta uma hora antes por conta da data especial, o que poderia ter arruinado nossos planos. No entanto, como a maioria estava em família, as mesas para duas pessoas eram menos concorridas, e por isso sentamos tão prontamente. Sucesso!

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Eu já fazia ideia do que queria provar, e o serviço super eficiente fez a comida chegar à nossa mesa rapidamente.

Começamos com caipirinhas, óbvio. De cachaça, por favor. A casa exibe, orgulhosamente, um seleção de rótulos selecionados a dedo, então, caso você vá beber algo alcoólico, não vale pedir nada com vodca ou saquê, combinado? Até eu que desenvolvi um trauma relacionado a cachaça na adolescência me esforcei e pedi a Maria Bonita, que leva, além da marvada, caju, cajá, maracujá e hortelã. O drink estava muito bem executado, equilibrado, gelado, doce no ponto certo. O Marcelo foi tradicional e pediu uma caipirinha de limão com cachaça Jacuba, que estava perfeita.

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Porque a vontade de provar muitas coisas exigia e porque os muitos tamanhos de porções permitiam, pedimos, para aguçar os paladares, caldo de mocotó, sarapatel, baião de dois, dadinhos de tapioca e torresminhos. O caldo de mocotó honra o nome da casa: é extremamente saboroso e surpreendentemente leve (o quanto um caldo de mocotó por ser leve, que fique claro). Sarapatel, baião de dois e torresminhos estavam corretos, bem executados, frescos e gostosos.

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Os dadinhos de tapioca, um dos poucos pratos que fogem do tradicional, são famosos e não é por menos: a combinação simples e perfeita da tapioca com o queijo coalho e o molho doce apimentado é viciante. Ainda bem que o Arnaldo Lorençato já publicou a receita em seu blog, dessa forma posso alimentar meu vício sem ter que me deslocar até a Vila Medeiros toda vez que bater a fissura.

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Para o principal, me atraíram a atenção o atolado de bode e a dobradinha. Mas depois desse início, digamos, abundante, decidimos dividir um prato, e o Marcelo não estava tão disposto quanto eu a desbravar pratos menos convencionais. escolhemos a carne de sol assada, preparada com manteiga de garrafa e servida com pimenta biquinho, alho assado e chips de mandioca.

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Já comi carnes de sol deliciosas, como também já comi carnes de sol secas e insípidas. A carne de sol que comemos nesse dia no Mocotó se enquadrou no segundo time, para a minha tristeza. Mesmo com manteiga de garrafa extra, que pedi ao garçom, ela não melhorou. Não sei se essa é uma característica do prato ou se ele foi executado de maneira errada naquela ocasião, mas fiquei bastante decepcionada com o que foi apresentado. As guarnições não enalteceram a proteína ou consertaram o prato, mas estavam corretas.

Para a sobremesa, pedi a opinião do humilde garçom que, acostumado a servir e não emitir opiniões ao comensal, não entendeu direito a minha intenção. Ainda tímido, ele cedeu e entregou que sua sobremesa favorita é o pudim de tapioca, feito com leite de coco e leite condensado e servido com calda de coco queimado. Pronto. Decidido. E, obrigada, garçom, você estava certo. Não é necessário provar as outras sobremesas para saber que essa é a melhor. O pudim é algo de sensacional. De textura suave, ele é consistente mas desmancha na boca, ao mesmo tempo. É doce na medida, e o leve amargor da calda de coco queimado faz o contraste com a doçura, assim como as lascas de coco complementam a textura macia do pudim. Sonharei com esse pudim, é certo.

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Apesar de irregular, a refeição me fez feliz. Porque provou, mais uma vez, que boa comida não precisa ser cara e porque me fez sair da minha zona de conforto e me aventurar em uma região da cidade que eu nunca conheceria não fosse a busca por essa comida da qual se fala tanto e tão bem.

O atendimento eficiente, além da comida, em geral muito boa, foi outra surpresa. Não espere paparicação, mas espere ser prontamente atendido quando sentar à mesa, sua comida vir muito rapidamente e, apesar da lotação máxima e de todos os petiscos e caipirinhas sendo servidos para a fila quilométrica do lado de fora, nenhum pedido ser esquecido ou trocado.

Acredito que certas escolhas de Rodrigo Oliveira sejam cruciais, começando por contratar apenas pessoas que morem na região e que não tenham experiência em cozinha. Dessa forma ele está valorizando o bairro e incluindo mão de obra que normalmente viajaria horas de transporte público para chegar ao trabalho, além de cultivando eficiência e amor à comida do início. Manter-se no bairro, mais que valorizar as raízes é um ato de cidadania, e uma escolha corajosa e inteligente. Servir comida sem afetação, por fim, é algo que todos que cozinham, profissionalmente ou não, devem aprender a fazer, se ainda não o fazem. E vida longa ao Rodrigo na cozinha.

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MOCOTÓ

Av. Nossa Senhora do Loreto, 1100, Vila Medeiros, São Paulo

TEL: (11) 2951-3056

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