Vencendo um preconceito: jantar no Coco Bambu

Coco Bambu Coco Bambu 2

Lembro quando jantei no Coco Bambu em Fortaleza, e tive uma ótima experiência. Faz muito tempo, e eu não lembro de quase nada. Não lembro o que comi, se gostei muito ou médio da comida, nem em qual unidade eu fui (se é que naquela época já havia três unidades na cidade). Mas lembro das sensações.

Faz exatamente oito anos. Eu já havia visitado Fortaleza e arredores com três ou quatro anos de idade, mas as lembranças eram muito vagas, por razões óbvias. Uma amiga paulistana estava morando lá e eu decidi que era uma boa oportunidade para visitar a cidade e renovar minhas impressões. Até então, nunca tinha viajado sozinha na vida e, apesar de ter a companhia dela lá, minhas férias não coincidiram com as dela, e por isso, durante o dia eu me virava sozinha quando não tinha companhia de algum amigo dela. Foi ótimo para mim. Sempre odiei ficar sozinha, fazer coisas sozinha, e descobri que ficar com minha própria companhia pode ser muito bom.

A viagem foi uma experiência e tanto. Conheci muita gente interessante e, por estar entre locais, conheci lugares pouco turísticos e mesmo assim, maravilhosos. Fizemos uma viagem de carro pelo litoral a leste de Fortaleza, aproveitando hospedagem de amigos, passando por Canoa Quebrada, Morro Branco e Praia das Fontes. Não fizemos o litoral Oeste até Jericoacoara por questões logísticas, mas as paisagens que visitamos não deixaram nada a desejar. Comemos muito camarão a preço de banana, tomamos muito sol e banho de mar e cada praia visitada se mostrava uma maravilha da natureza. Para agradecer minha amiga pela hospedagem, convidei-a para jantar num restaurante de sua escolha, e ela escolheu o Coco Bambu.

Não me lembro de muita coisa, mas lembro que o restaurante era intimista, de pé-direito baixo, meia-luz, decoração rústica e descontraída. Um lugarzinho perfeito para terminar uma viagem dessas. Não lembro o que comemos, mas lembro que gostei. Acima de tudo, as sensações que o lugar traziam me faziam à vontade e feliz. Fechou a viagem com chave de ouro.

Anos depois, eis que inaugura uma filial na Avenida Juscelino Kubitschek, em São Paulo Ele não se parecia em nada com aquele que eu tinha conhecido em Fortaleza. Era imponente, com pé-direito duplo, fachada contemporânea, de linhas retas e sóbrias. Foi um fenômeno, o lugar estava hypado em semanas. E eu logo desconfio de lugares assim. Até hoje, anos após a sua inauguração, as filas ainda são enormes, pelo que ouvi dizer. Eu mesma nunca corri atrás de informações porque não tinha a menor vontade de comer num restaurante que, a me ver, não se parecia em nada com aquele que eu havia conhecido anos atrás em Fortaleza. Eu já tenho um certo preconceito com restaurantes de rede. Para piorar, pegaram um conceito, reciclaram, continuaram com o mesmo nome e propagaram como praga. E ainda faz sucesso. Sinceramente, eu não consigo entender. Só que toda essa minha indignação era infundada, até então, porque eu nunca tinha chegado nem perto do restaurante.

Eis que meu pai me convida para jantar no domingo. No Coco Bambu. Para piorar, ele tinha um cupom desses sites de venda coletiva, o que geralmente significa que o restaurante é ruim e só consegue se divulgar através dessas promoções aparentemente imperdíveis, além de atrair filas imensas e oferecer menus limitados e geralmente insatisfatórios. Mas eu não podia recusar, muito menos reclamar. Até porque eu não tinha conhecimento de causa, e jantar com minha família é muito mais que comer bem. Não me importo muito com o restaurante escolhido, a companhia e colocar a conversa em dia é mais importante.

Para minha surpresa, o Coco Bambu tem outra unidade em São Paulo. O cupom valia apenas para a unidade Anália Franco que, presumo eu, por ser a menos conhecida, está se valendo dessas promoções para divulgação. Tentei fazer uma pesquisa sobre a história do restaurante, para tentar entender como se deu esse crescimento, mas o site é bastante pobre de informações. Também não consegui conhecer o cardápio de antemão, que é algo que eu costumo fazer antes de visitar restaurantes desconhecidos. Mas descobri que, além da segunda unidade na cidade de São Paulo, a rede já se estende por sete estados brasileiros, além de Miami. Isso só me fez torcer ainda mais o nariz, mas tentei ir com a mente aberta.

Tínhamos combinado de chegar às 18h porque, segundo meu pai, as filas são imensas em horário de pico. Fizemos bem. Nesse horário, o restaurante estava tranquilo, com algumas mesas terminando o almoço tardio. Uma hora depois da nossa chegada, as pessoas apinhavam-se na porta como se não houvesse amanhã – ou outro restaurante em São Paulo.

De cara, notei o serviço desorganizado. Não havia ninguém para nos receber e os garçons corriam pelo salão de forma que tinha-se que tomar cuidado para não esbarrar em um deles. Nossa mesa estava suja e as bebidas demoraram muito para chegar à mesa. Tive que pedir duas vezes por um chope. Um dos garçons não conseguiu explicar os pratos. Apesar disso, todos que nos atenderam eram simpáticos e atenciosos.

Estávamos delimitados a três opções de prato principal: Camarões Imperial, Camarões Mediterrâneos ou Filé a Parmegiana. Acho engraçado como, nessas promoções, a escolha de pratos disponibilizados não inclui os carros-chefe do restaurante. Se o intuito é divulgar, nada mais coerente que apresentar o que há de melhor no restaurante, certo? Pois bem, visto que eu não poderia me esbaldar em uma moqueca, prato que almejava naquele dia, decidimos por dois pratos para cinco pessoas. O cardápio indicava que um deles servia três pessoas e que o outro servia quatro. Mas aconselhados por uma amiga que já havia comido lá, decidimos que eles não seriam suficientes. Decepcionada com o fato de não poder provar a moqueca ou algo mais tipicamente nordestino, decidi experimentar algumas entradas. Para agradar o paladar de todos, pedimos os Mexilhões do Atlântico, a Lula a Dorê e a Polenta Frita com Alecrim. Os mexilhões estavam deliciosos, cozidos no ponto certo, com molho rico (apesar de levemente salgado) de cebola, alho, pimentões e nata, e bela apresentação para um prato feito para dividir. Eles acompanhavam torradas amanteigadas, mas eu acho que pão no lugar das torradas seriam melhor aproveitados, com o molho do prato. Foi, de longe, a melhor coisa que comi lá. As lulas estavam levemente bem-passadas e um tanto quanto insossas, bem como o molho tártaro que as acompanhava. A polenta estava acima da média, crocante por fora, macia por dentro e sequinha, com o sabor do alecrim bem pronunciado.

Já quase satisfeitos com as entradas generosas, fomos aos pratos. O Camarões Imperial consistia de espaguete com molho de tomates (com opção de ser molho branco) coberto de vinte camarões médios empanados com pão e alho. A massa estava corretamente cozida, e o molho de tomates estava realmente bom, digno de uma boa cantina italiana. Ficaria extremamente decepcionada se descobrisse que o molho não é feito na cozinha do restaurante (com um cardápio imenso, acho difícil tudo ser produzido lá). Os camarões, por sua vez, tinham passado do ponto. A crosta de pão e alho era discreta e não conferiu o sabor ou a crocância que eu esperava. Os Camarões Mediterrâneos pouco tinham de mediterrâneos: arroz cremoso de manjericão com camarões salteados, muita muçarela e batata palha. O excesso de queijo arruinou o prato, em consistência e sabor. O manjericão, por sua vez, escasso, era sentido somente em uma garfada ou outra. Os camarões estavam novamente bem-passados. Em suma, me senti comendo uma espécie de hot dog de rua, onde a proteína não precisa ser de qualidade nem se sobressair, e os acompanhamentos são tantos e tão abundantes, que não se sente o sabor de nada, apenas o de uma maçaroca indefinível – apesar de inexplicavelmente gostosa, às vezes. Os pratos eram enormes e teriam, sim, servido quatro pessoas cada um, ainda mais com as entradas que provamos.

Coco Bambu 3 Coco Bambu 4

Pelo valor que pagamos, cerca de R$ 65,00 cada um, esperava mais, apesar de entender que não se pode esperar muito de um restaurante de rede com um cardápio quase esquizofrênico de tão grande. Mas, no fim das contas, fiquei mais satisfeita do que esperava ficar. O prato de mexilhões é realmente bom – só poderia ter um tico menos de sal –, a polenta era bastante boa e o molho de tomates do prato de massa não poderia ser melhor. Com um cardápio mais focado e coeso e uma boa organização do atendimento, acredito que o Coco Bambu poderia sofrer notável melhora. Mas se as filas continuam imensas, por que mudar? Se o paladar medíocre é agradado, não há razões para fazer alterações, até porque a grande maioria prefere gastar menos, atraídos pelas palavras camarão e barato postas na mesma frase, mesmo que a origem desse camarão seja duvidosa e o seu preparo, desprovido de qualquer cuidado, que experimentar pratos mais elaborados, menores – mas satisfatórios em quantidade – e pagar mais.

Voltarei ao Coco Bambu? Talvez, já que há vários itens no cardápio que eu gostaria de provar, até porque a irregularidade da nossa refeição me faz pensar que há algumas gemas escondidas. Mas, se o fizer, provavelmente será porque é o restaurante escolhido pela família para um encontro. E chegarei cedo.

COCO BAMBU ANÁLIA FRANCO – Rua Azevedo Soares, 2150, Jardim Anália Franco – tel: (11) 4304-6221

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