Whiplash: sangue, suor, lágrimas e baquetas

Whiplash 4

Esse texto tem spoilers.

Ontem assisti ao que considero um dos melhores filmes de 2014: Whiplash.

Seu aspecto mais comentado, a atuação de J. K. Simmons, é apenas uma das boas qualidades desse filme conciso e preciso, roteirizado e dirigido pelo inexperiente e jovem Damien Chazelle. Em seu currículo, a música e os músicos são uma constante, a começar pelo curta-metragem homônimo que deu origem ao filme em questão, de 2013. Seu primeiro longa, que além de ter dirigido também roteirizou, Guy and Madeline in a Park Bench (2009), tem como protagonista um trompetista de jazz. E ele também assina o roteiro de Grand Piano (Toque de Mestre, 2013), filme que conta a história de um pianista com medo de palco.

Se sua carreira está apenas começando, ele certamente já encontrou um denominador comum. Mesmo não tendo assistido aos seus outros filmes (assisti apenas a Grand Piano, que acho bastante interessante), julgo por Whiplash, o longa, que enquanto esse tema não se exaurir, ele saberá fazer bom uso dele. Fiquei surpresa ao saber que o diretor tem menos de trinta anos e que este é apenas o segundo longa que dirige, porque simplesmente não consigo criticar nenhum aspecto de seu trabalho.

Vamos por partes.

O filme começa com uma cena que eu imediatamente associei a The Green Mile (À Espera de um Milagre, 1999). Não que haja alguma semelhança entre as histórias ou qualquer coisa que o valha, mas enquanto a câmera percorria um corredor escuro e verde, e avistei, ao fundo do quadro, Andrew (Miles Teller) praticando na bateria com afinco e certo sofrimento, não pude deixar de lembrar do corredor da morte apelidado de Green Mile, provavelmente influenciada pelo que já sabia da história.

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Não há tempo para grandes apresentações e firulas dramáticas. Logo em seguida somos apresentados, de forma seca, ao também seco antagonista Fletcher (J. K. Simmons). Eles trocam meia dúzia de palavras e estabelece-se o vínculo. A partir daí, percebemos uma crescente confiança por parte de Andrew. É a partir do primeiro diálogo entre os dois que entendemos um pouco da história pregressa do aluno, e apesar das palavras receptivas de Fletcher, sua postura corporal sugere intimidação. Depois de já termos tido contato com sua rispidez em relação a outros personagens, ficamos em cima do muro sobre como classificá-lo. Até o seu próximo diálogo, onde o lado sádico e cruel de Fletcher se confirma. Aí entendemos que seu único objetivo durante aquela primeira conversa era expor as fragilidades de Andrew para mais tarde usá-las contra ele, como ele faz com outros dois de seus alunos, na mesma cena, inclusive.

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A partir daí, Andrew mostra-se determinado a surpreender Fletcher, assim como Fletcher segue com seu método duvidoso, onde a humilhação serve como combustível para a busca pela perfeição. A insegurança inicial de Andrew, demostrada tanto pela dificuldade que ele tem de convidar uma garota para sair, no início do filme, quanto por sua própria declaração de que tem dificuldade de olhar as pessoas nos olhos, vai desaparecendo e dando lugar a uma autoconfiança que o permite enfrentar os parentes e colegas abusivos. Até aí, entendemos que talvez o método de Fletcher possa ter surtido efeito em Andrew, e torcemos por ambos, para que um consiga extrair do outro o necessário para seu sucesso como um time. Até que o tiro sai pela culatra. A obsessão de Andrew torna-se sua própria inimiga e os confrontamentos que antes o protegeram, agora o prejudicam irremediavelmente, pelo que parece, tanto a ele quanto a Fletcher.

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Quando os dois se reencontram, o diálogo lembra aquele primeiro, mais leve e sincero, ao menos aparentemente. Fletcher, pela primeira vez, transparece um lado humano e humilde. Ambos perdoam-se mutuamente, sem que precisem colocar isso em palavras.

A sequência final do filme, no entanto, esclarece que humanidade e humildade não fazem parte do vocabulário de Fletcher, e que, como no primeiro diálogo, toda encenação só serviu como armadilha para destruir Andrew de vez. A virada dos minutos finais é, no entanto, redentora. Num diálogo sem palavras, com olhos nos olhos (os mesmos olhos que tinham dificuldade de encarar), enquanto Andrew se encarrega do melhor e maior solo de bateria de sua vida, os dois chegam exatamente ao lugar que pretendiam desde o início, e achavam não ser possível: Fletcher encontrou seu Charlie Parker e Andrew encontrou sua aprovação.

O diálogo sem palavras entre Andrew e Fletcher, apesar de praticamente não ter palavras, conta com muitos aparatos cinematográficos muito bem aplicados. A câmera que chicoteia de um para outro, a montagem que nos faz acreditar que Miles Teller realmente está tocando tudo aquilo, o design de som e a luz dramática e incômoda. Essa mesma câmera atua, em muitos outros momentos cruciais, como um personagem, que invade o espaço alheio, no limite de quebrar a quarta parede, exibida, mas crucial para criar climas tensos e dar força às ações e reações dos personagens. A luz, por sua vez, sempre entre o verde e o amarelo, consegue ser quente e fria, ao mesmo tempo. Há calor, proveniente da paixão, mas há frio, reflexo do calculismo, tanto dos treinos quanto de Fletcher. Chega a ser nauseante, em alguns momentos, como se a obsessão fosse revirando seus órgãos a ponto de te tornar doente, e não apenas com alguns calos sangrentos nas mãos. A dureza da luz, que marca os rostos, também representa a dureza dos treinos, dos sentimentos, dos calos.

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J. K. Simmons realmente surpreende, mas não tanto assim. Não porque seu trabalho não seja excelente. Ele é. Mas eu não esperava menos que isso. O personagem é um prato cheio para ele e sua competência já tinha sido provada, mesmo que não tenha sido reconhecida antes. Acho justo que um ator tão experiente e que ainda não havia sido agraciado com um personagem tão bom tenha arrebatado tantos prêmios por esse trabalho, apesar de não achar essas vitórias tão unânimes e absolutas assim.

Miles Teller é a verdadeira surpresa, para mim. Até agora, seus papéis se resumiram a adolescentes em comédias ou romances de pouco teor dramático, que não exigiram grandes coisas do ator. Ele consegue, com a direção certa, mesclar momentos de incerteza e de orgulho com muita sutileza – apesar de J. K. Simmons roubar a cena em quase todo o filme.

Se julgado somente por esse filme, Damien Chazelle promete.

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