E finalmente conheci o Tordesilhas

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Faz tempo que eu queria conhecer o Tordesilhas. Não acompanho muitos blogs de gastronomia porque, sinceramente, acho difícil confiar em opiniões pagas, seja com agradinhos, jabás ou cachês propriamente ditos. Não que todo blog profissional tenha más intenções ou falta de ética. Mas sei que, nos grandes, fica difícil manter uma postura imparcial, nos dias de hoje. E comida, para mim, é coisa muito séria. Uma das únicas opiniões na qual confio é a do blog Alhos, Passas & Maçãs, cuja leitura recomendo fortemente. Ele anda desiludido com a gastronomia brasileira, e não sei qual é sua atual opinião sobre o restaurante sobre o qual escrevo hoje, mas o Tordesilhas já recebeu muitos elogios em textos passados.

Aproveitamos a última edição do Restaurant Week para conhecer o premiado restaurante de comida brasileira que, há 25 anos e sempre sob o comando da chef Mara Salles, serve a famosa feijoada, o barreado, as moquecas e pratos menos tradicionais, mas sempre respeitando os ingredientes tupiniquins e a forma de cozinhar e de comer do brasileiro. Isso é o que eu sei, e imagino ser verdade, baseada na opinião de quem come no Tordesilhas há anos. Mas, quando coloquei os pés lá, a impressão que o restaurante me passou foi exatamente essa, mesmo sabendo pouco de sua história, que conheci melhor quando fui me informar para escrever esse post. O espaço, na Alameda Tietê (terceiro endereço da casa), é bonito, aconchegante e descontraído, como um restaurante de comida regional deve ser. Nada de afetações e firulas. Apenas o espaço necessário para acomodar um número razoável de comensais e alguns itens de decoração inspirados na cultura brasileira. A recepção foi calorosa e discreta, ao mesmo tempo, do jeito que eu gosto.

Tínhamos reserva para 20h30, e depois de receber um telefonema para confirmar a reserva e alertar que havia uma tolerância de 10 minutos, resolvi não dar sopa para o azar e para o trânsito imprevisível de São Paulo e sair de casa com bastante antecedência. Daí que chegamos bem mais cedo, 45 minutos mais cedo, mas fomos prontamente acomodados numa mesinha de canto, na parte da varanda, que eu achei perfeito, porque adoro ficar na área externa (ainda que a de lá seja devidamente coberta) e nos cantinhos onde a privacidade é maior e a circulação, menor.

Ficamos tentados com o menu: pato no tucupi, barreado, pirarucu, filhote e, claro, a famosa feijoada. A feijoada, teríamos que deixar para um almoço de sábado, e, como foi minha primeira experiência no Restaurant Week, decidi que queria provar o menu oferecido para o evento, até porque acho que a preocupação com a qualidade da comida do RW revela muito sobre o restaurante. Terei outras oportunidades para provar os clássicos (e os nem tão clássicos) do Tordesilhas, certamente, e achei a escolha dos pratos para o menu dessa edição bem boa.

Havia duas opções para cada prato (entrada, principal e sobremesa). Eu pedi um trio, o Marcelo pediu o outro, e ambos provamos todos os pratos. A entrada chegou rapidamente. Pedi o gaspacho de maxixe, que estava saboroso e leve, como um gaspacho deve ser, e acompanhava uma massinha de pastel. Mas a lula com purê de banana-da-terra do Marcelo estava excelente: cozida no ponto exato, maciíssima, coisa difícil de achar em restaurantes, acompanhada de um purê que desmanchava na boca e esbanjava sabor e doçura num contraste perfeito com a lula.

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Para o prato principal, escolhi a moquequinha de abadejo com acaçá e farofa de azeite. O abadejo, em pedaços do tamanho de uma garfada, estava cozido corretamente, assim como os legumes, que tinham uma leve crocância e não estavam molengos como costumam vir numa moqueca. A farofa era saborosa, mas o ponto alto do prato era o acaçá, que eu nunca tinha provado. O glossário do menu do Tordesilhas diz que ele é um manjar feito com arroz, mas minhas pesquisas na internet dizem que é feito de milho branco ou vermelho. De qualquer forma, sua textura e sabor suaves, foram o complemento ideal para a moqueca e a farofa aromáticas. O abundante prato do Marcelo, pernil assado com leve tutu de feijão e couve (e arroz branco) estava ótimo também, mas achei a moqueca melhor. O cozimento e o sabor da carne estavam corretos e o tutu estava realmente leve (outra raridade), mas achei que o prato chegou menos quente do que deveria à mesa.

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O Marcelo mal podia aguentar a sobremesa, mas topou pedir a torta de castanha-do-Pará enquanto eu pedia o manjar de tapioca e compota de goiaba. Ambas as sobremesas estavam ótimas, com o manjar de tapioca vencendo por pouco. A textura do manjar estava perfeita, e contrabalanceou bem a doçura da compota de goiaba. O tuille de tapioca acrescentou crocância sem agregar mais açúcar. A torta de castanha-do-Pará tinha uma textura suave, de quase desmanchar na boca, e também não estava excessivamente doce. As lascas da castanha em cima da torta mostravam a qualidade do produto, que chegava a lembrar coco, coisa difícil de achar aqui em São Paulo, já que geralmente a castanha já vem para cá, para consumidores finais, velha e rançosa. Uma leve calda acompanhou bem, junto com fatias de laranja, que tornaram a sobremesa ainda mais leve e equilibrada.

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Meu veredito final: o Tordesilhas é um restaurante que respeita a culinária brasileira, enaltecendo produtos regionais de forma tradicional, com um toque contemporâneo, sem ser afetado, característica que se reflete no atendimento, eficiente e nada invasivo. Sua constância deve-se ao fato de a chef, uma das sócias, manter-se presente na cozinha, o que é uma raridade nos dias de hoje, seja aqui, seja lá fora, com tantos restaurantes abrindo e fechando por motivos que não o amor à comida. E é muito oportuno que sua filosofia reflita na comida servida e seja reconhecida pelo público que, se se manter como é hoje, manterá o restaurante aberto por muitos e muitos anos por vir.

TORDESILHAS – Al. Tietê, 489, Cerqueira César – tel: (11) 3107-7444

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