Dia dos Namorados no Jun Sakamoto

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Fazia tempo que eu sonhava com uma comida japonesa deliciosa. Sashimis bem cortados e nada de salmão ou, pior, truta salmonada. Nada contra salmão, mas a costa brasileira tem uma variedade enorme de peixes e é como se tivesse só uma. Aliás, que eu saiba a maior parte do salmão consumido aqui nem da nossa costa é. Sushis de verdade, autênticos, e, mesmo que não tradicionais, respeitosos dos ingredientes principais (o peixe, no caso). Cream cheese e outras aberrações não entram na categoria, ok? Rodízio também está fora de cogitação, porque frescor é o mínimo que se espera de qualquer comida, ainda mais de algo tão delicado como as iguarias em questão.

Como viver está caro demais, e a matéria-prima utilizada na confecção dos almejados sushis e sashimis é, de modo geral, cara, preferi fazer jejum a me contentar com aquelas monstruosidades que chamam de temaki esquinas afora, ou redes-de-fast-food-de-praça-de-alimentação-de-shopping que servem arroz duro e seco e hot rolls doces (!). Investir num jantar de (suposto) alto nível, gastronomicamente falando, me parecia mais interessante.

E para um jantar especial, nada como uma data especial para justificar a esbórnia. Assim, tomei a decisão mais difícil do ano (desse e de todos): escolher o restaurante para o Dia dos Namorados. Não que seja uma data tão importante assim, ou que não haja muitas possibilidades interessantes em São Paulo, mas porque eu nunca me lembro de fazer a reserva com antecedência, e se alguns restaurantes já são difíceis de reservar normalmente, no dia 12 de junho, então, é bom que se lembre da data com pelo menos um mês de antecedência.

E foi com toda essa antecedência que decidi conhecer o Jun Sakamoto, controverso, caro, mas ainda cultuado. Como boa curiosa e precavida que sou, pesquisei um monte antes de reservar. Fiquei em dúvida entre outros três: Kinoshita, Hamatyo e Shin Zushi.  Acabei decidindo pelo Jun baseada na suposta irregularidade do Kinoshita, na ausência de clima romântico do Hamatyo e nos preços imprevisíveis e atendimento ruim (da dona) do Shin Zushi. Veja bem, não foi por conta dos méritos do Jun que fiz minha escolha, mas para a data me pareceu mais apropriado.

No ato da reserva, fui informada de que o balcão do Jun estava lotado e que havia lugar apenas no balcão do assistente e nas mesas. Eu sempre prefiro o balcão em restaurantes japoneses, porque testemunhar o processo é, para mim, quase tão prazeroso quanto degustar o produto final. Com aura de estrela, Jun lota seu balcão logo, mas eu não me importei em provar as preparações do assistente, principalmente porque sabia que ele não era mais o também famoso Zé (José Francisco Araújo, atualmente no Huto). Zé, apesar da experiência, e talvez justamente por conta dela, aparentemente andava desagradando alguns comensais por tratá-los com certo desdém. E mal atendimento é algo intolerável, não é mesmo? Também me informaram que no balcão seria servido o menu degustação, mas não disseram o valor, que as fontes mais atualizadas apontavam como sendo 330 dilmas por cabeça.

Na segunda-feira que antecedia o Dia dos Namorados (que, nesse ano caiu numa conveniente sexta-feira), recebi uma ligação do restaurante, informando que, devido às frequentes desistências nessa data, o restaurante solicitava aos clientes que fizeram reserva, o pagamento adiantado da degustação, como forma de garantia, já que o restaurante é pequeno e a lista de espera, grande, etc etc etc. Pega de surpresa, aceitei, até porque já era tarde para desistir e arriscar comemorar a data em casa ou numa fila de um restaurante qualquer. Depois, ultrajada com a situação a que fui submetida, escrevi um email onde expus meus motivos para discordar veementemente de tal ação. Fiquei me perguntando se grosseria desse tamanho é válida na relação íntima que se estabelece entre um cliente em potencial e uma casa desse nível. E, pior, me pareceu uma decisão tomada de última hora, o que fez me sentir refém da situação. É provável que eu não me incomodasse tanto se essa condição fosse exposta no momento da reserva, com um mês de antecedência, quando eu ainda tinha boas possibilidades de escolher um bom restaurante para jantar, onde a conta, mesmo que ainda mais astronômica, pudesse ser convertida em milhas no meu cartão de crédito.

O próprio Jun respondeu o email, o que considerei um ponto positivo, mas apenas reforçou o que já havia sido dito. Na minha tréplica, aceitei a condição, mas deixei claro que, me deixava uma primeira impressão negativa, e pedi que reavaliassem o procedimento para o futuro. Fiz o depósito e logo em seguida recebi nova resposta do Jun, que gentilmente abriu mão da cobrança, ainda que tarde demais.

No dia, tentei zerar a mente para que pudesse ter uma experiência agradável e aproveitar a comida. O ambiente é aconchegante e elegante e, ao contrário do que ouvi de muitos, não me senti intimidada. O serviço me pareceu um tanto quanto atrapalhado, apesar de atencioso. Uma chamada por parte do assistente de Jun, Cássio Hara, à equipe me confirmou que algo não estava correndo bem. Houve uma certa demora para o início do serviço, mas nada imperdoável. A surpresa desagradável da noite, no entanto, foi descobrir que comeríamos metade dos sushis servidos normalmente no menu degustação, que consta de uma entrada, dezesseis peças de sushis, um prato quente e sobremesa.  O menu “especial” de Dia dos Namorados contava com duas entradas, oito peças de sushis, um prato quente, uma sobremesa e uma taça de espumante rosê. Pelo mesmo valor do menu degustação normal. Por um lado, tínhamos o espumante gostoso e uma entrada a mais. Por outro, perdemos OITO sushis. Os sushis, normalmente escolhidos pelo chef, como uma degustação que se preze deve ser, deveriam ser selecionados por nós, de uma lista pré-determinada e mais enxuta que o normal. Não tinha a opção do uni (ouriço-do-mar), que eu adoro, por exemplo, nem carapau ou beijupirá, que eu não conheço e estava louca para provar. Fiz uma seleção, ainda assim, respeitável, e me conformei com a quantidade.

A primeira entrada foi um tartar de atum com foie gras e gelatina de shoyu, que estava excelente, apesar de eu não ter percebido a presença do foie. O prato foi servido em cima de gelo moído, o que lhe conferiu a temperatura exata, e a gelatina de shoyu estava saborosa, não excessivamente salgada e complementava o atum perfeitamente.

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A segunda entrada foi um tempurá de ovo de codorna com azeite trufado e crisps de alho-poró. O tempurá estava bom, apesar da falta de sal que não sei se é proposital, porque o resultado não é de todo desagradável, já que confere sutileza e delicadeza ao prato. O ninho de alho-poró é um bom complemento.

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Os sushis foram todos belamente executados pelo Cássio, que foi bastante simpático e conversou conosco sobre comida, nossos restaurantes japoneses favoritos e trabalhos anteriores. Sei que o Jun não é muito de conversar, e como eu gosto de falar sobre a comida quando sento no balcão, senti que foi vantagem me sentar no balcão do Cássio. E que fique claro: ele não foi inconveniente ou invasivo em nenhum momento, por isso tenho certeza que se você não for adepto a conversas no jantar, não vai ser incomodado.

O arroz do sushi é perfeito, na temperatura, textura e sabor. Por muitas vezes subestimado, no Jun Sakamoto ele é tratado com o respeito que lhe é devido.  Os peixes e frutos-do-mar, frescos, bem cortados e complementados. A ordem dos nossos escolhidos foi: toro (atum gordo), buri (olho-de-boi), suzuki (robalo), tai (pargo), saba (cavalinha), ika (lula), hotategai (vieira) e ikura (ovas de salmão). Gentil, o Cássio pediu que escolhêssemos mais um sushi para degustar, e por sua sugestão, escolhemos o sake (salmão), que eu queria evitar, mas que ele garantiu que seria diferente dos salmões que se come por aí. O robalo vinha acompanhado com shisô, o que lhe conferia um sabor harmônico e surpreendente. Outro preferido foi a cavalinha, com gosto pronunciado de mar. As ovas de salmão, a vieira (maçaricada) e a lula (com sal negro do Havaí) são velhos amores, e estavam deliciosos. O toro estava menos gordo do que considero ideal, mas o salmão compensou, gordo que só, apesar de um pouco duro. No Jun Sakamoto, os sushis vêm temperados e não há wasabi extra ou vidros de shoyu pelo balcão, o que pode parecer estranho, mas faz total sentido, já que o chef deve servir o prato completo, e escolher os temperos que melhor o servem. Alguns sushis levavam pincelada de shoyu, enquanto outros eram temperados com sal, como a lula. Yuzu, um cítrico japonês, temperava alguns deles e o wasabi era servido de maneira mais branda ou mais generosa, dependendo do que estava complementando.

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A opção de prato quente que escolhi foi a merluza, que desmanchava na boca, mas tinha a pele murchinha, e não crocante como considero ideal. O Marcelo foi de rolinhos de wagyu (raça bovina que produz o kobe beef), que tinham um recheio, mas não me lembro de quê (também esqueci de fotografar). O tempero do prato era bom, mas a carne estava passada (fora que não vejo a menor necessidade de servir carne de wagyu em pedaços tão finos, já que a qualidade da carne tornou-se inexpressiva no prato). Em ambos, senti falta de uma guarnição. Meu peixe solitário também sentiu falta de um companheiro comestível no prato.

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Para a sobremesa, ambos pedimos o famoso sorvete de maçã verde com gelatina de sakê. O sabor do sorvete era bom, mas senti alguns grânulos, não sei se de cristais de gelo que não deveriam estar lá. A gelatina, feita de algas agar-agar chama-se kanten, era deliciosa e complementava o sorvete muito bem.

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Por fim, serviram, de cortesia, um licor de umê, um tipo de ameixa japonesa, que finalizou o jantar de maneira simpática e agradável.

Apesar de irregular, a refeição há de ser respeitada. A qualidade da matéria-prima é evidentemente alta e a forma como é manipulada, admirável. O chef Cássio Hara e o maître abrilhantaram a experiência com sua simpatia, e compensaram o serviço um pouco atrapalhado no salão. O ambiente é perfeito para jantares a dois. E tenho dificuldade de apontar um restaurante japonês bom como esse em São Paulo. Por tudo isso, certamente voltaria, e só não o faço de imediato porque o custo é alto (Atualmente, o menu degustação custa R$ 350,00 por pessoa.) para uma refeição que não é impecável. A história da reserva me incomodou, mas as compensações posteriores me fizeram relevá-la. No entanto, o fato de cortarem o número de sushis servidos pela metade e cobrarem o preço normal nessa data, me incomodaram profundamente. Imagino que se tivesse sido avisada no momento da reserva, teria deixado para conhecer a casa em outra ocasião, onde meu dinheiro valeria mais e minha impressão provavelmente seria muito mais positiva. Por isso, recomendo fortemente que se conheça o Jun Sakamoto, mais porque ainda não conheci a casa ideal, e certamente não porque a relação custo/benefício seja excelente.

JUN SAKAMOTO – Rua Lisboa, 55, Pinheiros – tel: (11) 3088-6019

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2 comentários sobre “Dia dos Namorados no Jun Sakamoto

  1. Caramba Juliana, que review inusitada, mas não fico surpreso por ser no Jun. (In)felizmente não fui ao Jun, lá no blog a review é de um colaborador meu.

    Mas são reviews dessas como a sua que me deixam com o pé um pouco atrás, sabe, como assim não vão servir 16 sushis??? COMO ASSIM??? O Jun é famoso pelos sushis…e ainda cobram 350,00, o mesmo preço, para um omakase sem todos sushis… Ele deu uma de Shin Zushi heim…

    Por falar nisso, ótima análise do Shin e Hamatyo, rs =) Shin Zushi eu só vou se tiver certeza que terei um bom atendimento, não dá pra queimar dinheiro não…

    abraços

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    • Pois é, apesar de ter ficado muito satisfeita com a comida, em geral (mais com os sushis que com os pratos quentes), esse cardápio “especial” de dia dos namorados me decepcionou muito. Vai ser difícil eu voltar. Tem tantos restaurantes japoneses que quero conhecer que não sei se tenho coragem de correr o risco de ser enganada de novo…
      Um abraço.

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