O primeiro bom livro do ano: O Escolhido Foi Você

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Tenho lido pouco ultimamente, por isso estabeleci uma meta para esse ano: ler pelo menos dois livros por mês. Até agora, abril, cumpri, se for contar as duas HQs que li. O que tem me ajudado muito a ler mais são as viagens de ônibus que faço uma vez por semana, no dia do rodízio. Fazia muitos anos que eu não entrava em um ônibus municipal, e desde outubro do ano passado, desde que mudei para o meu emprego atual, voltei a usá-lo. Foi muito menos traumático do que eu imaginava e confesso que, se as viagens não fossem mais longas que as de carro, as chances de eu adotá-lo como meio de transporte oficial durante a semana cresceriam muito. O trânsito que pego diariamente é decisivo no cansaço que se acumula no fim do dia, e no ônibus, a leitura é relaxante e a sensação de que eu estou aproveitando o tempo que de outra maneira seria desperdiçado, gratificante.

Mas vamos ao livro em questão. Não fui muito feliz nas minhas escolhas esse ano, tirando as HQs, das quais falo em outro post. O primeiro bom livro que li foi O Escolhido Foi Você, da Miranda July. Quando ele foi lançado, muito se falou sobre ele, mas na época eu não me interessei muito, apesar de gostar muito de seu primeiro longa, o Me and You and Everyone We Know (Eu, Você e Todos Nós, 2005). Multimídia, Miranda costuma abordar o banal através de uma visão extraordinária, transformando personagens e situações de forma inusitada e poética. É assim no longa, é assim no livro, que eu não sei se trato como jornalístico, literário, uma mistura dos dois, ou sei lá o quê. Sua forma é inusitada, assim como seu conteúdo: ao buscar inspiração para o roteiro de seu novo longa metragem, Miranda responde a anúncios de classificados que vendem coisas estranhas a preço de banana com o intuito de conhecer seus anunciantes e entrevistá-los. No processo, que também serve à procrastinação no desenvolvimento do roteiro, Miranda conhece tipos diversos, cada qual com sua história, por vezes aparentemente banais, por vezes imediatamente assustadoras, mas sempre, em sua essência, emocionantes, seja porque são fundamentalmente tristes, seja porque emanam poesia como se fossem ficção minuciosamente inventada.

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Miranda começa situando o leitor em sua vida e explicando como chegou aos anunciantes. Para cada um deles, oferece cinquenta dólares por uma entrevista com fotos, um valor alto considerando-se que todos os anunciantes que aparecem no livro estão vendendo coisas por valores muito baixos porque precisam quase desesperadamente de dinheiro. A simplicidade da maioria dos entrevistados unida à sutileza quase ingênua de Miranda, rende entrevistas que me lembram muito seu filme de 2008. Nada se aprofunda a ponto de chegar a um lugar escuro ou uma explicação redentora, mas certas revelações, como se pescadas, surgem como pérolas, que apesar de surpreendentes, são tratadas por Miranda de forma tão natural que nos vemos incomodados com nossa própria surpresa.

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Apenas umas das entrevistas, a de Ron, surpreendeu mais à Miranda (e também a sua assistente e seu fotógrafo) que a mim, a ponto de me obrigar a ler essa entrevista pela segunda vez, e mesmo assim não perceber o que causou tanto assombro. É claro que a distância física nos protege, e, nesse sentido, Miranda serve como uma ponte entre nós e um mundo que, de outra forma, não seria explorado. Pensei mais de uma vez em Eduardo Coutinho, principalmente em Edifício Master (2002), e como personagens incríveis passam por nós todos os dias, anônimos, cheios de segredos e histórias dignas de livros e longas metragens.

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E se as histórias são dignas de livros, a diagramação tinha que ser digna de sua história. As fotos, mais que meras ilustrações, contam coisas por si só. Com uma vivacidade impressionante, elas parecem emitir sons e se mexer, como se fossem janelas para aquela realidade, e como se aquilo estivesse acontecendo naquele exato momento. Seu posicionamento, por sua vez, deixa claro que a preocupação com a mescla de palavras e imagens veio de alguém que só pode ser multimídia mesmo. A Cia. das Letras fez um ótimo trabalho na capa e com a qualidade do papel utilizado no miolo, de gramatura alta, grosso, que suportou as fotos com eficiência, e por isso acho altamente recomendável que você, se tiver interesse na leitura, procure a versão física.

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Do livro, e de toda a experiência que foi criá-lo, veio o filme The Future (O Futuro, 2011), que começou antes dele e só existiu por conta dele. Não fosse a procrastinação de Miranda na escrita do roteiro, é provável que ele ainda não tivesse saído do papel. E é indiscutível que eu não teria conhecido essas pessoas incríveis que, se não me dissessem, acreditaria serem personagens fictícios criados por uma mente abençoada com criatividade e sensibilidade.

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