Diário de bordo: Orlando – Parte 3

Magic Kingdom 7

Leia a parte 1 e a parte 2 dessa viagem.

DÉCIMO DIA: BUSCH GARDENS

É fato que parques mais radicais deixam a gente mais moído. Eu não sei qual é a explicação científica para isso, mas senti na prática, possivelmente também porque já se acumulava o cansaço. Por isso, e porque somos bons glutões, fomos encher o tanque em outro restaurante da Disney, o ‘Ohana, que fica no Polynesian Village Resort (onde também fica o Kona Café). Aproveitei para comprar duas camisas havaianas autênticas para o meu pai, aquelas que eu tinha visto da última vez e não tinha comprado. Ele adorou.

A ambientação é linda, das melhores até agora. O atendimento é muito bom, como sempre, e o astral, alto. Os personagens que nos visitaram dessa vez foram Lilo, Stitch e Pluto. A comida é servida na mesa, e reposta quantas vezes você quiser. A fartura inicial nos impediu de repetir, mas estava tudo bom: ovos mexidos, linguiças, bacon, frutas, pães, batatas e Mickey Waffles.

'Ohana

Depois, seguimos em direção a Tampa, que fica a 110km de Orlando (Lake Buena Vista), e eu nunca dirigi por uma estrada tão entediante na vida. Foram mais ou menos uns 90 minutos de viagem, num dia nublado, com quase todo mundo quase dormindo, numa estrada reta e feia, que parecia infinita. Cheguei meio mal-humorada da viagem, mas eu não sabia o que me aguardava.

O parque não chega perto da Disney (nem da Universal) em termos de ambientação e atendimento, fora que fazer parte do grupo Sea World me deixa meio ressabiada, mas o que importa nele são as montanhas-russas animaisinjetorasdeadrenalinapuraufa. As melhores, na minha opinião:

SheiKra: provavelmente a minha montanha-russa favorita da vida. Eu não sou a maior conhecedora de montanhas-russas, mas a SheiKra é muito emocionante. Eu, que sempre fui meio medrosa, mas sempre tentei enfrentar o medinho para não me arrepender depois, estava construindo uma resistência nessa viagem, e ainda assim o frio na barriga bateu forte e me impediu de ir na primeira fila.

A expectativa era alta, porque o Marcelo tinha passado um pouco mal nela em outra visita (ele tem medo de altura), e sabendo que os brinquedos radicais da nossa viagem estavam com os dias contados, eu precisava de uma boa dose de adrenalina, como uma boa junkie. Pois, apesar da alta expectativa, ela ainda me surpreendeu. Senti menos agonia e mais emoção, menos medo e mais prazer, mesmo com uma queda livre de 60 metros (um prédio de mais ou menos 20 andares) e velocidade de 110km/h. Animal.

Busch Gardens

Cheetah Hunt: cheia de curvas, inversões, espirais e movimentos que realmente lembram os de um animal feroz em movimento, essa montanha-russa é das mais divertidas e gostosas que já experimentei. A velocidade é alta, há quedas, mas o desenho dela é feito para emocionar sem dar aflição, e funciona muito bem. Acho que o mais assustador são as entradas rápidas em túneis, mais pelo contato com a realidade – e a ilusão de que vamos bater – que outra coisa.

Montu: uma montanha-russa invertida (aquela onde o trilho é em cima e seus pés vão balançando) bem emocionante (melhor que a Dragon Challenge do Islands of Adventure). Como a Cheetah Hunt, é uma montanha-russa relativamente longa (para os meus parâmetros), o que a torna ainda mais legal.

Almoçamos por lá mesmo, no Pantopia Grill um restaurante de serviço rápido que servia sanduíches, massas e outros pratos simples. Atualmente ele está sendo reformado e reabrirá como Dragonfire Grill, com o menu totalmente reformulado. A fila era grande, mas o sistema implantado funcionava bem e logo estávamos numa das inúmeras mesas comunitárias no enorme salão onde um show natalino era apresentado. Eu não lembro o que comi, mas suspeito que tenha sido um sanduíche de almôndegas, e sei que eu gostei mais do que esperava.

Passado o trauma dos brinquedos que molham, e munidos de uma capa de chuva recém-adquirida, aproveitamos o Stanley Falls Flume e o Tanganyika Tidal Waves, e inesperadamente, o fator água traz muita graça para o brinquedo, no sentido de torná-lo engraçado mesmo.

Assistimos a um exercício com elefantes, que mostrava o quão inteligentes eles são, e como eles possuem diferentes personalidades. Fizemos cérebro-shake na montanha-russa de madeira do parque, a Gwazi. E ficamos um pouco aliviados com o fato de Falcon’s Fury ter sido fechada porque estava apresentando algum problema que não conseguimos descobrir qual. Eu estava um pouco amedrontada com ele, ainda mais porque ninguém queria me fazer companhia e a ideia de ir sozinha me deixava bem insegura. Assim, o destino tomou a decisão por mim, o que não significa que eu ainda não tenha vontade de experimentar. Para você que não sabe do que se trata o brinquedo, aconselho que procure no YouTube por “Falcon’s Fury POV” (POV = point of view = ponto de vista). É melhor que ler a minha explicação.

Cansadíssimos, ainda tínhamos uma viagem de 90 minutos pela frente, numa estrada entediante e, dessa vez, noturna. Da próxima vez, deixarei o carro no hotel e pegarei um traslado. Vale a pena. Eu tinha anotado o nome de três restaurantes nas proximidades, mas o cansaço era tanto que queríamos chegar logo ao hotel, ou, ao menos, próximo dele. Para quem tiver pique de jantar em Tampa, ficam três indicações que encontrei na internet: Ichiban (japonês), Trang (vietnamita) e Vallarta’s (mexicano).

Comemos no pub do hotel, o Frankie Farrell’s. Eu costumo evitar comida de hotel, a não ser que o hotel seja excelente e/ou o restaurante seja reconhecido de alguma forma. Mas minha sogra queria muito comer lá, e acabou sendo conveniente dado o cansaço e a hora. O menu é extenso, e mesmo querendo provar alguma especialidade irlandesa, eu sabia que nada deveria ser muito autêntico, então acabei satisfazendo as vontades do momento e pedi um Chicken and Mushroom Alfredo, a clássica massa com creme de leite e parmesão, que, no caso, tinha peito de frango, cogumelos paris, alho e vinho branco.

Estava bastante bom, principalmente porque eu esperava algo bem mais sem-graça e mal feito. Mas o atendimento era péssimo. O garçon foi bastante rude e relapso, imagino que porque a equipe estava desfalcada. Fiquei bem decepcionada considerando que o atendimento em todos os restaurantes, até então, tinham sido de muito bom a excepcional. Pelo menos a barriga agradeceu, e pro quarto do hotel foram alguns passos e só.

DÉCIMO PRIMEIRO DIA: CHEF MICKEY’S, MAGIC KINGDOM, TEMPORAL E CEIA DE NATAL INUSITADA

Sou daquelas que não liga nada para Natal. Já liguei, mas hoje é apenas uma oportunidade de encontrar a família (o que eu deixei de fazer nesse ano) e comemorar o aniversário do meu pai, que é dia 24. Espero que ele tenha me perdoado por ter passado esse aniversário longe dele.

E porque eu estava lá, queria mais era aproveitar tudo o que o Natal pudesse proporcionar. Mas eu já tinha perdido o The Osborne Family Spectacle of Dancing Lights no Hollywood Studios – alguém do meu grupo queria fumar e ninguém deu muita importância para o que me parece um show imperdível, infelizmente.

Viajar em grupo é bastante difícil, porque todos precisam ser flexíveis, e nem sempre é possível conciliar os gostos de todos, o que acaba por trazer como alternativa a separação temporária para que todos consigam aproveitar a seu modo sem tédio ou irritação. Só que o meu grupo não aceitava a ideia de nos separarmos, o que acabou fazendo com que todo mundo fosse um pouco prejudicado no sentido de que acabou deixando de fazer coisas que queriam muito. Enfim…

Era dia 24 de Dezembro, véspera de Natal, aniversário do meu pai. E nós íamos para o Magic Kingdom. A expectativa era alta. Como eu disse, Natal não tem significado algum para mim, que não sou cristã e nem em Deus acredito. Mas estar no Natal naquele lugar mágico me parecia tão perfeito que eu entrei no clima sem querer.

Começamos tomando café da manhã num dos restaurantes mais concorridos da Disney, o Chef Mickey’s, que fica no Contemporary Resort. A comida lá é tão boa quanto em qualquer outro restaurante que serve café da manhã, ao menos os que visitamos, então não vejo motivo para tanto hype. A decoração também não é nada demais, bem clean, seguindo a linha do hotel.

Lá, recebemos a visita de vários personagens, incluindo o Mickey vestido de chef, o que talvez justifique a procura, já que ele é figurinha mais rara. Mas de qualquer maneira, a comida estava muito boa, e a variedade do buffet era enorme, como sempre: ovos, bacon, linguiça, batatas, pães, muffins, panquecas, Mickey Waffles, obviamente, salmão defumado, cereais, mingau de aveia e biscuits com gravy. Delícia.

Começamos no brinquedo mais concorrido da temporada, e que não tinha FastPass+ quando eu agendei, o Seven Dwarfs Mine Train, a montanha-russa mais nova do parque. A indicação era de que a espera era de 90 minutos, mas levou metade disso. Só pareceu durar mais por conta de um grupo de brasileiros insuportável que gritava e cantava muito mais alto que o bom senso permite, incomodando a todos e envergonhando a nós. A montanha-russa é divertida, mas nada que se compare às emoções do dia anterior, então valeu para conhecer.

Nosso café da manhã farto não impediu que tentássemos, de novo, tentar almoçar no Be Our Guest. Só pode ter sido um milagre de Natal (não que eu acredite nessas coisas). A fila era grande, mas não demoramos muito para sentar nem para que a nossa comida chegasse.

O serviço no almoço é rápido, mas ao invés de você pegar a comida no balcão, ela é levada até sua mesa. O cardápio inclui algumas opções da culinária francesa, seguindo a temática de A Bela e a Fera, mas também tem opções mais universais. A decoração é o ponto forte do lugar. Seguindo recomendações, pegamos uma mesa no West Wing, o salão mais obscuro e escuro do restaurante. Os efeitos especiais são bem legais, e por ser uma salão menor e, por consequência, mais silencioso, é mais fácil entrar no clima. Pedi uma Tuna Niçoise Salad, que consistia em um filé de atum selado com vagens, batatas, azeitonas, pimentões assados, tomates e ovo cozido. Estava bom, mas nada memorável.

Be Our Guest

Assistimos a uma parada cujo nome não consigo me lembrar. Mas parece que, atualmente, ela foi substituída pela Festival of Fantasy Parade. É legal, mas para assistir decentemente é necessário guardar lugar com bastante antecedência, ou ser muito alto, o que não é o meu caso.

As atrações mais esperadas do dia, para mim, eram o show pirotécnico, o Wishes, que na sua versão natalina se chama Holiday Wishes, e o Main Street Electrical Parade, uma parada noturna clássica. A parada, naquele dia, seria apresentada apenas uma vez, ao contrário de duas, que é o usual. Então, teríamos que assistira os fogos e esperar pela parada.

Seguindo as recomendações do Disney Tourist Blog, minha maior fonte de informações para organizar essa viagem, escolhemos uma localização mais ou menos no meio da Main Street, logo antes da rua ter uma leve elevação, o que ajudaria a assistir o show de fogos mesmo sendo baixinha, e ter uma visão geral do show, nem muito de longe, nem muito de perto. De fato, a localização era perfeita.

Eu me confundi com os horários, e sentei para guardar lugar para a parada, que eu achava que seria antes do Wishes. Esperamos horas, acho que por volta de duas, enquanto beliscávamos guloseimas que compramos no Liberty Square Market, legal por ter coisas mais saudáveis. Quando percebemos que a parada seria só depois, já era tarde, e decidimos ficar por lá mesmo, já que estávamos na altura certa da localização de onde queríamos assistir ao show.

Em um dado momento, de repente, o céu desabou. A chuva vinha nos ameaçando o dia inteiro, e ela finalmente veio, com tudo. Eu e o Marcelo tínhamos as capas de chuva que havíamos comprado no dia anterior, que nos salvou a vida. Mas minha cunhada e minha sogra, não. O parque esvaziou de tal maneira, e nós nos mantemos firmes e fortes. Acabou que a chuva espantou muita gente e assistir ao Wishes foi super tranquilo. Foi incrível. E emocionante. Minha coisa favorita da viagem, sem sombra de dúvida.

Wishes 2 Wishes 3

O problema agora era que a parada noturna tinha ido por água abaixo, literalmente. Encharcadas, minha cunhada e sogra quiseram ir embora e terminamos nosso dia mais cedo. Acabou que o monorail, que nos levaria para o Contemporary Resort, onde nosso carro estava estacionado, estava com problemas e depois de uma imensa fila para pegá-lo, desistimos de esperar e fomos a pé. O trajeto é curto, para ser sincera, mas a hora que estávamos indo de fato embora era a hora que a parada ia começar. Mais uma que eu perdi.

Nossa ceia de Natal não poderia ser menos Natal. Pegamos uma pizza na Pizza Hut que tinha no hotel e comemos no quarto. Não que não tenha sido boa, mas foi engraçado. A gente já tinha concordado que íamos aproveitar as atrações naquele dia, e por isso tivemos que abrir mão de um jantar mais legal. Eu não me importei nem um pouco, a gente já vinha comendo muito bem há dias, e comer no hotel tem a vantagem de te cansar menos.

DÉCIMO PRIMEIRO DIA: O DIA EM QUE EU QUASE IMPLODI

Gostamos tanto do Boma que voltamos para um segundo café da manhã. A comida estava boa como antes e eu me deleitei na French Toast Bread Pudding com Pecan Praline Sauce, uma das coisas mais gostosas que experimentei nessa viagem. O clima de Natal realmente toma conta dos americanos, a ponto de uma família inteira ter ido comer vestida de deliciosos pijamas xadrezes, veja que coisa singela.

Alimentados, seguimos para o segundo dia no Epcot. Eu tinha feito uma lista de comidas e bebidas legais para experimentar no World Showcase, mas antes tínhamos que conhecer duas atrações no Future World: Sum of All Thrills e Test Track. A primeira é um simulador de uma montanha-russa que você mesmo projeta. Depois de pronta, você entra numa cápsula que se movimenta conforme o desenho criado. É legal, mas não existe velocidade, por isso a emoção é bem diminuta, apesar de agradar, acredito eu, as crianças.

O Test Track, de certa forma, segue o mesmo conceito. Você projeta um carro e teoricamente anda nele depois. Como isso não é possível na prática, durante a corrida, o seu carro compete com os outros, projetados por outras pessoas, em vários quesitos. Mas, além desse caráter educativo, a corrida tem momentos bem emocionantes, principalmente quando atinge sua velocidade máxima e faz curvas fechadas.

Almoçamos no Via Napoli, que fica, claro, na parte da Itália. A decoração é bem bonita e o atendimento, muito bom. A comida me decepcionou um pouco. Dizem que o melhor de lá são as pizzas, cuja massa é feita com água importada de Nápoles, para que ela tenha a consistência certa. Mas eu não estava a fim de pizza e pedi uma Lasagne Verde, com molho bechamel, ricota, espinafre e parmesão. Estava ok.

Para a sobremesa, pedi um cannoli num carrinho que fica na saída da Itália. O melhor cannoli que comi na vida foi um feito por um senhor italiano que morava na Mooca e vendia suas delícias nos jogos do Juventus. Foi o mais perto de autêntico que cheguei, já que nunca fui para a Itália, mas ele fazia muito sucesso com os italianos e descendentes do bairro, então acredito que eram realmente bons.

O da Disney não era nada parecido com aquele. O creme de ricota não tinha gosto nem consistência de ricota, apenas de extrato de baunilha e açúcar. A massa era grossa e mais parecia um biscoito industrializado. E, para estragar de vez, ele era coberto por uma casquinha de chocolate também muito doce. Decepcionante. Depois dessa refeição fiquei um pouco receosa, e agradeci por não ter reservado um restaurante japonês, porque imagino que a decepção seria muito maior.

Via Napoli Via Napoli 2

Uma das coisas mais legais no World Showcase é que os funcionários são realmente nativos dos respectivos países, o que faz você acreditar mais na brincadeira. Apesar disso, sou da opinião que essas reproduções têm menos graça do que parece. Conheço gente que adora o World Showcase, mas eu não vejo muito motivo para se empolgar mais com esse mundo de mentirinha que nos países de verdade, por assim dizer.

Epcot Epcot 2

Junte essa sequência de decepções a outras de cunho mais profundo e pessoal, e meu dia estava sendo bem difícil. Já fazia uns dias que eu não vinha me sentido muito bem. Dediquei muito tempo e esforço para organizar a viagem, nos mínimos detalhes, de uma forma que pudesse agradar a todos, mas muitas vezes fui questionada, criticada e culpada por algo não sair conforme o planejado.

Acabei me sentindo, por vezes, um peixe fora d’água, uma pessoa que não pertencia àquela família e não merecia estar lá. E eu tinha que engolir os sapos e esperar a viagem terminar, não tinha muito o que fazer. Quem me manteve sã e forte foi o Marcelo, que ouviu meus desabafos, ficou do meu lado e fez de um tudo para que eu ficasse bem. E era o nosso último dia de Disney, eu queria aproveitar, apesar de, nesse momento, já não ter mais muitas forças.

Larguei mão do meu roteiro. Quando se toma decisões, dá-se a cara a tapa, e isso já vinha acontecendo de maneira constante e quase insuportável o suficiente para eu decidir deixar meu rosto de fora disso. Aí, com as idas, vindas, voltas e falta de decisões, acabamos não fazendo praticamente nada naquele dia.

Consegui experimentar um doce famoso por lá, o School Bread, no Kringla Bakeri Og Kafe, que fica na Noruega. O doce é um pão macio de cardamomo recheado com creme de baunilha coberto de glacê e coco tostado. E é muito melhor do que parece. Não sei quanto à autenticidade, mas é divino. Depois, perdi o Candlelight Processional, um show especial de Natal que eu realmente queria ver, mas não conseguimos encaixar no dia bagunçado. Deu tempo de assistir ao Reflections of China, um filme projetado em 360 graus bem legal.

E aí, já estava na hora do nosso jantar, que eu marquei cedo para dar tempo de ver o show noturno com tranquilidade. O restaurante escolhido foi o La Hacienda de San Angel, que fica no México. Caso quiséssemos era também possível assistir ao show de lá, através dos janelões de vidro, então imaginei que seria um boa ideia. Infelizmente, eles estavam com algum problema, de overbooking, creio eu, e demoramos muito para conseguirmos uma mesa, que, por sorte, ficava ao lado de uma janela.

Meu humor pedia álcool, e eu tentei escolher o drink mais exótico do cardápio: Orange Mango Fire Margarita, feito com tequila, licor de gengibre, suco de laranja, purê de manga, suco de limão, toque de Tabasco servido com gelo e a borda da taça coberta por pimenta Tajin em pó. O drink é delicioso, forte, doce na medida e muito apimentado. Eu quase não consegui terminar. Para comer, pedi os Tacos de Camarones para dividir com o Marcelo: camarões fritos, aioli de chipotle e limão, repolho e salsa verde servidos sobre tortillas de trigo.

Eu não consegui provar o prato. A tequila não amenizou o clima tenso, mas a pimenta do drink não teve nada a ver com isso. Acho que só naquele momento eu senti como as coisas vinham se amontoando dentro de mim como se eu não tivesse fundo, e depois de uma gota d’água que fez tudo transbordar, eu pedi licença e saí do restaurante.

Minha fome tinha ido para o espaço e minha raiva e tristeza eram tantos que eu sentia que se ficasse lá ia implodir. Não me defendi, não briguei, só levantei. E me vi, num dos fumódromos do parque, sozinha, na noite de Natal, tremendo de frio e raiva, chorando.

Graças ao wifi da Disney, consegui conversar com minha irmã. Desabafei o que consegui, o suficiente para não pirar, e esperei eles me encontrarem. Acho que nunca vivi momentos tão estranhos como aqueles. Eu queria ir embora, mas não podia. Eu queria gritar, mas não podia. Sentia peso nos ombros e dor no coração.

Não íamos embora ainda. Ia começar o Illuminations: Reflections of Earth, o show de encerramento. Ele é maravilhoso, e me ajudou a suportar a situação. E, de volta ao hotel e com fome, agradeci a mim mesma por ter guardado uma fatia de pizza do dia anterior.

DÉCIMO SEGUNDO DIA: CATANDO OS PEDAÇOS DE MIM MESMA NA UNIVERSAL

Acordei mal. E sem vontade alguma de continuar o dia. Mas tirei forças do além e do café da manhã que fizemos no Whispering Canyon Café pela segunda vez. A garçonete que nos atendeu era uma figuraça. Imigrante japonesa, ela interagia com os outros garçons e conosco de forma hilária e nada tímida, algo inesperado para uma japonesa.

Ao notar que ela conversava em japonês com uma menina de outra mesa, que era coreana e fluente na língua dos meus antepassados, senti novamente a culpa de nunca ter aprendido direito a língua, e uma vontade enorme de o fazer o mais rápido possível. Algumas piadas com o Marcelo depois, eu já me sentia melhor. Pedi um Eggs Any Style, com ovos poché, linguiças, biscuit e frutas no lugar das batatas. Meu estômago não estava totalmente recuperado e achei melhor colaborar.

Deixei meu roteiro do Universal Studios no hotel e não fiz nenhuma sugestão. Segui o que o resto do grupo queria fazer, e pela primeira vez me senti livre. Não me preocupei em achar os armários, em pegar os mapas, em liderar ou achar os caminhos. Não que eu me importe em fazer essas coisas, mas a esse ponto, tomar para mim qualquer responsabilidade estava fora de cogitação, até porque eu ainda estava muito chateada e tinha que tirar algum peso, de alguma forma.

O parque estava absolutamente cheio. Quase insuportável. O primeiro brinquedo era o Harry Potter and the Forbidden Journey, que fica no Islands of Adventure mas não conseguimos fazer no outro dia porque a fila estava imensa (e ele não aceita o ExpressPass). A fila não estava mais curta, mas fomos. Devemos ter esperado umas duas horas, a despeito dos 70 minutos que indicava a placa. E a atração é muito legal. Me lembrou o The Amazing Adventures of Spider Man, menos radical, mas super bem produzido. Não valeu a pena para mim, estava cansada da fila, passei calor, e, claro, meu humor estava dos piores. Mas num dia menos cheio, deve valer.

Pegamos o Hogward Express, o trem que é em si uma atração e te leva para o Universal Studios. Perdemos mais cerca de duas horas e meia na fila do Harry Potter and the Escape from Gringotts, uma montanha-russa interna com projeções em 3D que não valeu nem um pouco a pena. O brinquedo não é ruim, mas duas horas e meia de fila, logo depois de ter pego duas horas em outra são de matar qualquer um.

Almoçamos no Leaky Cauldron, que minha cunhada escolheu, no Diagon Alley, a parte HP do parque. Ele é bem similar ao Three Broomsticks, tanto em ambientação quanto no cardápio. Pedi uma cerveja porque, né. Eu queria uma stout, e ele me indicou uma delas, que para mim era idêntica à Guiness. Não me lembro se era a Wizard’s Brew ou a Dragon Scale, mas suspeito que seja a segunda. Para comer, pedi a Cottage Pie, um ensopado de carne e vegetais coberto por purê de batatas servido com uma saladinha. Estava gostoso.

Tivemos tempo de fazer pouquíssima coisa depois dessas filas absurdas: o Simpsons Ride, um simulador 3D bem divertido, e o Men in Black Alien Attack, onde você sai atirando em alienígenas conforme seu carrinho vai andando e mantendo placares. É bem legal.

O desânimo era grande, e resolvemos ir embora antes mesmo do jantar no restaurante que eu tinha reservado e do show de encerramento. Várias atrações que eu tinha vontade de conhecer ficaram para a próxima, mas eu dei graças por estar indo embora.

Pedimos hambúrgueres no quarto do hotel, que eram enormes e bons. Minha escolha foi o Black and Blue Burger, que consistia em uma hambúrguer de acém de 300 gramas, com uma crosta de temperos (o que eles chamam de blackening seasonings e pode ter uma infinidade de condimentos, como páprica, pimentas e ervas), alface, tomate, cebola e gorgonzola num Kaiser roll, que é um pão de crosta mais dura.

DÉCIMO TERCEIRO DIA: TRAIL’S END, MALL AT MILLENIA, PET SMART, ROCK’N’ROLL HEAVEN E CIRQUE DU SOLEIL

Minha sogra e cunhada não quiseram sair no nosso último dia, o que foi bom, porque nos deu mais liberdade e um descanso daquele clima horroroso que havia se formado sobre nossas cabeças. Começamos no Trail’s End, um restaurante que fica no Fort Wilderness Resort, uma propriedade enorme e isolada, que oferece chalés e espaços para acampar. Para chegar ao restaurante, tivemos que deixar o carro no estacionamento que fica no pavilhão, onde é feito o check in, e pegar um ônibus para um local ainda mais tranquilo e isolado.

O restaurante é simples, mas charmoso. O atendimento é correto. A comida estava ótima, e os preços são excelentes. É uma das melhores opções para se tomar café da manhã na Disney, a meu ver, pelo custo-benefício.

Enchi meu prato das delícias que eu não poderia comer aqui: waffles, cheese grits (canjica salgada com queijo), eggs benedict (ovos poché, bacon canadense e molho hollandaise sobre english muffins, ou muffins ingleses) e biscuits with sausage gravy (pãezinhos amanteigados com molho cremoso de linguiça). Sim, eu já estava com saudade.

O buffet tinha os clássicos do café-da-manhã americano, sem frescuras. Além da lista acima, havia pães, muffins, ovos mexidos, omelete com vegetais, batatas, bacon, linguiças, french toast custard pudding (uma espécie de pudim de rabanada), mingau de aveia, frutas e até breakfast pizza (pizza de café-da-manhã). Yum!

Meu pai havia feito uma encomenda: o novo disco do Pink Floyd, o Endless River, na versão dupla. Por aqui ele só encontrou a versão simples, custando os olhos da cara. Na Amazon estava esgotado e pedi para ele uma lista das lojas que pudessem ter o disco em Orlando. Liguei para a primeira loja da lista, a mais próxima do hotel, e ainda assim longe, lá no centro de Orlando. Me atendeu um senhor muito simpático, de sotaque difícil de entender, que disse ter uma cópia. Pedi para ele reservar e fomos para as últimas compras da viagem.

Passamos no Mall at Millenia porque eu ainda não tinha comprado o que queria de roupas. Fiquei decepcionadíssima com a Forever 21 de lá. Depois da loja da Times Square, em NYC, aquela que fica aberta até 2 da manhã e tem quatro intermináveis andares, acho que nunca nenhuma loja de fast fashion vai me satisfazer o suficiente. Para não dizer que não achei nada, comprei duas calças de pijama xadrezes fofas, que eu realmente estava precisando, e fomos embora.

Era dia de comprar o perfume, aquele que eu comentei na primeira parte desse Diário de Bordo. Só que eu ainda não tinha me decidido. O que eu mais havia gostado dos três que levei para casa em forma de amostra tinha sido o Dolce & Gabbana 3 L’Imperatrice, só que a fixação dele não é das melhores (ele é eau de toillete), e eu decidi experimentar outros. A Sephora era o lugar para isso. O cara que me atendeu era o oposto do estereótipo que se espera para um vendedor da Sephora: grandão, negão, hétero e desencanado.

Ele me mostrou uns vinte perfumes e a cada cheirada eu ficava mais confusa. Consegui escolher dois dos vinte, provei na pele e fui dar uma volta (porque esse é o jeito certo de experimentar perfume, na pele e esperando um tempo pra fragrância se desenvolver). Coincidentemente, um deles era o My Burberry, uma das três amostras que eu tinha pego da primeira vez. Até provei outros na Macy’s, mas o que eu gostei mesmo foi o My Burberry. Ele era eau de parfum, então deveria ter uma boa fixação, mas não era super forte, e serveria para o verão.

O único problema era que o intuito era usá-lo durante a viagem, e eu passei a viagem alternando entre três perfumes para me decidir, então o objetivo de cultivar as memórias olfativas falharam dessa vez. Voltei para a Sephora e o vendedor gente boa estava lá. Comprei e ele me disse que mais tarde estaria num dos restaurantes do shopping (o segundo emprego dele), para passarmos lá se estivéssemos com fome. Simpatia pura.

Pensamos em comer no Cheesecake Factory, mas a fila estava enorme e nosso jantar ia ser cedo, então achamos melhor continuar com nossas compras. Passamos no PetSmart, outro petshop imenso, e achamos uma roupinha macia e quentinha para a Nina, que só está esperando o inverno chegar para ser estreada.

Depois de lá, seguimos em direção ao centro, região até então desconhecida. A loja de discos chama-se Rock’n’Roll Heaven, e é muito, muito legal. Tem cara de sebo, uma variedade enorme de discos novos e usados, e está meio detonada, o que acaba conferindo um charme necessário.

O cara que falou comigo por telefone estava no balcão, e parecia o dono. Devia ter uns 50 ou 60 anos, e me contou que, depois do meu telefonema, duas pessoas ligaram perguntando pelo disco. E era a única cópia, aparentemente na cidade inteira. Dei sorte. Quando falei que era uma encomenda, ele colocou o disco numa embalagem de papelão super resistente e fui embora com vontade de conhecer mais daquela cidade que logo mais eu abandonaria.

RocknRoll Heaven 2 RocknRoll Heaven

Pegamos um trânsito chato na volta, mas conseguimos chegar a tempo de arrumar as malas e nos arrumarmos para jantar e assistir ao show do Cirque du Soleil de Orlando, o La Nouba. Eu tinha planejado um jantar no Raglan Road, que fica no Downtown Disney, onde também fica o Cirque du Soleil. Mal sabia eu que a região está em reforma, resultando num trânsito absurdo. Levamos, da entrada da Disney para o estacionamento provisório do Downtown nada menos que duas horas, uma hora e cinquenta a mais que o normal. Apenas.

Perdemos a reserva e eu ainda tentei, enquanto engolia um pretzel para não morrer de fome, falar por telefone com o SAC para evitar que houvesse cobrança de não-comparecimento no meu cartão de crédito. Estávamos em cima da hora para o início do show, o restaurante era do lado oposto e havia uma multidão entre nós. Não ia dar tempo de ir até o restaurante.

Não consegui resolver por telefone, mas consegui um email. Para que vocês saibam a resolução desse problema, ao chegar no Brasil enviei um email, e eles me ligaram, na hora que eu pedi para ligarem, para se desculparem pessoalmente pelo inconveniente e dizerem que o valor que já havia sido cobrado, seria imediatamente devolvido. Sonho de atendimento ao consumidor.

Inconvenientes a parte, quando sentamos na plateia, relaxei. Conhecia a boa fama do Cirque du Soleil, nunca tinha assistido a nenhum show, e ao final, estava embasbacada. É muito melhor do que se pode imaginar. Os palhaços são ótimos, as acrobacias tradicionais e as nem tão tradicionais assim são de cair o queixo e toda a produção como um todo é impressionante, de conceito a realização, de direção a performance, do ponto de vista técnico, narrativo e visual. Incrível. O show salvou o que poderia ser um fiasco de noite e fomos felizes para o hotel, mesmo sabendo que não dormiríamos, já que tínhamos que estar no aeroporto às 4 da matina.

Falei um pouco sobre a viagem de volta aqui (e como sobre um filme a salvou). Em suma, apesar do término das férias e da despedida de uma viagem fantástica, havia um destino muito almejado a nossa frente, e a viagem era a inconveniente ponte que nos separava.

Vivi intensamente todos os momentos dessa viagem, os felizes e os tristes. Devo ser uma das únicas adultas que chorou (de tristeza) dentro da Disney. Comi como se não houvesse amanhã e biquínis. Voltei a ser criança e tive que ser mais adulta. Foi inesquecível, para o bem e para o mal.

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