Netflix, torrents e salas de cinema

TV

Há tempos tenho negligenciado as salas de cinema e tenho acompanhado mal e porcamente as publicações e críticas a respeito de cinema. Tendo me formado em Cinema e considerando a sétima arte uma de minhas grandes paixões, isso é inconcebível, eu sei. Mas tenho uma série de desculpas que justificam meus hábitos atuais.

Como boa paulistana, ou moradora de uma grande metrópole, me sinto oprimida, tanto pela oferta de atividades quanto pela quantidade de pessoas com as quais tenho que lidar no cotidiano, seja no trânsito, em filas ou em salas de cinema. É muita gente mal educada em todo canto, e isso me causa uma enorme preguiça. Para começar, preguiça de sair de casa. Depois, enfrentar trânsito a qualquer hora do dia ou dia da semana. Aí, enfrentar filas para encontrar vaga no estacionamento, comprar ingressos, ir ao banheiro, entrar nas salas, sair das salas, pagar o estacionamento, sair do estacionamento. E trânsito de novo. Fora os preços abusivos. Uma simples ida ao cinema pede planejamento, e ter horários a cumprir não parece atrativo nos momentos de lazer, muito menos pagar uma pequena fortuna para assistir a um filme mal projetado, numa sala proporcionalmente desconfortável, ao lado de espectadores que não se comportam como deveriam. Dito isso, admito: assistir a um filme no cinema, por pior que sejam os pormenores, sempre é uma experiência melhor que assistir na TV de casa. Certo? Não sei mais. Em casa, gasto pouco ou nada para tal, tenho um sistema de áudio e vídeo que considero mais que satisfatórios e não tenho que lidar com plateias desrespeitosas – à obra e ao próximo. É uma briga boa. Some-se a isso o maravilhoso advento do sistema de streaming de filmes e séries por assinatura. E dos torrentes (mas isso fica entre nós). A oferta é enorme e o acesso, fácil, rápido e barato. A preguiça ganha espaço e a comodidade prevalece. Como um vírus, esse hábito toma conta de você com eficiência invejável e quando se vê, as salas de cinema já não têm tanta importância assim. Não tenho orgulho desse estilo de vida, mas tenho certeza que não estou sozinha. Mesmo com uma biblioteca muito modesta se comparada à americana, o Netflix brasileiro apresenta uma variedade muito boa de conteúdo. E, agora com os relatos de usuários que tiveram suas contas bloqueadas pelo uso de proxys para ter acesso à biblioteca americana, o jeito é se contentar com a tupiniquim mesmo. Tem muita bobagem, é claro, mas o exercício de curadoria que nós assinantes exercemos pode ser até divertida, apesar de sempre desafiadora. Quem nunca se viu a tanto tempo procurando algo para assistir que acabou tendo que desistir porque já era tarde, ou porque a oferta é tão grande que fica difícil escolher? Quem, como eu, tem uma “Minha Lista” tão grande que mal consegue navegar por ela? Já me peguei desejando que a tal da lista tivesse uma sublista para fazer uma seleção da seleção. Querer abocanhar todo tipo de informação e conteúdo disponível e não conseguir absorver nada, no final das contas, é, aliás, já um velho novo hábito desses tempos. Fora isso, os torrents facilitam, há anos, a nossa vida, os piratinhas. É feio, eu sei, ainda mais vindo de alguém que estudou direitos autorais e tals. Mas é irresistível. Tanto para séries às quais não temos acesso no Brasil, quanto para uma infinidade de filmes que não entram em circuito comercial, ou que estão fora de catálogo, e até para super lançamentos que não podemos esperar nem mais um dia para ver. E sem enfrentar filas de pré-estréia e chutes na poltrona. Dito isso, chego à segunda parte da minha justificativa. Assim como os paulistanos, as fontes de informação sobre cinema também me oprimem. A oferta é tamanha que mal consigo acompanhar um site ou blog, que dirá vários. Dá até uma certa nostalgia da época em que eu escolhia os filmes através do Guia da Folha em papel jornal que chegava na sexta-feira. Acabo usando a própria biblioteca do Netflix como fonte. E a página inicial do Kickass Torrents. Claro, sempre acompanhada de IMDB e Youtube. Apesar da péssima qualidade dos trailers atualmente – não sei se exatamente falta de qualidade ou critério – ainda recorro, vez ou outra, a eles para decidir se vou ver o filme ou não. Mas é óbvio que, como o serviço já está pago, no caso do Netflix, ou é de graça, no caso dos torrents, deixamos de ser tão criteriosos quanto à escolha dos filmes aos quais assistimos, e, por isso, perdemos mais tempo com bobagens, assistimos a mais filmes medianos e, a parte boa, damos de cara, vez ou outra, com pérolas que nunca teriam caído no nosso colo fosse o caso de pagar para assistir no cinema, ou alugar na videolocadora. Por outro lado, tenho reparado a tempos que tenho me limitado, cada vez mais, a filmes americanos. Mesmo que não sejam necessariamente mainstream, mas ainda americanos. É claro, se minhas fontes são o Netflix e a página inicial do Kickass, nada mais natural que eu me esqueça de filmes de outras origens. E isso, sim, me envergonha. E me preocupa o fato de eu ter demorado tanto tempo para perceber. Assim como meus hábitos em relação à cidade, meus hábitos com o cinema precisam mudar. Tenho me esforçado para aproveitar mais São Paulo – apesar de estar mais difícil que nunca viver aqui. Apesar do conforto do meu sofá, tenho me proposto a voltar a frequentar salas de cinema. Deixo de lado, algumas vezes por semana, a minha comida caseira de que gosto tanto, para experimentar restaurantes que não conheço. Ao invés de supermercado toda semana, procuro ir à feira. Passear no parque ao invés de pensar em entrar na academia. E por aí vai. Quanto ao cinema, não vou deixar de lado meus hábitos atuais, até porque fico muito feliz quando encontro um filme bom que não teria assistido de outra maneira. A ideia é agregar os hábitos antigos aos atuais. Se alguém tiver uma sugestão de um bom site ou blog de cinema, deixe nos comentários. Volto depois para dizer como anda o desafio.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s