Jiquitaia: duas visitas em duas semanas

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Numa cidade onde pululam restaurantes pretenciosos e ruins que, apesar da comida mediana ou ruim e dos preços abusivos, são sucessos inexplicáveis de público, estabelecimentos como o Jiquitaia são um oásis. Tocado pelos proprietários (e irmãos) paranaenses Marcelo e Carolina Corrêa Bastos – ele lidera a cozinha, ela lidera o salão – o menu é enxuto, mas cheio de propostas interessantes, baseadas no bom  uso de ingredientes de qualidade, na simplicidade, na cozinha brasileira. No almoço, o menu muda todos os dias e a refeição custa R$ 46,00 (entrada, prato principal e sobremesa). No jantar, o menu se manteve o mesmo nos dois dias em que estive (terça e sexta), e a refeição custou R$ 65,00 (entrada, prato principal e sobremesa). Mas também é possível pedir os pratos separadamente. Interessante, não?

Escolhi o Jiquitaia para um jantar em família. Estávamos recebendo parentes de Natal e como não nos vemos com frequência, queria jantar num lugar descontraído, tranquilo, de boa e barata comida, onde pudéssemos colocar a conversa em dia. Eu nunca tinha ido ao Jiquitaia, mas são tantos os elogios ao lugar, que decidi que deveria ser uma boa pedida para a ocasião.

Fiz a reserva com antecedência, já que éramos um grupo de sete pessoas, e na terça-feira, chegamos mais cedo. Enquanto aguardávamos o restante do grupo, pedimos bebidas e escolhemos os pratos.

Não tive tempo de julgar a comida antes de julgar o atendimento, que foi péssimo. Fomos muito bem recepcionados por uma simpática garçonete, que foi responsável pela minha reserva, mas nosso garçom não parecia estar em um bom dia, ou talvez não entenda o valor de um bom atendimento. As dúvidas quanto aos pratos foram respondidas com muita má vontade e, ao contrário do que era meu desejo inicial, de poder ficar à vontade e, além de comer bem, poder conversar e escolher os pratos com calma, me senti pressionada o tempo todo a agilizar os pedidos, meu e dos outros. A antipatia foi acompanhada de falta de cuidado, quando, por exemplo,  esqueceu de trazer uma bebida que havia sido solicitada e quando esqueceu de abrir uma garrafa de cerveja que não poderia ser aberta com as mãos.

Mais que descontente com o atendimento, fiquei constrangida por ter feito a sugestão do lugar. E frustrada, porque conheço minimamente o trabalho dos proprietários e o comportamento do garçom não condizia com o padrão que eu imaginava ser o adotado pela casa.

A comida salvou a noite. Tudo estava bom, preparado com esmero, e houve pontos altíssimos, o que me instigou a retornar várias vezes para provar o cardápio inteiro.

Comecei com a famosa entrada de batata doce, queijo gorgonzola, castanha do Pará e pimenta biquinho, na minha cabeça, uma combinação inusitada, e que na prática dá muito certo. A doçura da batata é bem complementada pelo sal do gorgonzola e a crocância da castanha de ótima qualidade torna o prato mais interessante, enquanto a pimenta e uma redução de balsâmico dão um toque final levemente ácido e picante.

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O Marcelo escolheu a também famosa linguiça artesanal picante com salada de batata. Para o meu gosto, a linguiça é picante demais, embora seja saborosíssima. A tolerância dele a pimenta é mais alta que a minha, e por isso, para ele, a linguiça estava perfeita, e a salada de batata, complementava-a perfeitamente.

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Escolhi o prato principal pensando em uma das minha proteínas favoritas: arroz de pato no tucupi com magret. O ponto do magret estava perfeito. O arroz estava gostoso, mas senti que o tucupi predominou além do ideal, tornando o prato monotônico.

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O prato do Marcelo, por outro lado, estava sensacional. A generosa costelinha com barbecue de tamarindo e mandioca frita estava incrível, no ponto certo e saborosa. O barbecue era um bom complemento e a mandioca foi uma das melhores que provei na vida: super crocante e sequinha por fora e super macia por dentro. Perfeição.

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Para a sobremesa, recusei o cheesecake que já foi considerado por alguns o melhor da cidade porque a calda original de jabuticaba foi trocada, naquele dia, por amora. No lugar dele, pedi a goiabada com creme de queijo. A goiabada tinha boa textura e não era exageradamente doce e o creme de queijo era aerado e levemente salgado. Boa sobremesa.

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O Marcelo pediu o brigadeiro com farofa de pé de moleque, que parece ordinário, mas não é. Qual é o segredo, eu não sei, mas a textura desse brigadeiro é intrigante.

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O serviço não foi perfeito. Os pratos demoraram a chegar, tornando os intervalos entre eles muito grandes. Acho perdoável dado o tamanho da cozinha e o tamanho da nossa mesa, mas de qualquer maneira, é um ponto a melhorar. Na saída, a mesma garçonete que nos recepcionou, se despediu, de forma calorosa, o que reforçou minha teoria de que o problema com o garçom que nos atendeu é pontual. Por isso, no dia seguinte, liguei para falar a respeito com a Carolina.

Como não consegui falar, enviei um email, relatando toda a experiência, e recebi uma resposta sincera, atenciosa e humilde, o que fez a casa ganhar pontos imediatamente. Empresários que não acompanham seus negócios de perto tendem a não enxergar problemas latentes ou recorrentes, simples e de fácil resolução, o que pode levá-los ao fracasso apesar dos seus muitos esforços. Quando há um canal aberto entre o estabelecimento e o cliente, ambos se beneficiam.

Como um pedido de desculpas, fomos convidados para jantar lá novamente. Eu não tinha certeza se ia ter que pagar ou não pelo jantar, mas sinceramente isso não me importava. Fiquei satisfeita com o retorno da Carolina e a esperança de que o problema seria solucionado da melhor maneira para todos (funcionários, proprietários e clientes). E como eu já tinha mesmo vontade de voltar para provar outros pratos atraentes, aproveitei o convite.

É claro que os esforços, nesse dia, seriam extremos. Eu sabia que não poderia julgar o restaurante por esse segundo jantar, como também não seria justo julgá-lo somente pelo primeiro. O veredicto virá com mais visitas, que certamente acontecerão, porque o que mais se elogia na mídia especializada (e não) é o excelente custo-benefício e, não vou negar, esse é realmente o grande trunfo da casa.

Nessa segunda visita, fomos recebidos pela Carolina e atendidos por outro garçom, de postura completamente diferente da do anterior. Ele foi atencioso do início ao fim, sem ser invasivo. Os pratos foram servidos num ritmo correto, e a comida estava ótima, como da primeira vez.

O Marcelo repetiu a entrada e eu decidi provar a morcela com compota picante de abóbora e folhas, que estava divina. Minha lembrança negativa de chouriço que tinha da infância e o preconceito com sangue foram completamente sobrepujados por uma textura suave e muitos condimentos combinados perfeitamente, que nada tinham a ver com o embutido provado anos atrás.

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O prato principal do Marcelo também foi repeteco, e eu provei a bochecha suína com creme de milho e pimentas de cheiro. A carne estava cozida perfeitamente e era de uma maciez absurda. Seu molho e os acompanhamentos a complementavam bem. Foi a primeira vez que provei esse corte e só consigo me perguntar: por que ele é tão subutilizado se é tão delicioso?

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Para a sobremesa, o Marcelo foi de bolo de coco gelado, que, como o tradicional servido em festinhas, veio embrulhado em papel alumínio. O sabor do bolo, como sua apresentação, também se assemelhava muito aos melhores bolos de coco gelados que provei na vida, mas não tinha nada de especial.

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A minha sobremesa, no entanto, faz jus à fama. O cheesecake com calda de jabuticaba (tinha jabuticaba nesse dia) é absolutamente sensacional. Etéreo e cremoso ao mesmo tempo, ele desmancha na boca e a calda de jabuticaba é deliciosa e ácida na medida para cortar o queijo da torta. Talvez seja meu cheesecake favorito de São Paulo.

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Finalizei o jantar com um ótimo café de coador. Fiz uma tentativa de pagar a conta, aos menos as bebidas, que foi recusada. A Carolina queria que fosse mesmo um pedido de desculpas, e apesar de eu ter ficado um pouco constrangida, não tive outra opção, a não ser aceitar.

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Entendo que tivemos tratamento especial nesse dia. Mas dou valor para a importância que a casa dá a um cliente individualmente. Na primeira visita, como nossa turma era grande, sentamos no salão secundário, e não vi nem a Carolina, nem o Marcelo trabalhando na cozinha. Dessa vez, pude ver ambos. Ralando. E pude também enxergar uma equipe coesa e disposta. Mau atendimento me faz não ter vontade de voltar, por mais genial que seja a comida. E fico satisfeita que, nesse caso, poderei retornar sem medo. Por via das dúvidas, nas próximas vezes vou procurar o garçom atencioso, e não o mal humorado. Vai que.

JIQUITAIA – Rua Antonio Carlos, 268, Consolação – tel: (11) 3262-2366

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