Real Beleza: a nova aventura de Jorge Furtado

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Nos últimos anos, Jorge Furtado demonstrou amadurecimento como cineasta e se aventurou por águas nunca antes exploradas. Depois de Saneamento Básico, o Filme (2007), alguns curtas e telefilmes, veio o primeiro documentário de sua carreira, O Mercado de Notícias (2014), ainda inédito para mim. Se o início de sua carreira foi marcado por curtas-metragens que abordavam temas mais sérios, caso do excelente e premiado Ilha das Flores (1989), seus longas, ainda que abordados de maneira profunda, são predominantemente filmes leves, com um bom nível de humor.

Aventurar-se fora de sua zona de conforto parece ter criado confiança em Jorge que, esse ano, lançou o Real Beleza, um drama denso que me surpreendeu profundamente, tanto pela realização impecável quanto pela roupagem que, em momentos, chegou a me lembrar Ingmar Bergman, algo que eu nunca esperaria de Jorge Furtado.

O protagonista João, interpretado por Vladimir Brichta, é um fotógrafo decadente que pretende retomar sua carreira e, para isso, parte para o sul do Brasil, em busca de uma nova modelo. Ele conhece Maria (Vitória Strada) e se encanta com sua beleza, mas a menina enfrentará a oposição do pai (Francisco Cuoco). João, vendo em Maria sua última chance, investe os dias que ainda tem na cidade tentando convencê-lo, e enquanto isso passa a conhecer melhor a mãe de Maria (Adriana Esteves).

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Falar mais que isso é estragar a experiência de ir sendo apresentado aos personagens aos poucos. Cada um deles, especialmente Anita, a mãe de Maria, e Pedro, o pai, surpreende o espectador no decorrer do filme, sofrendo transformações ora poéticas, ora emocionantes, mas sempre verossímeis.

A história toma seu tempo, e talvez a introdução seja longa demais, ou até desnecessária. É no primeiro ato que moram os planos mais esquisitos do filme e alguns deslizes de direção.

No segundo ato, no entanto, o filme toma outro rumo, o da simplicidade e da total ausência de pretensão. Enquanto eu ainda estava incomodada com o início do filme, os diálogos entre João e Anita foram me conquistando, assim como os planos e movimentos de câmera usados de maneira precisa – e talvez inusitada –, em momentos cruciais. Quando vi, estava totalmente submersa na trama, envolvida com os personagens e suas relações complexas.

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A atuação de Vladimir é correta. Quem brilha mesmo é sua esposa na vida real, Adriana Esteves, que entrega um trabalho permeado de nuances, sutilezas e belezas. Francisco, que eu não via atuando há tempos, faz um trabalho comovente. A direção de Jorge, por fim, é irregular, mas impressionante, porque, de maneira geral, usa o texto da melhor maneira possível, intercalando diálogos com silêncio de maneira muito equilibrada, distribuindo pelos cenários objetos que dialogam com o espectador sem forçar a barra, extraindo atuações sensíveis que contam histórias apenas com os olhares. Estou ansiosa para ver o próximo passo de Jorge Furtado.

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