Snowpiercer: um filme subestimado

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Snowpiercer, ou Expresso do Amanhã, como foi intitulado no Brasil, é um feito cinematográfico, do ponto de vista comercial. Dirigido pelo sul coreano Joon-ho Bong, diretor de Gwoemul (O Hospedeiro, 2006), o filme, apesar do elenco essencialmente norte americano/inglês e da língua falada, é uma produção da Coreia do Sul, que teve uma exibição limitada pelo mundo, inclusive nos EUA. Inicialmente, os direitos de distribuição haviam sido comprados pela The Weinstein Company, gigante norte americana que, após ter as exigências de alterações na montagem do filme negadas pelo diretor, passou a distribuição do filme para um braço da empresa, a Radius, o que significou um lançamento restrito a poucas salas nos EUA. O sucesso de crítica e público, no entanto, forçou a empresa a expandir o lançamento a 150 salas. No Brasil, apesar do anúncio de estreia em junho de 2014, o filme acabou sendo lançado direto em DVD e Bluray, o que fez dele um desconhecido por aqui, e por sua qualidade cinematográfica, um aspirante a cult.

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Vivemos um momento de avalanche de distopias na literatura jovem adulto e no cinema blockbuster, e Snowpiercer definitivamente não faz parte desse grupo. A história universal poderia se encaixar em qualquer época da história e em qualquer lugar do planeta, seja ele um país ou uma pequena comunidade, e mesmo que haja elementos alheios à nossa realidade, como o próprio trem onde a história se passa, o Snowpiercer, e situações cuja abordagem fantástica não nos remeta a nada familiar, é possível entender claramente as motivações de todos os personagens, do mocinho ao vilão que, aliás, vão sendo reveladas aos poucos, e nunca de forma gratuita.

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Os personagens, inclusive, são o foco do filme, como deve ser. Há cenas de luta memoráveis, por exemplo, mas o que importa no filme são os habitantes desse trem autossustentável, que os salvou do inóspito e gelado mundo que o planeta Terra se tornou, mas que reprime, enclausura, diminui. Dividido por classes, como em um trem do nosso mundo, ou um avião – o que não deixa de ser consequência e representação do mundo como um todo – os mais ricos desfrutam do mais alto luxo que o trem pode oferecer: de spas a boates, de sushi a champanhe.  Enquanto isso, o grupo dos menos afortunados, os free loaders, como são pejorativamente chamados, vive em péssimas condições de higiene, com alimentação escassa e de baixa qualidade, sem conforto algum, ameaçados e reprimidos constantemente. Eles formam uma reserva de mão de obra escrava, uma classe trabalhadora utilizada conforme surgem as necessidades da elite, e que vive em condições subumanas enquanto ainda não tem utilidade.

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A classe baixa é liderada por Curtis, interpretado por um quase irreconhecível Chris Evans, e surpreendentemente bem, diga-se de passagem. Ao lado de seu mentor, Gilliam (Jonh Hurt), e do jovem Edgar (Jamie Bell), nascido e criado no trem, Curtis vai liderar uma rebelião que visa atravessar toda a extensão do trem, do fundo, onde eles vivem, à frente habitada pelos verdadeiros free loaders, chegando à extrema ponta onde o motor do trem é protegido e controlado pelo seu criador, o venerado Wilfrod (Ed Harris). Durante o percurso, os guardas de Wilford, liderados pela cruel e bizarra Mason, interpretada por Tilda Swinton, também quase irreconhecível (e ótima, como sempre), enfrentam os homens de Curtis de forma impiedosa.

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O nível alto de crueldade e violência física do filme revela que se trata, de fato, de um filme de origem que não americana, e ilustra de forma adequada uma boa história. Se ela não é novidade, a maneira como é conduzida por Joon-ho Bong é. Não há arestas no roteiro, o que torna a experiência do espectador imersiva, emocionante, única. Os contrastes visuais entre o mundo rico e o mundo pobre são evidentes e quase exagerados, encaixando-se bem no filme enquanto ficção científica ou enquanto drama político, de forma a aproximar aquela realidade à nossa independentemente do absurdo aparente. A sensação claustrofóbica experimentada pelos passageiros é tão bem retratada que sentimo-nos, nós espectadores, também enclausurados, como nos sentimos na vida real, oprimidos pelos mais poderosos, pelas amarras da sociedade, pelo governo ditatorial e vigilante, que atuam, na maior parte de tempo, de forma mais sutil, mas podem chegar a extremos e criar limitações espaciais como as do trem, que aparentemente protegem, mas causam mais mal que bem. E por isso a identificação com o filme é tão forte, imediata e perdura.

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