O novo filme de Cronenberg: Maps to the Stars

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Metalinguagem em cinema é algo que sempre me interessa, seja o mote principal o processo cinematográfico, seja a presença, no filme, de menções a figuras emblemáticas, fictícias ou não. Como estudei e trabalhei com cinema, a produção fílmica é algo que me fascina, e a visão de outros profissionais da área, estampada em seus filmes de ficção, por ser familiar e ao mesmo tempo significar outro ponto de vista, pode ser intrigante, como em Mulholland Dr. (Cidade dos Sonhos, 2001), poético, como em Nuovo Cinema Paradiso (Cinema Paradiso, 1988), estranho, como Kantoku – Banzai! (Glória ao Cineasta!, 2007) ou cômica, como em Saneamento Básico, o Filme (2007).

O novo filme de David Croneberg, Maps to the Stars (Mapas para as Estrelas, 2014) tem a pegada esquisita usual do diretor, mesclada a um humor negro e momentos trágicos desconcertantes. Aqui, a crítica entra no lugar da homenagem, e o alvo são as estrelas de Hollywood, representadas por Havana (Julianne Moore), uma atriz de meia idade atormentada pela memória da falecida mãe, uma venerada estrela e Benjie (Evan Bird), um ator adolescente que estourou em um filme comercial, anos atrás, ainda criança, e enfrenta problemas com drogas, uma família desajustada e estranhos acontecimentos do passado. Juntam-se a eles, Agatha (Mia Wasikowska), uma jovem recém chegada à cidade cujos objetivos são obscuros e que passa a trabalhar como assistente pessoal de Havana; Sttaford (John Cusack), o egocêntrico pai de Benjie e uma espécie de terapeuta das estrelas, cuja carreira foi alavancada pelo estrondoso sucesso do filho; Christina (Olivia Williams), a mãe de Benjie, que não entendemos a que veio até o meio do filme; e Jerome (Robert Pattinson), aspirante a ator e roteirista que dirige limusines e atua como figurante para pagar as contas.

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Cronenberge consegue entregar um filme com sua marca, mas mais acessível que o último (e excelente) Cosmopolis (Cosmópolis, 2012). Sua direção é precisa e arranca do elenco atuações formidáveis, especialmente de Julianne Moore, que venceu o prêmio de melhor atriz do Festival de Cannes, e do novo, novato e surpreendente Evan Bird. A montagem (Ronald Seanders) e a trilha sonora (Howard Shore) são outros pontos altos do filme.

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Mais que um panorama cáustico e sarcástico sobre esse universo, o filme intriga pelas subtramas que vão surgindo e surpreendendo, despretensiosamente. A despeito da aparente superficialidade dos personagens, camadas vão sendo adicionadas em doses homeopáticas, e conforme vão se revelando seus conflitos internos e passados alarmantes, vamos sendo sugados para um mundo hipócrita e cruel, de forma direta e seca. Há uma frieza imagética, representada, por exemplo, pela casa asséptica de Sttaford, Christina e Benjie e pelas luvas negras de Agatha, aliada a uma crueza de diálogos sobre lista de compras e prisão de ventre e situações como as sessões expurgatórias da terapia exercida por Sttaford, que causam, ao mesmo tempo, riso e choque, e incomodam por representarem tão bem aquilo que apenas imaginamos.

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Fidedigno ou não, Maps to the Stars tem o mérito de contar uma boa história com bons personagens que, apesar das aparências iniciais, acabam por se mostrar simplesmente humanos, ainda que alguns se mostrem apenas egoístas e cruéis, ou acometidos por um tipo de psicopatia. A exposição de suas facetas vulneráveis, aquelas que não vemos nas telas quando atuam, e nos tabloides quando um bom trabalho de assessoria é feito, é feita de forma crua e cruel porque é assim que eles enfrentam a competição, o esquecimento, o envelhecimento.

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