O bom, barato e não tão bonito Chi Fu

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Todo bom paulistano que gosta de comer deve conhecer o Chi Fu, restaurante chinês que ficou famoso há alguns anos. Eu devo conhecê-lo há pelo menos dez anos, quando o público era bem restrito e eu, apesar dos olhos puxados, me sentia uma intrusa com minha descendência japonesa e atitude brasileira. E, confesso, me senti intimidada pelas garçonetes, pelos convidados especiais que atravessavam o salão em direção a um lugar misterioso e me faziam ter certeza de que se tratavam de mafiosos e pelo cozinheiro que apareceu certa vez no salão com um avental imundo, como se trabalhasse numa oficina mecânica, e não numa cozinha. Para ser sincera, toda essa aura estranha anulou o sabor da comida, e eu já nem me lembro se gostei ou não.

Depois de uma reforma e de o lugar ter ganhado as bocas dos paulistanos (ou as bocas dos paulistanos terem ganhado o lugar), decidi tentar novamente. E as estranhezas continuavam, mas mais amenas. O atendimento continuava ruim e a conta continuava vindo em chinês, o que torna uma conferência impossível.  Mas com a presença de tantos clientes ocidentais, me sentia um pouco menos deslocada. Dessa vez, consegui me concentrar na comida e perceber o quão deliciosa ela é, principalmente levando-se em conta os preços.

Depois dessa redescoberta, passei a frequentar o Chi Fu com certa assiduidade, especialmente depois que passei a morar bem perto de lá, há quatro anos. A única dificuldade é escolher os pratos. Eles são grandes e servem de duas a quatro pessoas (dependendo da fome), e por isso o ideal é ir em grupos grandes para poder provar várias coisas diferentes.

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Na minha última visita, estávamos em cinco. Minha intenção era provar pratos inéditos. O cardápio é enorme e apesar do foco em frutos do mar, há pratos de carne, frango, porco, pato, vegetarianos, sopas, e a abrangência vai dos mais populares entre os brasileiros até os mais desconhecidos e familiares apenas aos chineses e descendentes. Porque o trânsito de São Paulo é imprevisível mesmo quando esperamos o pior dos trânsitos, duas pessoas se atrasaram e para enganar a fome, pedimos uma porção (6 unidades) de rolinhos primavera. A massa estava super crocante, um pouco oleosa, mas nada além do aceitável para esse tipo de quitute, e o recheio, delicioso e na quantidade certa: nem demais nem de menos. Mas a melhor parte era o molho agridoce, aquele vermelho que por aí se faz com muito corante e lá se faz com muito sabor. Eu desejo muito essa receita, porque não tenho capacidade de decifrá-la por conta própria, mas sei que molhos complexos tem receitas guardadas a sete chaves.

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Na hora de escolher os pratos propriamente ditos, resolvi provar a sopa de wonton. Se eu tivesse que compará-la com algo, seria com um capeletti in brodo, que tem um caldo bem claro e suave, e massas recheadas com carne cozidas no caldo. A sopa não estava fantástica. Para mim faltava sabor, mas talvez essa suavidade seja intencional. Os wontons, bolinhos feitos com massa bem fina e recheio de carne de porco, têm textura muito agradável, e iam bem com a acelga chinesa (bok choy) que havia no caldo. Ah, e ela é enorme, como os outros pratos que pedimos nesse jantar, serve de duas a quatro pessoas.

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Eu adoro as ostras com daosi no vapor, mas como eles não tinham ostras no dia, pedi a lula com daosi e pimenta, que estavam cozidas no ponto certo, apimentadas no ponto certo e super saborosas. Mas continuo preferindo as ostras.

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O Marcelo adora o lombo agridoce e devo confessar que, apesar de ser um prato mais comum e velho conhecido, o do Chi Fu é excelente e vale a pena pedir toda vez que vamos. A massa que envolve os pedaços de porco tem um sabor especial e uma textura perfeita, crocante e nada oleosa. O molho agridoce é delicioso, bem como o que acompanha os rolinhos primavera, e a cebola e o pimentão vem crocantes, mas não crus.

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O terceiro prato escolhido foi a carne na chapa. A carne fatiada fininha, como a que vai no sukiyaki, vinha acompanhada de legumes, e estava boa, mas nada excepcional. Para acompanhar os três pratos, pedimos o infalível risoto chop suey, acima da média.

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De sobremesa, pedimos o costumeiro leite frito que recentemente mudou de nome para pudim de leite frito, provavelmente porque o nome antigo causasse confusão. O que seria leite frito, afinal? São pequenas porções fritas de uma espécie de flan docinho, empanadas em uma massa que lembra a do tempurá e fritas. Para acompanhar, o leite frito vem com um pouco de leite condensado. É inexplicavelmente gostoso. Simples, de manufatura que não deve ser tão simples assim, a fritura doce consegue ser leve, e a mistura de texturas é incrível.

A conta deu 66 reais por pessoa (sem taxa de serviço, com bebidas alcoólicas) mas a quantidade de comida que pedimos alimentaria facilmente 10 pessoas (o que daria 33 por cabeça, sem contar bebidas para as cinco cabeças extras). Somando a melancia de cortesia que eles servem impreterivelmente, o atendimento descuidado (dessa vez, fomos atendidos por um garçon brasileiro, o único do salão, que em determinado momento se sentou em nossa mesa), a limpeza que não é lá essas coisas e a festa de aniversário que acontecia no segundo andar, com direito a um barulhento karaokê, a balança ainda fica no positivo, disparada.

Entendo que o choque cultural nos faça avaliar o atendimento como ruim. As garçonetes chinesas parecem mal humoradas e descuidadas, mas talvez seja apenas uma consequência do óbvio: as diferenças culturais. O garçon brasileiro mais parecia um malabarista, indo de lá a cá, traduzindo pedidos para as chinesas mesmo não entendendo uma palavra em chinês e tentando corrigir erros no salão, como se fosse um maître sem preparo. Portanto, relevamos o atendimento mais ou menos e demos uma gorjeta de 10% mesmo sem a cobrança. A limpeza das mesas, para os meus parâmetros, poderia ser melhor, mas não era nada que se comparasse a mesas de uma praça de alimentação de um shopping, por exemplo. E, confesso, a imagem do avental imundo daquele cozinheiro de anos atrás me causou tamanha má impressão que tenho medo de conhecer a cozinha do Chi Fu e nunca mais ter coragem de ir. Por isso, deixemos a limpeza para lá. O karaokê do evento especial era tão invasivo que se tornou engraçado, no final das contas.

Por outro lado, a comida, de forma geral, estava excelente, e os preços, quase ridículos se comparados a qualquer restaurante em São Paulo hoje em dia. E entendo que as exigências devem ser feitas de maneira proporcional. Ou seja, não há de se esperar um serviço sofisticado num quiosque de praia, apenas preços justos e condizentes com a comida servida, que deve ser preferencialmente super fresca, além de um atendimento cordial, que nunca matou ninguém. Da mesma forma, num restaurante estrelado, que cobra 12 ou 15% de serviço e tem um chef renomado no comando da cozinha, espera-se o melhor, seja na qualidade da comida, no atendimento ou na música (ou ausência de) ambiente. Por isso, o Chi Fu é, na minha opinião um dos melhores lugares para se comer em São Paulo.

CHI FU – Praça Carlos Gomes, 200, Liberdade – tel: 3101-8888

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