Meu filme favorito de 2014: Chef

Chef

Contém spoilers.

Assisti a Chef despretensiosamente. Eu estava animada, mas as expectativas não eram altíssimas. Aliás, a melhor forma de se assistir a qualquer filme é sem expectativas, mas acho que isso, amiguinho cinéfilo, você já sabe. O duro é colocar em prática, né?

Foi no sofá de casa, ao lado do marido, tomando umas cervejas e comendo coisinhas. Confesso que fiquei até levemente bêbada durante o filme, e é óbvio que eu sei que isso influenciou meu julgamento. Por isso, e porque eu realmente gostei muito do filme, assisti de novo, menos de uma semana depois. E uma terceira, algumas semanas mais tarde. E uma quarta, recentemente. Nas três últimas vezes eu estava sóbria, por isso, confio no meu julgamento. Até porque estamos falando aqui de filme favorito, o que nada tem a ver com primor técnico e blablablá.

Existem filmes que melhoram ou pioram com as revisões. Apesar de eu não ter dado intervalos longos entre elas, Chef não melhorou nem piorou. Ele continuou sendo tão bom quanto havia sido da primeira vez, o que me faz chegar à conclusão de que a minha escolha foi mesmo de cunho emotivo.

Chef foi escrito e dirigido por Jon Favreau, que também atuou como o protagonista da história. Assim como o seu personagem, Favreau também deixou de lado, ao realizar esse projeto, as grandes produções hollywoodianas às quais se dedicou nos últimos anos para investir em algo menor, pessoal e autêntico. Pode soar clichê, mas a verdade é que a maioria de nós almeja isso, essa liberdade para sair da caixinha e criar, essa coragem para sair do marasmo seguro e buscar algo novo e assustador. E esse tipo de história, quando bem contada, sempre acaba me inspirando um pouco. Ainda mais quando gira em torno de comida.

Eu amo comida. Sou bom garfo, gosto de cozinhar e me interesso pelo assunto nas mais diversas plataformas: livros de receitas, reality shows, canais do YouTube, blogs e por aí vai. A Gastronomia, aliás, foi uma das carreiras que cogitei, antes de me decidir por Cinema. Pois bem, algumas das melhores cenas do filme acontecem na cozinha (ou no trailer), como não podia deixar de ser. A diferença está na forma como as cenas são feitas. Sinceramente, não me lembro de cenas de cozinha tão verossímeis em cinema, e olha que eu já assisti a muitos filmes com comida. Não é à toa: durante a pré-produção, Favreau estudou culinária e trabalhou na cozinha do chef Roy Choi, consultor do filme (creditado como co-produtor). As cenas com comida são inspiradas e inspiradoras. Para quem gosta de comer, digo que fica bem difícil não ficar com fome. Para que gosta de cozinhar, a mesma coisa.

Veja aqui a receita adaptada dos Sanduíches Cubanos pela Isa do Gastronomismo. Ela vai te salvar quando, depois de assistir ao filme, você estiver salivando.

Os personagens principais, ao lado de Chef Casper, personagem interpretado por Favreau, são outro destaque do filme, a começar por seu filho que, distante do pai desde o divórcio, reaproxima-se dele através da comida, que atua como uma ponte para o seu relacionamento, como uma nova forma de comunicação, que sempre esteve disponível mas nunca foi explorada. É também a comida que causa desavenças entre Casper e um de seus antagonistas, o blogueiro de sucesso Ramsey Michel, mas que os aproxima no final. E é novamente a comida, e a paixão por ela, numa representação do amor pela vida e a garra de encontrar um novo papel no mundo, que reúne Casper de sua ex-mulher e reafirma sua amizade com o assistente, promovido a sous chef no food truck, Martin, interpretado pelo sempre ótimo John Leguizamo. Nada de novo nos relacionamentos dessa história, mas permeada de sutilezas, graça, momentos cômicos e bons diálogos, ela cativa e inspira torcida por um final feliz.

Para ajudar, Chef ainda é um road movie. Desses que te inspiram a fazer o mesmo trajeto. Eu tenho muita vontade de conhecer New Orleans e Miami, mas nunca cogitei passar por Austin. Essa é realmente uma boa ideia para road trip: atravessar os EUA de costa a costa, partindo de Los Angeles (uma cidade que não me atrai muito), comendo bem e visitando paisagens tão distintas e culturalmente ricas. Aliás, a excelente trilha sonora que embala o filme, especialmente durante a viagem, dá o tom perfeito à aventura descompromissada.

Enquanto assistia a Chef me lembrava constantemente de outro road movie: Sideways, um dos meus filmes favoritos da vida. Em Sideways, o irmão mais melancólico de Chef, o protagonista também se encontra num platô, solitário e desgostoso. Se trocarmos a comida pelo vinho, adicionarmos uma dose extra de cinismo e um final em aberto, temos dois filmes, de certa forma, parecidos, concordam? Paul Giamatti é um ator injustamente negligenciado por Hollywood, e talvez seu papel em Sideways seja o mais importante de sua carreira até agora, enquanto que Favreau, apesar de um ator mediano, entrega roteiro e direção bem redondos, o que indica um talento até então escondido. Em ambos, é necessário sair da zona de conforto, o que significa passar por situações humilhantes e abandonar fisicamente um lugar para tentar encontrar outros significados para a vida – ou apenas uma forma de escapar do que foi construído até então – seja por escolha ou não. Mas, se em um a realização profissional caminha paralelamente à realização pessoal, no outro, entende-se que uma coisa não necessariamente leva à outra, ou está automaticamente ligada à outra. A história de Sideways é, sim, muito mais complexa. Mas, em ambos, vemos que a paixão por algo, por maior que seja, não nos sustenta e nos faz caminhar. Pelo contrário, ela pode ser o motivo de suas maiores frustrações. Cabe a você entender como direcioná-la e impulsioná-la, com uma dose de sorte e apoio externo.

No meu estado atual, um pouco de otimismo, por mais frívolo que seja, cai como chuva na Cantareira. Acho que por isso gostei tanto de Chef. É um filme para assistir com um sorriso no rosto e terminar de alma leve.

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