Relatos Selvagens e o cinema argentino  

Relatos Selvagens 5

Desde a época da faculdade, há dez anos, ouço sobre como o cinema argentino é superior ao cinema brasileiro. Como responder a uma informação que nos inferioriza em relação aos hermanos, mas que, a cada dia que passa, comprovamos ser verdade? O cinema argentino nos vence não só em volume como em qualidade. Veja o caso de Relatos Selvagens, por exemplo, que foi o filme mais visto na Argentina em 2014, foi bem recebido em Cannes e concorreu ao Oscar. Você se lembra da última boa comédia brasileira que viu nos cinemas? As premissas, elencos e trailers não me permitem nem arriscar.

Se há produções dignas de nota no cinema tupiniquim, o que eu não nego, os filmes argentinos chegam com mais força aos festivais, o que confere a eles maior público, não só doméstica, mas internacionalmente. E sem público, não há indústria que se sustente. E por mais que não exista uma indústria cinematográfica propriamente dita no Brasil, há um desnível grotesco entre produções independentes de baixo orçamento que buscam uma projeção mínima, e enfrentam uma enorme dificuldade no processo, e grandes produções, em sua maioria feitas pela Globo Filmes, com conteúdo parvo e que subestima o público, e ainda assim conseguem uma bilheteria considerável, para os nossos parâmetros. Salvo casos específicos, como Tropa de Elite e Cidade de Deus, por exemplo, que tocam em temáticas mais subversivas e ainda conseguem agradar crítica e público, alcançando projeção internacional e boas bilheterias, nosso cinema se divide dessa forma, e parecemos não encontrar uma fórmula para criar produtos de qualidade que, ao mesmo tempo, consigam ser bem sucedidos.

Nas últimas décadas, acompanhei cineastas argentinos como Juan José Campanella (O Mesmo Amor, A Mesma Chuva – 1999, O Filho da Noiva – 2001, O Segredo dos seus Olhos – 2009), Lucrecia Martel (O Pântano – 2001, A Menina Santa – 2004, A Mulher sem Cabeça – 2008), Daniel Burman (O Abraço Partido – 2004, As Leis de Família – 2006, Ninho Vazio – 2008) e Pablo Trapero (Família Rodante – 2004, Nascido e Criado – 2006, Leonera – 2008) produzirem obras consistentes e importantes para o cinema argentino, e não percebo a mesma constância no nosso cinema. São muitos os problemas que contribuem para esse fenômeno, mas essa é uma longa e complexa discussão que eu não sei se estou aparelheda para iniciar.

O fato é que Relatos Selvagens alimentou minha inveja do cinema argentino, justamente porque une o útil ao agradável, sendo acessível e ao mesmo tempo profundo, fazendo rir, mas também pensar, o que justifica totalmente o sucesso que o filme alcançou. O filme está em cartaz há meses, e continua tendo um bom público. E apesar dos esforços da sala 2 do Itaú Cinema e seu péssimo som, a experiência foi ótima. Eu e mais um monte de atrasados quase lotamos a sala na única sessão de sábado e, pelo que consegui notar, a reação positiva é uma unanimidade. Dado o nível alto de violência, especialmente a física, é difícil imaginar que seja possível arrancar gargalhadas do público, o que o filme consegue com uma maestria invejável. O timing para intercalar momentos de tensão, revolta e nojo com comédia é perfeito, e a identificação quase instantânea com aquelas situações só facilita o envolvimento com as seis histórias contadas de forma independente. Aliás, o fato de o longa ser, na verdade, composto por seis curtas, me fazia cética. Mas a temática é tão bem representada que o vínculo entre as histórias se faz de forma bastante convincente. E, porque não se forçou nenhuma ligação entre elas, o resultado é ainda mais autêntico. Além disso, por tratar de assuntos universais, o filme consegue atingir várias camadas, de qualquer lugar do mundo, o que pode explicar seu sucesso.

Relatos Selvagens 8

Posternak

Las Ratas

Las Ratas

Ricardo Darín é o protagonista de uma das histórias, e tem um bom desempenho, como sempre. Engraçado notar que, os últimos três filmes argentinos a que assisti no cinema têm ele como ator principal: Relatos Selvagens (2014), O que os Homens Falam (2012) e Um Conto Chinês (2011), todos ótimos. Ele é notadamente uma figura quase onipresente no cinema argentino, e merecidamente. Se ele não pode transformar um filme ruim em bom, seu mérito está nas escolhas que faz.

Relatos Selvagens 7

El Más Fuerte

Bombita

Bombita

A história de Darín, intitulada Bombita, é boa, mas as melhores, na minha opinião, são El Más Fuerte, que mescla violência gráfica extrema com sutis momentos cômicos de forma genial e Hasta que la Muerte nos Separe, o mais engraçado, e que tem como atriz principal Érica Rivas, que está memorável no papel da noiva traída. Talvez a preferência venha de uma imediata identificação com as situações. A primeira história, Pasternak, é a forma perfeita de iniciar o filme no tom certo: com uma cena aparentemente banal que leva a outras um tanto quanto nonsense. Las Ratas, mais sisuda e assustadora, por mais verossímel que seja, é uma realidade um pouco distante da minha. Bombita, apesar de retratar com perfeição a indignação pela qual todos passamos em algum (ou vários) momento da vida frente à máquina burocrática e corrupta apoiada e/ou comandada pelo Estado, que extrapola todos os limites para explorar o cidadão, são poucos os que arriscam atos extremos para combatê-la, se o preço a se pagar for muito alto. E La Propuesta, que para mim talvez seja a história mais fraca, apesar da ótima premissa e do bom ritmo, também não conversa comigo tão bem como outras, simplesmente porque não me vejo naquela situação, em qualquer dos lados.

La Propuesta

La Propuesta

Hasta la Muerte nos Separe

Hasta que la Muerte nos Separe

De uma forma ou de outra, no entanto, os relatos dialogam com o público, seja pela identificação com os personagens ou situações, seja pela compaixão com o sofrimento alheio ou pelo repúdio à desonestidade do outro, seja pelo desejo que temos de ultrapassar os limites seguros da ética, moral ou legalidade, aquele desejo que mantemos oculto ou adormecido em prol da civilidade, mas que nos faz humanos.

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