Joca chegou e Joca partiu

Joca 1

Desde que eu e o Marcelo decidimos adotar um cachorro de abrigo, o assunto tornou-se recorrente em nossas vidas. Depois que adotamos a Nina (leia aqui como foi a sua adoção), que trouxe consigo evidências de traumas e ao mesmo tempo uma gratidão palpável, nossa preocupação com cachorros abandonados aumentou. É comum ver cachorros de rua e imaginar que eles simplesmente vivem livres, quando na realidade existem três opções: nasceram na rua, foram abandonados ou perdidos. Em qualquer caso, é certo que eles estão sofrendo, seja de fome ou doenças adquiridas por conta das péssimas condições de higiene, seja de solidão e tristeza.

Nos passeios com a Nina, passei a prestar mais atenção à minha volta, e vez ou outra me deparava com cachorros solitários. A aproximação nem sempre é fácil, como a maioria pode imaginar. Não basta chegar com um pedaço de comida atraente para que eles se aproximem destemidamente de você. Cada caso é um caso, mas na maioria deles, os cachorros têm muito medo da aproximação humana, o que diz muito a respeito do que eles aprenderam nos seus dias, meses ou anos nas ruas. O medo deles sempre foi um empecilho, mas o meu não. Não sei se porque passei a entender melhor a linguagem corporal canina e antecipar sinais de agressividade, mas em toda tentativa de aproximação que fiz, sempre percebi que o medroso era sempre o cachorro, e isso me dava mais coragem. Alguns são muito ariscos e se afastam com muita rapidez. Outros, ao verem que levo comigo uma cachorra, acabam se assustando com ela. Se o lugar é muito aberto, eu não consigo limitá-lo a um espaço e ele é muito desconfiado e rápido, fica difícil fazer uma captura sozinha. Mas em algumas situações dá certo.

A primeira vez que consegui foi há cerca de dez meses. A Nina estava conosco havia pouco tempo. A caminho do Parque da Aclimação, onde sempre passeamos, encontrei um cachorro que parecia um Rhodesian Ridgeback, com coleira, guia e roupinha. Gastei uma boa meia hora tentando pegá-lo, e tirei o dia para tentar achar o dono. Como ele estava com guia e roupa, era muito provável que tivesse sido perdido, e não abandonado, por isso imaginei que o dono deveria estar procurando por ele nas redondezas. Passei por todos os veterinários da região, dei várias voltas no parque e falei com a administração, que me contou que o abandono de cães lá dentro é enorme, principalmente em época de férias escolares, quando os donos decidem que os seus cachorros são um empecilho às suas viagens, e finalmente passei por uma praça lá perto, onde muitos cachorros passeavam diariamente com seus donos. Conversei com muitos moradores do bairro, que foram dando palpites de quem poderia ser o dono, passei pela casa de outros que foram apontados como “suspeitos”, mas nada de o dono aparecer.

Lá em casa, ele se deu super bem com a Nina. Eles brincaram a tarde inteira e acabaram até cochilando juntos no sofá. Depois de espalhar a notícia pelas redes sociais e sites de cachorros perdidos, fiz cartazes para distribuir à noite pelo bairro, mas já estava esperando que talvez ele tivesse que passar uns dias lá em casa, e até estava gostando da ideia. À noite, decidi levá-lo junto na distribuição de cartazes, e acabei me deparando com o dono, que estava procurando por ele. O nome dele é Billy e vira e mexe o vejo pelo bairro. E mesmo tendo passado tão pouco tempo com ele, me apeguei. Mas fiquei feliz que a história tenha tido um final feliz.

No domingo passado, eu e o Marcelo estávamos passeando com a Nina no parque, e mais tarde tínhamos jantar e cinema. Os ingressos estavam, inclusive, comprados. Quando vi um cachorrinho deitado no meio da grama, todo encolhido, me aproximei. Ele estava bem magro e com aquele olhar de tristeza que corta o coração mais duro. Ofereci comida e ele não quis. Conversei com ele por uns bons quinze minutos e fui me aproximando aos poucos. Quando senti um pouco de confiança, fiz uma volta com uma guia extra que carrego quando passeamos com a Nina (justamente para a eventualidade de situações como essa) e consegui colocá-la nele. Ele aceitou e quando o chamei para ir conosco, ele foi. Parecia mais tranquilo, mas se assustava com qualquer movimento mais brusco ou barulho mais alto.

Deixamos a Nina em casa e o levamos para um pet shop para um belo banho. Ele estava cheio de pulgas e a gente não quis levá-lo para casa naquele estado. O cinema foi para as cucuias, mas estava tudo bem. O pet shop estava lotado e esperamos por horas para que ele fosse atendido. Não parecia estar machucado, então deixamos para fazer uma consulta no veterinário no dia seguinte, já que estava tarde. O banho foi agitado, mas no fim ele pareceu feliz. Demos um antipulgas para que as remanescentes já fossem morrendo e não passassem para a casa e para a Nina. Compramos caminha, pratinhos e fomos para casa.

A Nina não o recebeu muito bem. Ela demonstrou muita desconfiança e ciúme, e achamos melhor deixá-lo isolado num quartinho. Ele estava mais calmo, mas ainda se coçava muito, e não estava aceitando comida, apesar da fome que devia estar sentindo. Estávamos cansados, estressados e preocupados, mas felizes que ele estava seguro.

No dia seguinte, descobri que nenhum dos muitos abrigos de São Paulo aceitam animais recolhidos. A dura realidade é que nenhum tem capacidade ou condições para aceitar mais animais, já que o abandono é enorme e as adoções não são suficientes. A única solução seria abrigá-lo em casa até que encontrássemos um lar definitivo. Faz muito tempo que queremos um irmão para a Nina, sabemos que ele deve ser macho, pequeno e até o nome já escolhemos: Joca. E, lógico, ele será adotado. Nossa preferência é para um filhote, já que a Nina pode ser possessiva. Acreditamos que um filhote terá melhores chances de ser aceito por ela. Mas se um adulto surgisse, não descartávamos a possibilidade, até porque adultos têm mais dificuldade de serem adotados, e são a absoluta maioria nos abrigos. Eu sempre brincava que um dia encontraríamos o nosso Joca na rua, e que era para isso que aquela guia extra estava lá. No pet shop tive que fazer o cadastro dele e para isso precisei escolher um nome. Escolhi Joca. Parecia perfeito.

Mas estamos vivendo um período de nossas vidas um pouco conturbado. Não é o momento ideal para adotar outro cachorro, ainda mais um que a Nina não gostou logo de cara. Temos muitas preocupações com adestramento, e ainda tem muitas coisas que queremos melhorar na Nina. Começar do zero com um novo cachorro não está se encaixando nas nossas agendas, no momento.

Nesse dia, enquanto eu pesquisava sites que pudessem divulgar o Joca, o Marcelo o levou à nossa veterinária. Ele estava saudável, aparentemente, mas ela nos aconselhou a mantê-lo isolado para o caso de estar com alguma doença incubada. Ele foi vermifugado e vacinado. E mantê-lo isolado significaria, nos dias seguintes, muitas horas de patas arranhando a porta e choros. Pior que qualquer trabalho e gasto que ele estivesse nos dando era saber que ele estava tristinho sozinho naquele quarto. Nós precisávamos achar um dono para ele.

Por sorte, e porque a minha obsessão não me fez descansar até encontrar todos os meios de divulgação possíveis e imagináveis (o Marcelo se encarregou da divulgação nas redes sociais), duas famílias se interessaram já no primeiro dia. Fiz um pequeno questionário para eles responderem para escolher quem seria a melhor família, e no fim da semana escolhemos. Apesar das minhas mil ressalvas, o Marcelo estava certo de que tínhamos feito uma boa escolha, e de que ele seria muito feliz lá. Eu não me sinto segura até hoje, apesar de ter ido até lá, conhecido a família, a casa, as condições, de ter feito os novos donos assinarem um termo de responsabilidade e de manter contato constante com eles para ter notícias do Joca (eles mantiveram o nome). Acho que todos que passaram por essa situação entendem o tamanho da responsabilidade que é doar um animal que já foi abandonado. Não dá para estragar a segunda chance dele, e é impossível ter a certeza de que ele ficará bem lá, como ele ficaria comigo. Eu chorei várias vezes desde que ele foi, de saudade, preocupação, mas também de alegria por saber que ele está tendo a oportunidade que muitos não terão.

Joca 2

Faz tempo que penso em trabalhar com isso, no dia que estiver mais tranquila, com mais grana no bolso e tempo nas mãos. Um dos grandes incentivos foi o Hope for Paws, uma ONG americana que trabalha com resgates e direcionamento para lares temporários. Os vídeos deles são incríveis. Aposto que se todo mundo assistisse a alguns deles também teria vontade de sair por aí resgatando animaizinhos na rua. O estado em que muitos deles são encontrados é deplorável, mas a transformação física e psicológica pela qual passam é inspiradora. Apesar da memória de dias difíceis e humanos cruéis, eles passam a viver com tamanha gratidão e entusiasmo que dá até uma certa inveja de ser cachorro.

Esses são alguns dos meus vídeos favoritos da Hope for Paws:

Apesar do sofrimento que é me separar dos meus filhos temporários, essa foi uma das melhores experiências da minha vida, e eu espero poder fazer isso mais muitas vezes.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s