Chappie: problemático e adorável

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Eu adorei Chappie. O que não significa que eu o considere um filme excelente. São duas coisas diferentes, veja bem. Depois do estrondoso e merecido sucesso do filme de estreia de Neill Blomkamp, District 9 (Distrito 9, 2009), que, apesar da temática e abordagem corajosas, surpreendentes e menos comerciais, é uma unanimidade, as expectativas em relação aos seus próximos feitos tornaram-se altíssimas. Não conheço alma viva que não tenha o filme em alto patamar, e concordo plenamente com essa posição. Por conta disso, a decepção com seu segundo filme, Elysium (2013), foi proporcional à expectativa criada. Apesar de um mote interessante e um elenco estelar, o filme não impactou como o primeiro. Com problemas de roteiro e direção, estima-se que as bilheterias não arrecadaram nem o valor para cobrir o orçamento. O contrário aconteceu com District 9, que arrecadou aproximadamente quatro vezes o valor de seu orçamento, mesmo sem nomes conhecidos no elenco e um diretor até então desconhecido.

Chappie não me inspirou no trailer. Mas, apesar do resultado insatisfatório obtido em Elysium, a curiosidade de ver se Neill se superaria ou ao menos alcançaria o feito de District 9, me fez ignorar a tão esperada estreia da semana para me acomodar na minúscula sala 8 do Itaú Frei Caneca e apreciar seu novo filme.

O primeiro ato é fortíssimo. A identidade visual criada pela direção de arte, figurino e caracterização dos personagens (maquiagem e cabelo), acompanhada da trilha sonora matadora do mestre Hans Zimmer e de uma direção inspirada, produzem uma introdução instigante e divertida, com efeitos visuais de cair o queixo e ótimas cenas de ação, que se mesclam com muito equilíbrio com os momentos mais dramáticos.

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Alguns personagens, no entanto, mostram-se unidimensionais ou apresentam arcos que não fazem muito sentido. Ninja, por exemplo, passa de vilão a herói em cinco minutos e, se forçarmos a barra, conseguimos entender suas motivações, mas não a forma como essa mudança brusca é apresentada. O vilão de verdade do filme, por sua vez, o recalcado Vincent Moore (Hugh Jackman), tem menos tempo de tela que o necessário, e é mal desenvolvido. Aliás, há muitos personagens e muitas subtramas para pouco tempo de filme. Tanto acontece que não há tempo de respiro para o espectador, e o que deveria causar emoções extremas, acaba sendo diluído e rapidamente esquecido. A impressão que fica é que houve problemas no desenvolvimento do roteiro e que muitas ideias que deveriam ser colocadas de lado ou substituídas, por exemplo, MOOSE sendo colocado em ação, foram equivocadamente mantidas. Ao tentar espremer tudo em 120 minutos, a história principal foi prejudicada. O segundo ato, principalmente, parece corrido, confuso e, em alguns momentos, mal dirigido, até.

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Apesar de todos os problemas, Neill fecha o filme bem, amarrando todas as pontas soltas de forma coerente e entusiasmante, com um final que lembra muito o de District 9. A discussão que Chappie levanta, apesar de não ser exatamente uma novidade (Robocop, Artificial Intelligence: AI e  I, Robot já abordaram o assunto), é outro ponto alto do filme, principalmente porque, como em seus outros dois filmes, a ficção científica está inserida num contexto muito real e palpável, onde os problemas socioeconômicos exercem um papel crucial na forma como a história é conduzida. Chappie, o personagem, é outro ponto alto do filme. Tanto atuação (Sharlto Copley) quanto captura de movimentos são impecáveis. Ele deve ser e é a estrela do filme, cativante, engraçado, surpreendente.

E por isso, eu adorei Chappie, apesar de saber que ele não é um filme excelente. E não perdi as esperanças em Neill Blomkamp.

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