Quando um filme no avião salva a viagem: Begin Again

Begin Again

Para mim, não tem coisa pior que viagem de volta. A combinação aeroporto, avião, alfândega, fim de férias e volta à realidade é bombástica. Na minha última viagem, o voo era cedo e por isso mal dormi na noite anterior. Na verdade, ainda era noite quando fizemos o check out do hotel. A ideia de passar nove horas dentro de um avião para sair da órbita mágica das férias para passar pela alfândega simpática do Brasil, viajar mais uma hora de carro para buscar a Nina e voltar para São Paulo com malas a desfazer e o marido voltando ao trabalho no dia seguinte não era nada reconfortante.

Não sei se era o medo da mudança brusca de cenário, ou se meu emocional, abalado pela montanha-russa que foi essa viagem – no sentido figurativo, e não literal – já pedia arrego, mas nenhuma viagem de volta nunca foi tão sofrida quanto essa. As nove horas pareceram demorar muito mais, e mesmo as confortáveis poltronas da executiva – cortesia da sogra – não diminuíram a minha ansiedade de sair de lá. Ah, e, claro, dessa vez tinha a Nina. Foi a primeira vez que ficamos tanto tempo sem ela, e a saudade doía.

Eis que as nove horas viram doze. Tá, então não era só impressão, elas realmente duraram mais. Naquele dia caía o maior temporal de todos os tempos em São Paulo. Não pudemos pousar em Guarulhos e fomos para o Galeão. No momento em que fomos avisados, nosso avião já deixava São Paulo, e ainda não sabíamos se apenas pousaríamos para abastecer ou se teríamos que trocar de aeronave. Nesse momento, eu só pensava em duas coisas: minha cama e a Nina. Quando pousamos, decidi que era melhor procurar algo para assistir porque minha aflição não permitia me concentrar no meu livro e muito menos no meu sono.

A seleção de filmes era inesperadamente boa. Na viagem de ida tinha assistido Boyhood, mas confesso que a tela pequena e as muitas interrupções para dormir não fizerem bem ao filme – ou eu apenas tenha achado ele superestimado mesmo. Já sem saco para coisas muito complexas ou profundas, escolhi um desconhecido (ando muito desinformada sobre cinema). Begin Again (Mesmo se nada der certo) me parecia algo leve, descontraído e despretensioso. Perfeito para aquele momento. Gosto do Mark Ruffalo, mas nunca fui muito com a cara da Keira Knightley. E naquele momento não sabia que o diretor era o John Carney (o mesmo de Once/Apenas uma Vez).

A primeira coisa que me surpreendeu foi a Keira Knightley, pela atuação, mas mais pela voz incrível. Duvidei, durante o filme todo, que fosse ela mesma cantando, e quebrei a cara. Mark Ruffalo está melhor que nunca. Adam Levine (eu não sabia que ele era o vocalista do Maroon 5) é eficiente, bem como todo o elenco principal. A história, que vai e volta no tempo, é bem contada e tenta a todo custo fugir de clichês. Funciona. Quem assiste esperando uma comédia romântica ou algo do tipo, se decepciona muito. Ou ama, como foi o meu caso. Outro ponto positivo do filme é mostrar uma Nova York diferente do que se costuma ver no cinema. As figurinhas marcadas são lindas e rendem belos cenários, mas já que o filme tenta fugir o máximo possível do mainstream, nada mais apropriado que buscar cenários menos óbvios.

Mas o maior trunfo do filme é mesmo a música. As composições são perfeitas para os compositores de mentira e as situações pelas quais eles estão passando, tornando tudo muito crível e ainda mais envolvente. O disco da trilha ficou no repeat no meu Spotify por semanas, e penso se eu teria gostado tanto das músicas se não fosse o filme. Provavelmente não, porque a beleza do cinema é justamente a junção de tudo isso. São muitas variáveis, e uma pode detonar ou enaltecer as outras, assim como elas podem ser mutuamente valorizadas. É exatamente o que acontece em Begin Again. Eu só posso agradecer a Scarlett Johansson, que recusou o papel da Keira. Ela está perfeita.

Quando o filme terminou, estávamos a minutos de pousar em Guarulhos. O avião pousou no Galeão, abasteceu e depois de uma hora estávamos voando de volta. Timing perfeito. Se não fosse esse desvio, provavelmente eu não teria assistido ao filme. Nunca.

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